Drogadição e Espiritualidade Daime - um estudo de caso Maio 27, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Santo Daime, Saúde e Religiosidade, subjetivação.add a comment
Livea Oliveira fez seu Trabalho de Conclusão de Curso tendo como tema a Espiritualidade Daime e a reestruturação psíquica de drogadictos. Em sua pesquisa, Oliveira “buscou obter uma possível compreensão sobre as transformações alcançadas por um ex-adicto após seu ingresso à Doutrina do Santo Daime, ‘curado’ a partir desse modelo terapêutico-espiritual”.
O método utilizado foi o de “estudo de caso” - com base na história de vida de um sujeito convertido à religiosidade Daime, nomeado como Pedro, na apresentação do estudo. Oliveira verificou em sua pesquisa que
a partir do ingresso de Pedro na Doutrina e sua vinculação com os valores e filosofia propostos e aceitos, uma razoável reestruturação de seu funcionamento psíquico, observados suas interações com os outros, anteriormente caracterizadas por agressão e poder ao invés de vinculação, para um relacionamento mais saudável, cessando a agressividade e emergindo o respeito pela individualidade de outrem.”
O estudo realizado por Oliveira leva-a a concluir que
a religiosidade, como a “cura da alma”, possibilita ao sujeito recriar sua realidade, empreendendo junto com ele a trajetória rumo a “cura”. E, a este, cônscio de sua realidade, deve ser possível encontrar na espiritualidade, condições para que seu fortalecimento psíquico, habilitando-o ao enfrentamento de suas limitações e, além disso, deve propiciar a emersão de uma conversão emocional perene, na qual uma reflexão ininterrupta e sincera acerca de prioridades, valores e propósitos direcionem o modo de existir de um indivíduo que, encontrando seu continente na religião, busca comprometidamente em sua empreitada, reintegrar e reafirmar construtivamente suas potencialidades, proporcionando-lhe paz e determinação duradouras.”
O texto da autora pode ser acessado aqui: drogadicao-e-espiritualidade-daime-liveaoliveira
Panorama internacional da Psicologia da Religião hoje Maio 27, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Eventos, Pesquisas em Psic. da Relig., Simpósio.add a comment
“Panorama Internacional da Psicologia da Religião Hoje” é o título do Simpósio-debate com o prof. Dr. J. A. van Belzen, da Universidade de Amsterdam, Holanda, promovido pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da PUC - São Paulo, nos dias 3 e 4 de junho de 2008.
O evento é gratuito, mas exige inscrição prévia - Os/as interessados/as devem preencher a ficha de inscrição, disponível no site do Programa Ciências da Religião - da PUC- SP, e enviá-la por e-mail: procrespeventos@pucsp.br
Segue abaixo, informações sobre o evento, como: apoio, público alvo, objetivos, temas dos debates e o programa.
Apoio:
Ø Grupo de Trabalho de Psicologia da Religião da ANPEPP ( Associação Nacional dos Programas de Estudos Pós-Graduados em Psicologia).
Ø Instituto de Psicologia da USP ( Psicologia Social da Religião )
Ø Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP
Ø Programa de Psicologia Social da PUC-SP
Ø Faculdade de Psicologia da PUC-SP
O simpósio se destina em especial aos estudiosos da área psi ( professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação e graduação ) interessados em conhecer a atual situação da Psicologia da Religião na Europa e nos Estados Unidos. O Dr. Belzen, por ter sido Presidente da International Association for the Study of Religion e por suas atividades nesse campo, é um scholar amplamente credenciado para estabelecer uma proveitosa conversação com os psicólogos e psicoterapeutas. Intercâmbios desse tipo se fazem necessários porque é crescente no Brasil o número dos que se dedicam ao estudo da religiosidade e das religiões em suas variadas vertentes e aspectos. Trata-se de uma temática multi e interdiciplinar que é do interesse também dos sociólogos, antropólogos, filósofos, médicos, historiadores, semiólogos e teólogos que se dedicam ao mesmo complexo objeto de estudo.
Objetivos do Simpósio-debate:
1. Dar mais um input à divulgação e organização do estudo científico da Psicologia da Religião em nosso país, na linha do que a ANPEPP vem fazendo através de seus Seminários de Psicologia ( sete ao todo );
2. Oferecer aos psicólogos interessados uma oportunidade de atualização no tocante aos temas e enfoques hoje internacionalmente mais correntes nessa área do conhecimento;
3. Propiciar um intercâmbio e debate mais direto entre o que se faz em nível internacional e o que estamos fazendo no Brasil.
Temas dos debates na PUC-SP e USP
Nos dias 3 e 4 de junho, o Prof. Belzen fará 3 palestras ( na PUC-SP ) e no dia 4, pela tarde, participará de uma conversação sobre a atual situação e tendências da Psicologia da Religião e no mundo ( na USP, Instituto de Psicologia / Psicologia Social da Religião). Esse quarto encontro servirá como fecho dos debates anteriores.
Cada palestra será seguida por uma reação de um ou dois especialistas brasileiros, sendo a palavra aberta em seguida ao público presente.
No dia 3 de junho
Manhã: das 9:00 às 11: 30 horas ( 1ª. palestra, na PUC-SP: sala 239 )
“Cultural Psychology of Religion: Profile of an Interdisciplinary
Approach”
Debatedores:
Prof. Antônio Ciampa ( Psicologia SocialPUC-SP )
Prof. Eduardo R. Cruz ( Ciências da Religião( PUC-SP )
Tarde: das 14:00 às 16:30 horas ( 2a. palestra, na PUC-SP: sala 239 )
“ Progress in Psychology of Religion? On the discussion of Religion as
Projection”
Debatedores:
Profa. Marília Ancona-Lopez ( Psicologia Clínica - PUC-SP )
Prof. Hélio Deliberador ( Faculdade de Psicologia PUC-SP )
No dia 4 de junho:
Manhã: das 9:00 às 11:30 horas ( 3ª. palestra, na PUC-SP: sala 239 )
“ Research on Spirituality: Lessons from the Psychology of Religion”
Debatedores:
Prof. Luiz Felipe Pondé ( Ciências da Religião PUC-SP )
Prof. Gilberto Safra ( Psicologia Clínica - PUC-SP )
Tarde: das 14:00 às 16:30 ( Na USP Instituto de Psicologia )
“Issues and Trends of the Psychology of Religion in Brazil and in Europe and the United States: an interchange”
Debatedores:
Prof.. Geraldo José de Paiva ( Os. Social da Religião- USP )
Prof. Dr. Edênio Valle (Psicologia da Religião/CRE - PUC-SP )
Eventos em Psicologia - 2008 Maio 6, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Congressos, Eventos, Seminários.1 comment so far
Esta é uma contribuição muito legal de Lívea Oliveira: ela garimpou na internet os vários eventos que ocorrerão durante este ano de 2008 na área da Psicologia, e disponibiliza agui o material por ela organizado. Obrigada, Lívea!
Maio
II Fórum Internacional de Saúde Mental e Direitos Humanos
O Brasil foi escolhido para sediar o próximo Fórum, pela sua tradição em lutas e por ter movimentos sociais bastante fortes e atuantes como o Movimento Nacional de Luta Antimanicomial.
Local: Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)
Período: 22/05 a 25/05/2008
Informações: Este Congresso é um dos desdobramentos de uma luta que teve início na época da ditadura militar na Argentina quando as mães de jovens desaparecidos resolveram se unir e lutar pelo aparecimento com vida de seus filhos e filhas.
http://www.saudementaledireitos.com.br/
XII Simpósio de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia
“Conhecimento em Psicologia no Brasil: expansão e avaliação
de 25 a 28 de maio de 2008 - Natal/RN
Junho
Jubra III - Simpósio Internacional sobre a Juventude Brasileira
Data: 04 a 06 de Junho de 2008
local: Goiânia
contato: (62) 3946-1104/3946-1112
www.idf.ucg.br/jubra3
1º Simpósio Internacional de AIDS e Saúde Mental
19 a 21 de Junho de 2008
Local: Teatro da Faculdade de Medicina da USP - SP
http://www.grea.org.br/simposio_aids/simposio_internacional_aids.htm
12th Annual Meeting of the Scientific Study of Consciousness
June 19-22, 2008
Taipei, TAIWAN
URL: www.ym.edu.tw/assc12
Julho
03 - 05 Julho 2008
( Buenos Aires, AR, AR)
http://www.apbametropolitano.com.ar/back/news1.php?id=27
V ENCONTRO INTERNACIONAL DA IF-EPFCL “OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE: a psicanálise no seu tempo e o tempo na psicanálise”
05 - 06 Julho 2008
( São Paulo, SP, BR)
http://www.vencontro-ifepfcl.com.br/
XII CONGRESO LATINOAMERICANO SOBRE RELIGIÓN Y ETNICIDAD “CAMBIOS CULTURALES, CONFLICTO Y TRANSFORMACIONES RELIGIOSAS
07 - 11 Julho 2008
( Bogotá, CO)
http://www.urosario.edu.co/cetre/aler/aler.html
XXIX International Congress of Psychology
July 20-25, 2008
Berlin, GERMANY
Please consider to be part of this congress and submit your abstract for an oral presentation, a symposium, or a poster via the congress website www.icp2008.org < http://www.icp2008.org/> . The deadline for the submission of your abstracts is October 31, 2007.
URL: http://www.icp2008.de
II CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIA DA ABRAP / VII CONGRESSO LATINOAMERICANO DE PSICOTERAPIA
31 Julho - 03 Agosto 2008
(São Paulo, SP, BR)
http://www.abrap.org/
I CONGRESSO DA ABRAMD SOBRE DROGAS E DEPENDÊNCIA
31 Julho - 02 Agosto 2008
(São Paulo, SP, BR)
http://www.abramd.org.br/
Agosto
VII São Paulo Research Conference: “Cérebro e Pensamento”
09 a 11 de Agosto de 2007
Espaço de Eventos Hakka
Rua São Joaquim - 460
Liberdade - São Paulo - SP
TEL: (11) 3385.0000
XVI ENCONTRO REGIONAL DA ABRAPSO MINAS “PSICOLOGIA SOCIAL E DESIGUALDADES: hierarquias e enfrentamentos
14 - 16 Agosto 2008
(Uberlândia, MG, BR)
ANNUAL CONVENTION OH THE AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION
14 - 17 Agosto 2008
(Boston, US, US)
http://www.apa.org/convention08/
Setembro
III Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental
IX Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental
Tema: Pathos: violência e poder
Local: Universidade Federal Fluminense – UFF – Niterói, RJ, Brasil
Data: 4 a 7 de setembro de 2008
http://www.fundamentalpsychopathology.org/?s=90
XVI CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO JUNGUIANA DO BRASIL - Gaia, individuação e sociedade
19 - 21 Setembro 2008
(Rio de Janeiro, RJ, BR)
http://www.ijrj-congresso2008.com.br/
XXVII CONGRESSO FEPAL: Pessoa e presença do analista
25 - 28 Setembro 2008
(Santiago, CL, CL)
29 Setembro - 03 Outubro 2008
(Caxambu, MG, BR)
http://www.abep.org.br/usuario/GerenciaNavegacao.php?caderno_id=470&nivel=0
Outubro
V Conferencia Internacional de Psicología de la Salud
13 al 17 de octubre de 2008
Sede: Palacio de Convenciones de La Habana
http://psicosalud2008.sld.cu /
www.cpalco.com
XXXVIII REUNIÃO ANUAL DE PSICOLOGIA
28 - 31 Outubro 2008
(Uberlândia, BR)
http://www.sbponline.org.br/
Novembro
CONGRESSO INTERNACIONAL DE SALUD ESCOLAR Y UNIVERSITARIA
24 - 28 Novembro 2008
(Havana, CU, CU)
A Religiosidade Daime e a redução do uso abusivo de substâncias psicoativas Abril 28, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Religião e Sociedade, Santo Daime, Saúde e Religiosidade.1 comment so far
Nas últimas décadas, a Religiosidade Daime tem se expandido significativamente nos centros urbanos. Uma das novidades dessa expansão é a sua penetração em outras formas de religiosidade como Hare-Krishna, Umbanda e também no Hinduísmo, conforme reportagem veiculada pela Folha de São Paulo, em 02.12.2007: santo-daime-se-expande-e-invade-crencas2
Outra novidade da religiosidade Daime tem sido apresentada em estudos acadêmicos que afirmam sua positividade na reestruturação do funcionamento psíquico de pessoas adictas.
Para conhecer um pouco sobre o Santo Daime, assista ao vídeo produzido pelo Fantástico.
Em agosto de 2007, no VI Seminário de Psicologia e Senso Religioso, Lívea P. M de Oliveira apresentou um trabalho sobre a Espiritualidade Daime e a reestruturaçao do funcionamento psícquico do adicto. O resumo do seu trabalho pode ser acessado aqui: a-espiritualidade-a-servico-da-transformacao
Também o trabalho de Rafael Guimarães dos Santos apresenta os benefícios da religiosidade Daime para pessoas adictas: santo-daime-e-libertacao-de-psicoativos
Narcisismo contemporâneo e a produção social do comportamento adicto Abril 1, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Winnicott, narcisismo, produção de subjetividade, subjetivação contemporânea.add a comment
Reproduzo aqui, uma reflexão de Contardo Calligaris, publicada na Folha de São Paulo - de 22.11.07. No texto, Calligaris chama a atenção para a produção contemporânea do comportamento adicto em suas mais diversas expressões: desde o consumo de objetos vários, às diferentes drogas alucinógenas. Na tentativa de supressão do sofrimento a qualquer custo, e frente ao desejo de completude absoluta, parece que “os objetos de consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto”.
As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.
Segue o texto completo de Caligaris.
Narciso no país das maravilhas
A maioria dos objetos são drogas: satisfazem um anseio parecido com o do toxicômano
ESSE É o subtítulo de um estudo publicado recentemente (2006) pela Routledge, “The Self Psychology of Addiction and its Treatment” (a psicologia-do-self da adicção e de seu tratamento). Os autores, Richard Ulman e Harry Paul, são psicanalistas (da psicologia do self, a escola de Heinz Kohut), terapeutas de toxicômanos e eles mesmos drogadictos em remissão.
O estudo, embora estritamente clínico, propõe uma visão da toxicomania que, ao meu ver, vale como interpretação geral da modernidade. Explico.
Na laboriosa tentativa de encontrar um lugar no mundo, cada um de nós se alimenta de duas fontes: 1) as aspirações, as normas e os brasões transmitidos por nossos ascendentes, coisas que podem nos dar a sensação de que temos uma missão na vida; 2) o amor, mais ou menos incondicional, que nos acolhe e agasalha nos primórdios de nossa existência permitindo, aliás, que ela vingue.
Em suma: legados paternos e cuidados maternos (é óbvio que qualquer um pode fazer função de pai ou de mãe).
Ora, na modernidade, bebemos sobretudo na segunda fonte. Por isso, somos todos narcisos, ou seja, mais preocupados em sermos gostados, amados e admirados pelos outros do que com deveres e princípios.
Problema: em geral, o modelo do amor graças ao qual seríamos “alguém” (que sempre significa “alguém muito especial”) é o momento em que, pendurados ao peito materno, ou melhor, com a mãe pendurada aos nossos lábios, estaríamos ao centro de um mundo controlado por nós: basta chamar, chorar etc. para que ela apareça e nos faça felizes.
Logicamente, com esse sonho narcisista encravado no nosso âmago, torna-se difícil lidar com separações, frustrações etc. E, infelizmente, o mundo é um pouco mais cruel do que a mãe-padrão e sempre muito mais cruel do que a mãe mítica e escrava que gostaríamos de ter tido.
Como aprendemos a encarar perdas, danos e fracassos?
Quem lia as tiras de Charlie Brown, de Charles Schultz, deve se lembrar do cobertor que Linus carregava sempre consigo: quando as coisas não iam bem, ele agarrava o cobertor e chupava o dedo; era seu jeito de reencontrar, momentaneamente, a felicidade perdida. O cobertor de Linus é um exemplo perfeito do que D. W. Winnicott, um grande psicanalista, chamou de “objetos transicionais”: são objetos inanimados, mas que representam um amor do qual não conseguimos ainda nos separar.
Eles funcionam como o lápis entre os dentes do fumante que quer parar de fumar: não substitui o cigarro, mas, na luta para deixar o vício, oferece conforto nas crises de abstinência. Ou como a mamadeira da noite quando o desmame acabou há tempos, mas ainda bate, digamos assim, uma “nostalgia amorosa”.
À força de brincar com cobertores e chupetas, a gente deveria aprender a 1) dispensar cobertores e chupetas,
2) lidar com a precariedade da presença e do amor dos outros. Mas não é tão simples assim, até porque, nessa tarefa, o mundo não nos ajuda. Narciso vive no país das maravilhas, diante de uma imensa vitrina de objetos que nos prometem o seguinte: ao alcançá-los, ganharemos o amor, a admiração e (por que não) a inveja de todos. E alcançá-los é fácil -basta comprar: chocolate, relógios, charutos ou pacotes de férias.
Quem precisa de amores incertos com pessoas de verdade ou de objetos “transicionais” que as representem? Os objetos do consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto.
As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.
Poderia ser o melhor dos mundos, se não fosse por dois detalhes. 1) Se hesito entre um carro e uma amizade ou um amor, é bem provável que minha experiência afetiva seja miserável; 2) se espero a felicidade dos objetos, desaprendo a agir e a desejar. No próximo domingo é a primeira fase da Fuvest, e passei o ano dormindo no cursinho? Não é o caso de me desesperar, vou para o shopping comprar um sapato simplesmente “divino”.
Agora, falando sério, por que se opor à liberação das drogas? Afinal, a maioria dos objetos em venda livre satisfaz, no fundo, um anseio parecido com o do toxicômano. Relaxe e goze…
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2211200725.htm
Considerações acerca do Suicídio - “Suicídio, Religião e Religiosidade” Março 17, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Religião e Suicídio, suicídio.add a comment
Contardo Calligaris observa em sua coluna na Folha de São Paulo do dia 28.02.08 que “nos últimos anos, subiu o índice de suicídio na população entre 40 e 64 anos”. E aí ele levanta a questão: “Por quê?”.
A informação trazida por Calligaris tem por base uma reportagem do “The New York Times” que publicou “os resultados de uma pesquisa dos Centers for Disease Control and Prevention dos EUA (centros para controle e prevenção das doenças)”. Calligaris afirma que
A pesquisa mostra que, de 1999 a 2004, na população entre 45 e 54 anos de idade, o índice de suicídios aumentou, em média, 20% (31% entre as mulheres).
No mesmo período, os suicídios de adolescentes aumentaram 2% e os de pessoas idosas diminuíram.
Em 2004, nos EUA, 32 mil mortes foram oficialmente atribuídas a suicídio. Ampliando a faixa da meia-idade, constata-se que, dessas mortes, mais de 14 mil são de pessoas entre 40 e 64 anos.
De acordo com o “New York Times”, observa Calligaris - “o fenômeno não seria apenas americano: um estudo recente aponta que, em 80 países, as pessoas de meia-idade são as menos ‘felizes’. As explicações são hipotéticas”.
Por exemplo, no que concerne às mulheres, desde 2002, diminuiu fortemente o uso da reposição hormonal na menopausa. Talvez o déficit de estrógeno tenha efeitos depressivos diretos ou indiretos. Também observa-se que pessoas de meia-idade são grandes consumidoras de antidepressivos. Talvez um uso vacilante dessa medicação (com interrupções brutais sem acompanhamento psiquiátrico) seja responsável por momentos de aflição irresistível. Mas é mais provável que, no caso, o consumo de antidepressivos seja apenas prova suplementar de que as pessoas dessa idade são especialmente “vulneráveis”.
Em suma, resta a pergunta: o que acontece, entre os 40 e os 64, que levaria ao suicídio mais indivíduos do que em outras faixas etárias?
O que leva ao suicídio, “adultos na plena força da vida?” Calligaris pontua que os exemplos trazidos pelo New York Times não levantam como causa possíveis crises profissionais ou de desemprego. Isto leva o colunista a tecer os seguintes comentários:
1) Nas últimas décadas, mesmo nas fileiras de quem acredita em Deus ou na revolução futura, vem se impondo a vontade (ou a necessidade) de justificar a vida “por ela mesma”. As aspas servem aqui para lembrar que ninguém sabe o que isso significa. Alguns pensam nos prazeres que eles se permitem, outros na satisfação de serem úteis ao próximo, outros ainda avaliam a qualidade estética de sua história ou valorizam a variedade e a intensidade de suas experiências. Seja como for, a vida deveria valer a pena pelo que a gente faz, pela própria experiência de viver.
2) Acrescente-se que, a partir dos anos 60, os adultos de nossa cultura começaram a se preocupar com a adolescência -ou seja, entre outras coisas, passaram a querer furiosamente que suas crianças se preparassem para elas serem “felizes” um dia (em todos os sentidos: sucesso amoroso e financeiro, êxtase, bom humor permanente).
3) Chegam hoje à meia-idade as gerações que cresceram esperando uma “felicidade” que daria sentido à longa “preparação” de sua adolescência e convencidas de que a vida deve se justificar por ela mesma. Os que fracassaram têm sorte: eles podem se dizer que a coisa não deu certo. Os que se acham bem-sucedidos esbarram, inevitavelmente, numa questão inquietante: “Então, é isso? Era só isso?”.
Sobre esse último comentário, podemos fazer alguns links sobre a função da religião como doadora de “sentido para a vida” e levantar, também, a pergunta sobre se a religião e a religiosidade ajudam ou não na prevenção do comportamento suicida.
O livro: “Suicídio - Estudos Fundamentais”, editado por Alexandrina M. A. da Silva MELEIRO, Chei Tung TENG e Yuan Pang WANG representa uma importante contribuição no debate acerca do suicídio. Um dos seus doze capítulos trata do suicídio e sua relação com as questões da religião e do exercício da religiosidade. O capítulo escrito por Alexander Moreira de Almeida apresenta uma revisão das pesquisas realizadas em torno do tema “Religião e Comportamento Suicida” e conclui que:
faz-se mister uma maior atenção às variáveis relacionadas à religiosidade nos estudos sobre o suicídio, bem como na prática clínica, pois ela tem se mostrado um importante fator protetor contra atos suicidas, embora ainda restem muitas questões a serem respondidas por futuras pesquisas
Almeida ainda faz um alerta: “O Brasil não tem produzido de modo consistente pesquisas que colaborem para uma melhor compreensão do tema”. E arremata:
Pela diversidade religiosa de nosso país, os pesquisadores nacionais têm a tarefa de ampliar os estudos das relações entre religiosidade e comportamento suicida, bem como investigar o quanto os achados de pesquisas realizadas em outras culturas se aplicam à nossa população”
O Capítulo escrito por Almeida, “Religião e Comportamento Suicida”, está disponível on-line no seguinte endereço:
http://www.hoje.org.br/site/arq/artigos/20050401-es-draa-ReligiaoSuicidio.pdf
Suicídio e Literatura - O Mito de Sísifo (Camus) Março 2, 2008
Posted by psicologiadareligiao in sacrifício, sofrimento, subjetivação contemporânea, suicídio.add a comment
(Imagem capturada do site: http://pt.muestrarios.org/b/a-preciso-imaginar-sasifo-feliz.html)
Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Albert Camus).
Suicídio ou Sacrifício?
Duas situações nos dão o que pensar quando colocadas em paralelo:
Nos EUA - Uma situação que tem se repetido com uma freqüência assustadoramente maior: um indivíduo armado entra numa Universidade ou num lugar qualquer, dispara contra várias pessoas desconhecidas matando-as. Em seguida, tira a própria vida.
No Oriente Médio - A emergência da figura dos “homens-bomba” (mas também das “mulheres-bomba”) causa surpresa para nós ocidentais que temos dificuldades para compreender a prática de entregar a própria vida num ato de destruição de si e do outro.
Qual a diferença entre estas duas situações?
A partir de um olhar superficial, sem muita reflexão, arrisco-me a pensar que se trata de dois modos distintos de subjetivação. Dois modos de existência que se configuram sobre o “chão” de uma pergunta motivadora do existir e do morrer: “qual o sentido da vida e da morte?” Enquanto a primeira situação descrita parece configurar-se em cima de um nihilismo existencial onde nada vale coisa nenhuma, nem minha vida nem a do outro, nada na vida (nem na morte) tem sentido, e viver e/ou morrer é a mesma coisa e por isso, numa crise de ódio contra a vida posso destruir a mim e ao outro, na segunda situação, intuo que a razão motivadora para tal prática se distingue significativamente.
Na segunda, o sentido religioso dá o tom da ação. Decide-se viver e/ou morrer por motivos com-sentido. O viver é construído com base no sentido (político-religioso) que permeia as escolhas e delineia uma estética da vida (e da morte). Morre-se, ou entrega-se a vida, pelas mesmas razões que permitem alguém continuar vivendo. O gozo de “destruir se destruindo” parte de motivações distintas nas situações apresentadas.
O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. O filósofo tcheco VILÉM FLUSSER, ao analisar a obra de Camus, em artigo publicado na Folha de São Paulo, no Caderno Mais, de 02.03.08, afirma que a humanidade do século 20 “se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus”. Flusser finaliza seu artigo colocando em questão a ética da existencialidade hoje, e pergunta-se sobre as saídas para a “vida absurda” que o ser humano tem construído para si.
O artigo de Vilém Flusser pode ser acessado aqui: O Mito de Sísifo - de Camus
Acesse também: O suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo.
Post relacionado: Considerações acerca do Suicídio - “O suicídio em tempos pós-modernos”.
Considerações acerca do Suicídio - “O Suicídio em tempos Pós-Modernos” Fevereiro 28, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Pós-Modernidade, Religião e Suicídio, subjetivação contemporânea, suicídio.1 comment so far
Posted by Thaísa Vilhena Silva
O suicídio quebra a ordem natural da vida. Parece estar presente desde os primórdios e foi recebendo ao longo dos tempos, diversos significados, o que variou também de cultura para cultura.
Atualmente, tem se verificado um aumento no índice de suicídio, o que pode ser justificado através de diversas teorias.
O texto disponibilizado abaixo tem como eixo de discussão as novas formas de viver do ser humano, moldadas pela pós-modernidade. Assim, ele vem descrever um novo sujeito, frágil, desestabilizado, sem rumo, que busca a droga, o remédio, o consumo e o suicídio como saídas para o seu sentimento de desamparo.
(Este post é o primeiro de uma série voltada ao tema do Suicídio. Abrimos a discussão com o artigo da psicóloga Thaísa Vilhena Silva - a mais nova colaboradora do blog).
Música e Psicologia da Religião - a carência de “momentos de beleza” Fevereiro 25, 2008
Posted by psicologiadareligiao in MPB, Tillich, arte.add a comment
Estou cada vez mais convencida de que “em geral, a arte não apenas parece antecipar com notável clareza as transformações já em curso, como também pode servir de instrumento para elucidar tais transformações” (Esperandio, 2007, p. 17). A arte “nos provoca, mexe com nossas emoções, nos invade, nos deixa boquiabertos, atinge nossas emoções e nos abala” (Calvani, C. online).
A música de João Alexandre, “É proibido pensar”, aponta com a graça da arte, os jogos de poder-saber que se configuram em muitas formas de expressão religiosa no Brasil. Ouça sua música e aproveite para refletir um pouco mais sobre Teologia e MPB, acessando o interessante texto de Carlos E. B. Calvani: “Momentos de beleza - Teologia e MPB a partir de Tillich”.
Cinema e Psicologia da Religião - O eterno retorno em “Abril Despedaçado” Fevereiro 17, 2008
Posted by psicologiadareligiao in Cinema e Psicologia da Religião, eterno retorno.add a comment
Abril Despedaçado é um belo filme! Um dos mais bonitos que já vi! Nos últimos tempos, o cinema brasileiro tem se mostrado criativo, com capacidade de produzir verdadeiras obras de arte, como é o caso deste filme dirigido por Walter Salles, de 2001. Um filme que nos faz orgulhosos de nossa brasilidade!
O roteiro, do próprio Walter Salles em parceria com Sérgio Machado e Karim Ainouz, é uma adaptação do romance homônimo do albanês Ismail Kadaré. A história narrada por Kadaré aborda os crimes de sangue, regidos pelo Kanum, um código que encontra semelhança (não equivalência) nas guerras entre famílias no nordeste, segundo pesquisa empreendida por Salles.
Por sugestão de Kadaré, mergulhamos num segundo processo de pesquisa, que nos levou à tragédia grega e, mais especificamente, às peças de Ésquilo. O derramamento de sangue e as lutas fratricidas pelo poder são alguns dos temas que alimentaram o nascimento da tragédia grega. Aprendi que, até o século 7 D.C., os crimes de sangue cometidos na Grécia não eram julgados pelo Estado. Seu desenlace era determinado pelas famílias em conflito, que estabeleciam seus próprios códigos para a reparação do sangue derramado. Curiosamente, é na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil. Voltava-se portanto ao Brasil, através do teatro grego. Ficava também claro o caráter universal do relato de Kadaré.
Em relação à “cobrança de sangue” no Brasil, Salles afirma que o livro de Luiz Aguiar Costa Pinto, escrito na década de 40, Lutas de Família no Brasil, “permite entender como os conflitos que aconteceram no nosso país se aproximam - ou se distanciam - daqueles vividos na Albânia de Kadaré. Baseado na análise dos confrontos entre as famílias Pires e os Camargos, em São Paulo, e entre os Feitosas e os Montes, no Ceará, o livro prova que a vingança, no Brasil, se dá na ausência do estado regulador”. A partir desse livro, Sérgio Machado condensa os códigos estabelecidos pelas famílias em suas tentativas de regular as cobranças de sangue, do seguinte modo:
“A vingança é um dever irrestrito e indiscutível, de cuja obrigatoriedade não se pode fugir, sob pena de banição. Neste caso, a desgraça não é só individual, mas da família inteira”.
“Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria existência e o equilíbrio social”.
“A hipertrofia do poder familiar e a fraqueza do poder público determinam o problema das vinganças privadas no Brasil”.
“O dever de vingança cabe naturalmente ao parente mais próximo da vítima”.
“Se o mais próximo dos parentes não cumprir o dever, o ressentimento do defunto se voltará contra ele”.
É esta a história mostrada em Abril Despedaçado: a de uma família presa num ciclo interminável de vingança por causa de uma disputa por terra. Assim, em razão dessa obrigatoriedade da qual não se pode fugir (a cobrança de sangue do irmão morto), a vida do filho mais velho, Tonho (Rodrigo Santoro) , um jovem de apenas 20 anos, fica dividida em dois tempos: os poucos 20 anos já vividos e o breve tempo que lhe resta. Como bem lembra o patriarca da família rival, cada batida do relógio marcando o tempo fará lembrar a Tonho o ritmo de um ciclo sem fim: “menos um… menos um… menos um…”
O irmão mais novo de Tonho, o “Menino” (Ravi Lacerda), como é chamado pela família, tem apenas 11 anos. É ele quem questiona o ciclo de vingança. Em sua simplicidade de criança, parece o único inconformado com o ciclo do eterno retorno de destruição e de resignação a um modo de vida que não abre espaço para escolhas. É dele a percepção de que a regra do “olho por olho” deixa todo mundo cego e quem tem um olho só é doido. Menino se dá conta do processo destrutivo que rege as duas famílias: “é tudo igual de um lado e do outro”. Enquanto enuncia essa frase, ele faz o movimento de balanço do pêndulo, lembrando o tempo - que embora possa ser vivido como “repetição do mesmo”, também é nele, no tempo, que se pode construir o sonho, e onde o desejo de liberdade pode ser mais do que a sensação de vôo que o balanço pode propiciar… O balanço era o único objeto-meio de lazer do Menino nesse lugar seco onde até o riacho secou. “Era” até o encontro com um casal circense (Flávia Marco Antônio e Luiz Carlos Vasconcelos) que por ali passa à procura do centro da cidade, e a moça lhe dá um livro de presente. No diálogo com o homem, este pergunta ao Menino: “que lugar é este?“Menino responde: “- Riacho das Almas“. - “cadê o riacho?“, pergunta o homem. “- Secou. Só ficou as alma mesmo!”, responde o Menino.
Menino reflete sobre a vida, inconformado pela repetição do mesmo. Numa alusão à bolandeira, tocada por bois para moer a cana para o preparo da rapadura - tarefa que envolve toda a família, todos os dias, num trabalho repetitivo que simboliza a própria vida da família cuja experimentação no tempo pode ser desenhada como o giro infindável da bolandeira marcando um modo de ser que aprisiona e impede os movimentos de criação, Menino observa: “A gente é que nem os boi: roda, roda e nunca sai do lugar“…
É na bolandeira (roda dentada do engenho de açúcar) que a família se sustenta: cada um tem seu papel nesse círculo interminável sem espaço para nenhum outro movimento que não seja o da repetição. O aprisionamento neste círculo é de tal forma intenso que até mesmo os bois, ao serem retirados da canga, rodam em par em torno da bolandeira. Chocado pela cena, o Menino grita: “Tonho, os boi tão rodando sozinho!”.
Como libertar-se do círculo fechado, de destinos traçados, de uma vida pesada? “A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que nós pode carregar! Conversa fiada, às vezes ele manda um peso tão grande, mas tão grande que ninguém guenta!”
Numa linda cena onde Tonho aparece deprimido, sentado no balanço do Menino, sabendo do pouco tempo que lhe resta, Menino aproxima-se do irmão. Tonho lhe diz: “Lembra que fui eu quem te ensinei a voá com isso? Tu morria de medo…” Os olhos do menino se abrem e este lhe diz: “Tonho, hoje é tu quem vai avoá… Tu fica no meu lugá e eu no teu…“. É como se o Menino intuísse ali, uma saída para o ciclo… Mas a corda do balanço é fraca… não suporta o peso de Tonho que observa que “o menino está forte demais”… e este replica: “Eu não… é tu que não sabe avoá…!”
A possibilidade de invenção do novo no círculo de repetição do mesmo se dá quando Tonho encontra Clara, a moça do circo. Quando o casal circence vai para Ventura, Tonho “se aventura” a seguir com eles. Está quase chegando ao fim o tempo que lhe resta. Mas aí em Ventura, Tonho experimenta um outro círculo. Na imagem onde é ele quem faz Clara girar num plano espacial acima do solo firme, evidencia-se a diferença de uma outra possibilidade de experimentação circular. Um círculo que pode ser interpretado pela noção nietzscheana de eterno retorno. O encontro com Clara é por acaso. É ela quem apresenta a Tonho outros formas circulares… O encontro entre Clara e Tonho faz nascer o desejo de experimentação de um modo de existência circular mas afirmativo, porque cheio de alegria e beleza. Ali nasce o desejo do eterno retorno - “a fórmula suprema da afirmação”, segundo Nietzsche.
Para Nietzsche, eterno retorno refere-se ao pensamento seletivo e ao ser seletivo: “Se em tudo o quiseres fazer, começas por perguntar a ti mesmo: ‘É certo que o queira fazer um número infinito de vezes?’ será para ti o centro de gravidade mais sólido. (…) Vive de tal maneira que devas desejar reviver” (Nietzsche apud Deleuze, p. 77). Na cena mencionada, Clara grita muitas vezes: “mais, mais, mais, mais…” . Naquele momento Clara se liberta ao afirmar o seu querer, o seu desejo de viver as próprias escolhas. Por isso, mais tarde, ao decidir ir ao encontro de Tonho, ela declara: “Eu vim te dizê que não tô mais presa… Foi tu que me ajudou. Tu também pode, Tonho!”.
A idéia nietzscheana do eterno retorno pode ser uma noção importante para avaliar as escolhas religiosas individuais. Ela contribui com a reflexão a respeito de um critério para avaliar as nossas ações e as nossas escolhas: “Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?” Esta pergunta “pesaria sobre tuas ações como um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação!” (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 341)
Abril Despedaçado nos traz à lembrança, de uma forma bela e poética, o que muitas vezes esquecemos: a necessidade de uma dupla afirmação - afirmar a vida através da afirmação do desejo apenas e tão somente daquilo que realmente vale a pena e daquilo que de fato queremos perpetuar como um eterno retorno.
Sobre as “notas do diretor” a respeito do filme, acesse: http://www.abrildespedacado.com.br/pt/oprocesso_pt.htm
