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O espaço da Ilusão – a contribuição de Winnicott para a Psicologia da Religião agosto 30, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Ilusão, Winnicott.
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Freud considerou a religião como ilusão e identificou-a como o desejo primitivo de fusão com o outro para dirimir o sofrimento da separação e do desamparo. A busca religiosa seria, portanto, uma tentativa inconsciente de repetir a “matriz” primitiva da experiência de prazer e satisfação. Winnicott, ao contrário de Freud, interpretou a Religião (assim como a Arte e a Filosofia) como manifestações da “utilização da ilusão”. Ilusão não como engano ou fantasia, mas como instância de afirmação e criação da vida.

Para Winiccott, o desejo de fusão e a gradual insatisfação desse desejo, é o que permite ao sujeito o sentimento de continuidade da existência. O amadurecimento emocional só acontece quando se faz oposição a esse desejo de modo paulatino. As experiências de separação entre bebê e mãe trazem sofrimento ao bebê em razão da perda do sentimento de continuidade da existência. Esse sofrimento leva-o a lidar com essa dor fazendo-o inventar formas de dar conta dela. Winnicott observou que nesse processo, o bebê encontra objetos que simbolizam a presença da mãe e por isso são capazes de restaurar o sentimento de continuidade de existência, necessário ao processo de constituir-se como uma unidade coesa. A esses objetos simbólicos, Winnicott chamou de objetos transicionais, porque eles têm uma função fundamental, porém temporária. Assim, pelo objeto que o próprio bebê escolhe para simbolizar a mãe, ele vai constituindo-se como unidade separada, reconhecendo-se como sujeito ao mesmo tempo em que não perde, pela separação, o sentimento de continuidade de existência. Ou seja, sentimento de continuidade não é o mesmo que sentimento de completude.

Esse objeto que surge no “entre” bebê e mãe é um objeto “criado” pelo próprio bebê, e indica o movimento criador, fundante de uma existência ativa. Para Winnicott (1975, p. 141), a experiência com os objetos transicionais representa uma “terceira área”, que fica entre interior e exterior e é o local da criação (da ilusão, ou ainda do espaço potencial). Winnicott parece identificar com essa terceira área o próprio processo de subjetivação que acontece nas dobras da subjetivação. “O termo objeto transicional abre campo ao processo de tornar-se capaz de aceitar a diferença e similaridade” (1975, p. 19), pois esse objeto transicional funciona como visibilidade de um jogo de forças ativas e reativas que se dá na dimensão invisível. E essa experiência tem a ver com a construção da capacidade de simbolização, presente na religião, por exemplo. Essa terceira área, que Winnicott identifica como uma área de “ilusão”, de seu ponto de vista é necessária a esse sentimento de continuidade existencial, pois, a substância da ilusão refere-se ao que é permitido ao bebê e que na vida adulta, é inerente à arte e a religião (1975, p. 26). Essa área intermediária (espaço das ilusões necessárias) está “entre a criatividade primária e a percepção objetiva baseada no teste da realidade” (1975, p. 26). Interessante observar que para Winnicott, essa área de substância ilusória é o espaço que nasce da atividade criativa – que é uma passagem (transição) para a “realidade externa”. É a área onde a experiência cultural se realiza criando os fenômenos transicionais (arte, filosofia e religião) - necessários ao ser humano. É, portanto, o espaço onde o adulto encontrará alívio da tensão que nasce da necessidade de “aceitação da realidade que nunca é completada, e que nenhum ser humano está livre da tensão de se relacionar com a realidade interna e externa” (1975, p.28-29).

Parece-nos que o posicionamento de Winnicott em relação a ilusão como necessária à vida, aproxima-se de Nietzsche, quando este afirma que “a vida tem necessidade de ilusões, isto é, de não-verdades tidas como verdades. Ela tem necessidade de crença na verdade, mas então a ilusão basta, isto é, as ‘verdades’ se demonstram por seus efeitos, pela prova da força, e não por provas lógicas” (apud Machado, 1999, p. 45).

A Religião, assim como outros fenômenos, encontram-se no espaço cultural e entram no jogo das relações de força que lidam com as forças de narcisação ativas e reativas, sendo componente importante da dinâmica contínua de criação da vida em cujo processo emergem as subjetividades.

Tanto Winnicott, por parte da Psicologia, quanto Tillich, por parte da Teologia, observam que o que faz oposição à vida não é o instinto de morte, mas sim, o não-ser (para Tillich) ou o não-viver (para Winnicott). Tillich pontua que para ser/viver, exige-se coragem – que pode ser experienciada na religião. Contudo, “muita coragem de ser, criada pela religião, nada mais é do que o desejo de limitar o próprio ser e de fortalecer esta limitação pelo poder da religião”, observa Tillich (1972, p. 56). A coragem de ser como “si próprio”, na perspectiva de Tillich tem a ver com a criação do “próprio estilo” winnicottiano. Tem a ver com a “coragem de fazer de si próprio o que se quer ser”.(Tillich, 1972, p. 117). Mas há um paradoxo em “fazer de si o que quer ser”, pois, o mesmo não se separa do ser que participa na existência do outro e no cuidado com o outro.

A religião, como fenômeno transicional, se coloca como lugar/instância que o ser humano “usa” para lidar com as contingências da vida, e também como “lugar” onde as subjetividades experienciam, simultaneamente, as forças de criação-afirmação e forças de negação da vida. Uma religião saudável é, portanto, aquela que põe em funcionamento as forças ativas e contribui, desse modo, para um modo de existência que busca mais do que a sobrevivência, simplesmente. Uma religião que põe em movimento as forças ativas contribui com o ser humano em seu processo contínuo de criação, afirmação e expansão da vida.

Bibliografia:

MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

TILLICH. Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.

 Acesse, também, em Publicações, um breve comentário sobre o livro de Ana-Maria Rizzuto – O Nascimento do Deus Vivo – um estudo psicanalítico.

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Comentários»

1. Zaira - setembro 6, 2007

Pergunta:

Existiu algum escritor significativo de Teologia da Religião que entendeu a religiosidade de uma forma cristã?

2. psicologiadareligiao - setembro 7, 2007

Oi, Zaira, acho que vc quis dizer “Psicologia da Religião”, não? Posso mencionar pra vc: Oskar Pfister – que vamos estudar daqui alguns dias em aula, Victor Frankl, entre outros. Se vc entende “religiosidade cristã” como uma forma de experiência religiosa que valoriza o cuidado de Si em simultaneidade ao cuidado do outro (para Jesus, a lei podia ser resumida em “amar a Deus e ao próximo como a si mesmo”) vc pode encontrar muitos teóricos da escola Humanista com uma visão profundamente cristã.

psicologiadareligiao - junho 22, 2009

Especificamente sobre a creche, não sei Jacqueline. Mas vc pode fazer uma boa reflexão sobre o tema da creche a partir das idéias de Winnicott, contidas em: “O Brincar e a Realidade”; “Privação e Delinquência” e “Da Pediatria à Psicanálise”.


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