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Por que Freud rejeitou Deus? setembro 17, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Ana-Maria Rizzuto, forças de narcisação, Freud e religião, Ilusão, narcisismo.
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Esta foi a pergunta motivadora que levou Ana-Maria Rizzuto a empreender uma pesquisa sobre o assunto, com resultados muito interessantes, disponibilizados ao público no livro sob o mesmo título.

Rizzuto conta que a busca por resposta à pergunta “por que Freud rejeitou Deus” começou quando se preparava para fazer uma palestra para a qual foi convidada, durante a exposição “As antiguidades de Sigmund Freud: fragmentos de um passado esquecido”, promovido pelo Freud Museum de Londres em comemoração ao qüinquagésimo aniversário da morte de Freud, no período de 28 de fevereiro a 5 de abril de 1992. Ao aceitar o convite, Rizzuto decidiu olhar mais de perto as coleções de Freud e ficou impressionada com a seguinte constatação: as “similaridades entre os objetos reproduzidos no catálogo [da exposição] e as ilustrações da Bíblia” que pertencia a Freud, presenteada por seu pai. Essa bíblia de Freud “continha mais de 500 gravuras de animais, árvores, objetos e paisagens mencionados no texto” – tratava-se, na verdade, de três volumes. Rizzuto então afirma:

Diante de mim estavam centenas de ilustrações bíblicas. Os objetos em exposição representavam apenas pouco mais de três por cento da coleção de Freud. Isso tornava ainda mais surpreendente o fato de que tantos objetos na mostra evocassem as ilustrações bíblicas. (…) As ilustrações bíblicas devem ter influenciado Freud na escolha dos objetos e talvez até mesmo em sua paixão por colecionar” (p. 13).

A partir dessa observação intrigante, Rizzuto toma então como sua tarefa “apresentar uma explicação psicanalítica para as similaridades”. Assim,

Seguindo o método de investigação do próprio Freud, explorei as circunstâncias de seu colecionamento, o significado pessoal explícito dos objetos, seus prováveis motivos inconscientes e a satisfação consciente que os objetos proporcionavam ao seu proprietário (p. 13).

No percurso de sua investigação, a autora dá-se conta de que a tese freudiana de que a religião perpetua a ilusão infantil de estar protegido por um pai bondoso levou-o a uma busca de libertação desse anseio considerado, por ele, como infantil. Rizzuto descobre que Freud, quando criança, formara em sua mente uma certa representação de Deus que merecia ser pregado e louvado. A partir dessa observação, sua tarefa passou a ser, então, a de descobrir as mudanças intrapsíquicas que transformaram a imagem de Deus que ele possuía quando criança, “em sua denúncia adulta de Deus como um produtor de desejos infantis” (p. 14).

O processo investigatório de Ana-Maria Rizzuto traz-lhe surpresas inusitadas acerca da relação de Freud com a bíblia e com o seu pai. O livro descreve o curso de suas investigações e revela os resultados. Rizzuto mostra, assim, que foi a partir da relação construída com seu pai (de onde provém a idéia de Deus, segundo o próprio Freud) que torna-se impossível a Freud desenvolver uma relação com Deus. A Freud restava uma única escolha, segundo Rizzuto: a de “aceitar que estava sozinho, desprotegido, sem modelo, e que a evidente afeição de seus pais não podia ajudá-lo. (…) O único consolo para ele e para a raça humana era ser estoicamente auto-confiantes” (p. 252). Para Rizzuto,

a dor da pequena criança [de Freud quando criança] levou à insistência veemente em que todos devemos desistir de um Pai-Deus, incapaz de proporcionar qualquer proteção ou consolo. O sofrimento pessoal de Freud se tornara articulado em sua teoria sobre a religião para toda a humanidade. (…) Sua descrença desafiadora expressava a dimensão de sua integridade psíquica e também de sua coragem e de sua capacidade de sublimação: transformar o profundo sofrimento da criança e do adolescente numa nova ciência que abriu os horizontes inexplorados da mente humana. Deus fora substituído pela razão de Freud. O homem desprotegido criara sua própria autoproteção” (p. 252).

Freud generalizou sua experiência pessoal acreditando que esta deveria ser normativa. “Ao perder a perspectiva a respeito do seu próprio sofrimento pessoal, ficou cego para a ‘variedade das experiências religiosas'”, descrita tão bem por William James, seu contemporâneo.

Enfim, a autora concluiu que as experiências infantis de Freud não lhe proporcionaram as condições psíquicas para a crença em Deus. “Seu Deus pessoal não tinha confiabilidade, não merecia crença. Uma forte descrença era a única proteção contra a dor intensa causada pelos anseios não-satisfeitos da criança, do adolescente e do adulto” (p. 253).

Rizzuto pontua que Freud dominou seu sofrimento e sua raiva transformando-os em “obras-primas”. Em outras palavras, poderíamos dizer que ao invés de se configurar um narcisismo reativo em sua subjetividade, as forças ativas, de criação e de afirmação da vida foram as que predominaram. Entretanto, esse modo como sua subjetividade compôs as forças de narcisação “não deixa de revelar, de forma disfarçada e sublimada, sua premente necessidade de uma proteção não conseguida” (p. 253).

O Prof. Edênio Valle publicou uma resenha desse livro de Rizzuto na REVER. Você pode acessá-la aqui.

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Comentários»

1. maria - outubro 14, 2007

adorei!!
estou fazendo trabalho na facul em cima do livro mal-estar na civilização de freud contrapondo com tornar-se pessoa de rogers e lendo freud cheguei intuitivamente a algumas conclusoes q a autora explica.
Adorei
muito bom mesmo
quero fazer psicologia da religiao

Rafael Martins - janeiro 29, 2011

Maria…
gostaria muito de poder conhecer seu trabalho. Será que você poderia disponibilizar esse trabalho em algum lugar…??? Como eu posso ter acesso a ele…??
Rafael

2. psicologiadareligiao - outubro 14, 2007

Que bom que foi útil pra ti, Maria! Obrigada por deixar seu comentário e contar sobre o seu trabalho na faculdade, a respeito de Freud X Rogers. Quem sabe vc poderia enviar seu trabalho (ou mesmo um resumo dele, com as idéias principais) para publicar aqui? Eu acho que seria muito legal! A proposta do blog é que haja mesmo a cooperação dos muitos interessados no tema. O que vc acha da idéia? Aguardo seu contato, tá bom? Bom trabalho pra ti!
Um abraço,
Mary

3. KARLA YASMIN - setembro 19, 2008

achei fantastico o q vc escreveu sobre FREUD !!!!!!!!!!!!!concerteza sairei bem no trabalho q vou apresentar no meu colégio!!

um grade ABRAÇO!!!!!

YASMIN

4. psicologiadareligiao - setembro 19, 2008

Que bom que foi útil pra ti, Yasmin! Um abraço,
Mary

5. Ana - setembro 18, 2009

Que maravilha encontrar esse tema! É isso mesmo que estava prorurando, a verdade e a origem sobre o porquê de FREUD não acreditar em DEUS. Só podia ser mesmo um trauma paterno. Dizem que o trauma de PAI é o pior que existe. Não entendo porque ainda existem psicólogos que querem seguir piamente a teoria freudiana. Também não acreditando em DEUS. Saibam doutores Psicólogos ou Psicanalistas, os que não ajudam a resolver os problemas das pessoas é porque não acreditam em Deus. É preciso unir o VELHO ao NOVO e não continuar apenas apegados a teorias antigas. É moderno acreditar em um CRIADOR TODO PODEROSO. O grande cientista Augusto Cury diz que ACREDITAR EM DEUS É SER INTELIGENTÍSSIMO.

6. João Pinheiro - agosto 27, 2010

A verdade absoluta pode nos surpreender. Por sso gosto de brncar com as dúvdas; Elas me apontam em váras direções. Gosto de Freud como gosto de Darwin e quando eles falam no amor, estão falando em Deus. Uma avalanche de verdades está chegando ate nos atraves dos caminhos por onde perambularam tantas duvidas.
Abraços a voce aprendiz meu companheiro

7. Rafael Martins - setembro 7, 2010

Gostaria de pedir à Maria, que pudesse me enviar esse seu trabalho comparativo entre a obra de Freud e de Carl Rogers. Estudo as obras dele, e me encantaria ler esse contraponto com o fundador da Psicanálise. Será que posso conseguir esse trabalho dela…???
Rafael

8. Os números de 2010 « Psicologia da Religião - janeiro 10, 2011

[...] Por que Freud rejeitou Deus? setembro, 2007 7 comentários 4 [...]

9. Júlio César - agosto 27, 2012

Eu já imaginava que a rejeição de Freud referente Deus era de fundo paterno. Gostei muito ! Júlio César – são Gonçalo – RJ

10. Edimir rocha - novembro 28, 2012

Obrigada pela oportunidade deste texto, aprendi muito.
amei!

psicologiadareligiao - novembro 28, 2012

Que bom que foi útil pra ti!

11. missing My ex Husband 2 - junho 19, 2013

You’re so interesting! I don’t suppose I have read something like this before.
So nice to discover someone with unique thoughts on this subject.
Really.. thanks for starting this up. This web site is something that is
needed on the internet, someone with a little originality!

psicologiadareligiao - junho 19, 2013

Thank you, Violette! “Why did Freud reject God” is a book written by Ana-Maria Rizzuto.You can read her book in English, if you are interested in reading more.

12. Ilovemydad - agosto 11, 2013

Ser ateu é trauma de fundo paterno? Francamente…

psicologiadareligiao - agosto 11, 2013

De modo nenhum a autora conclui que “ser ateu é trauma de fundo paterno”! Até porque ela nem está abordando o ateísmo. Ela analisa, a partir da própria teoria freudiana, as razões de Freud ter rejeitado Deus.

13. flavio bezerra - outubro 24, 2013

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