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II Seminário sobre Subjetivação Contemporânea e Religiosidade e II Mostra de Expressões Visuais da Religiosidade Brasileira junho 14, 2010

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A Espiritualidade como fator de proteção na Adolescência setembro 28, 2008

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A Revista do Instituto Humanitas da Unisinos, dessa semana, publica uma entrevista com a Psicóloga Luciana Fernandes Marques, a respeito do tema Espiritualidade e Adolescência. A Revista aponta que, de acordo com Marques, “a religiosidade têm sido associada, na adolescência, à melhor tomada de decisão, maior bem-estar, menor envolvimento em comportamentos violentos, menor risco de doenças e menos problemas de comportamento.”

Segue abaixo, a entrevista com Luciana F. Marques, retirada do site da Revista Instituto Humanitas Unisinos
IHU On-LineComo a senhora percebe a relação dos jovens com a religião, nos dias de hoje?
Luciana Marques – Percebo um esvaziamento das crenças religiosas e valores morais. O consumo, as drogas e os valores de grupo exercem enorme poder de atração. Parece que alguns jovens têm uma educação mais voltada para o desenvolvimento da religiosidade, e adultos próximos que servem de modelos aproveitam melhor esse recurso. Às vezes, já criaram o hábito de ir a cultos com a família, ou de realizar orações e estudos em casa e se apropriam dessa prática como parte de sua vida. Há também formas alternativas de vivência espiritual não religiosa, através de seitas, terapias e oráculos, e que não é ligada às instituições clássicas. E socialmente não há um repúdio, então o jovem faz uma mescla disso com uso de certas roupas, com valores do grupo de iguais e ouve certas músicas. Os pais vêem como “esquisitice” da adolescência, mas certos valores estão presentes e podem ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento desse indivíduo. 
IHU On-Line – Quais as mudanças mais significativas na vida dos adolescentes, a partir do momento em que eles passam a se envolver mais com os princípios religiosos, independente da doutrina, além de reconhecer tal importância?
Luciana Marques
– Durante a adolescência, há várias fases marcadas por níveis diferenciados de desenvolvimento. Estamos estudando como essas diferentes características se relacionam com a religiosidade e a espiritualidade. É provável que, no início da adolescência, ao se envolver com questões religiosas, o jovem utilize mais o recurso da imitação do comportamento dos adultos que observa. A própria imitação de orações, participação em rituais, cria um ambiente para a prática desses valores na vida cotidiana, além de trazer benefícios como o relaxamento (muitos rituais religiosos envolvem trabalho da atenção e concentração e relaxamento corporal). Já os adolescentes mais velhos se deparam com questões do desenvolvimento como construção da própria identidade, início da sexualidade e delineamento de projetos vitais. Nessa fase, a religiosidade/espiritualidade serve como um guia que pode ajudá-lo nas escolhas, no desenvolvimento da auto-imagem e nos projetos de futuro.
IHU On-Line – Que fatos a levaram a pesquisar nesta área? A quais resultados a senhora chegou, quando realizou uma pesquisa sobre a realidade dos adolescentes de Porto Alegre, e de que maneira os avalia?
Luciana Marques
– O estudo da espiritualidade surgiu na minha dissertação de mestrado numa pesquisa sobre práticas alternativas em psicologia, que era um assunto em voga na época, por suscitar vários problemas no exercício profissional do psicólogo. Embora estivesse presente a questão dos psicoterapeutas usarem práticas sem fundamento na área da psicologia, havia também um grande interesse deles por essa questão da espiritualidade. Então, no doutorado, fomos investigar se a espiritualidade se relacionava com a saúde geral de adultos. E vimos que havia ali uma dimensão associada à saúde e pouco explorada pelos psicólogos. E atualmente, na UFRGS, estamos desenvolvendo um estudo sobre o desenvolvimento da espiritualidade na adolescência. Queremos observar como isso se desenvolve ao longo desta fase da vida, mas ainda não avaliamos os resultados do estudo.
IHU On-Line – Durante muito tempo, tivemos a impressão de não poderia haver uma relação entre a psicologia e a religião. Qual é sua opinião a respeito? Podemos dizer que houve uma evolução?
Luciana Marques
– Essa é uma questão espinhosa cheia de paradoxos, contradições e questões mal-compreendidas. A religião e seus mitos e ritos constrói conhecimentos válidos através das experiências transcendentais, revelações, fenômenos mediúnicos, de acordo com suas crenças. A psicologia é uma ciência e como tal pode se aproximar desses fenômenos com seus instrumentos, visando descrevê-los, observar suas regularidades e associações com inúmeras variáveis. O tema difícil surge quando a ciência se aproxima para validar ou anular as crenças religiosas, que não é seu papel. Ou, pior ainda, quando utiliza métodos não científicos e mistura-se com a religião. Percebo que tem ocorrido uma evolução, no sentido de diminuir o preconceito na comunidade acadêmica com o estudo de certos temas considerados marginais, como a espiritualidade. Atualmente, este assunto tem sido estudado em várias teorias e tem sido absorvida numa visão de psicologia da saúde e psicologia positiva como uma força do ser humano capaz de auxiliá-lo como recurso de enfrentamento em situações difíceis. Ainda não vejo a discussão acerca das questões mais aplicadas, que poderia ser assim sintetizada: como o psicólogo pode atuar profissionalmente promovendo o recurso da espiritualidade de uma forma não religiosa?
IHU On-Line – Quais são as principais características dos adolescentes de hoje? E a que riscos eles estão expostos, tendo como parâmetro os moldes da sociedade atual?
Luciana Marques
– Muitos estudos descrevem a adolescência atualmente como uma massa sem contornos definidos. O jovem hoje não exerce seu poder político, não se envolve em lutas de cidadania e nem parece com pressa de crescer em independência emocional e financeira dos pais, ficando até a idade adulta morando com a família de origem, o que também é um fenômeno atual. Mas muitos dos riscos a que estão expostos são característicos dessa fase, de descoberta de si, do mundo, de curiosidade, de pouco medo de correr riscos, de atração por fortes emoções. Isso o empurra para situações de risco, juntamente com sua situação social, familiar e econômica, que aumentará, ou não, sua vulnerabilidade.
IHU On-Line – O que a senhora entende por espiritualidade? E em que sentido a mesma é um fator de proteção na adolescência?
Luciana Marques
– A espiritualidade é uma dimensão humana presente desde o homem das cavernas, quando já enterravam seus mortos com rituais e pareciam acreditar na vida após a morte. A espiritualidade pode ser vivenciada em religiões públicas ou fora delas. Tem sido mais associada ao desenvolvimento em caminhos religiosos com seus cultos públicos ou grupais, mitos e ritos. Tem-se visto que a religiosidade/espiritualidade fortalece o sentido de vida e o estabelecimento de projetos vitais e é uma dimensão importante no enfrentamento de situações adversas. Embora também se possa considerar algumas formas de religiosidade patológica que enfatizam a fuga da realidade ou acirramento de conflitos entre culturas, ou ainda a associação da religião com efeitos negativos como culpa, ansiedade, intolerância, depressão, rigidez cognitiva e excessiva dependência. A questão da religiosidade/espiritualidade como um fator de proteção do jovem é um tema que vem sendo estudado, sendo que muitas pesquisas destacam sua importância nessa fase da vida. A religiosidade tem sido associada, na adolescência, à melhor tomada de decisão, maior bem-estar, menor envolvimento em comportamentos violentos, menor risco de doenças e menos problemas de comportamento.
IHU On-Line – Além da espiritualidade, que outros fatores podem influenciar nos processos de educação e até mesmo na forma de lidar com os adolescentes?
Luciana Marques
– Quando lidamos com adolescentes na posição de pais, professores ou facilitadores, assumimos o papel do adulto que sabe e muitas vezes esquecemos que já tivemos aquela idade. Eventualmente, forçamos para que o grupo atinja os objetivos ou se adapte ao nosso projeto. Mas sem uma relação estreita, próxima, entre pessoas, o trabalho fica superficial e não atinge o jovem, que deflagra a perda de tempo através da rebeldia e não comprometimento. A empatia é fundamental no trabalho com jovens. Por melhor que sejam nossas propostas e instrumentos de trabalho, não vamos alcançar resultados se não escutarmos o que eles pensam, o que eles querem, e adequarmos nossa linguagem. A leitura do contexto familiar e social também é central, nos auxiliando a compreender outras variáveis envolvidas. Essa compreensão ampla atravessa nossa prática e viabiliza projetos junto aos jovens, que percebem quando realmente estamos interessados neles.

Saúde e Espiritualidade: a questão do sentido da vida julho 17, 2008

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O psicoterapeuta e escritor Irvim Yalom, no primeiro capítulo do seu livro “Mamãe e o sentido da vida”, escreve:

Somos criaturas que buscam sentido, (…) que têm de lidar com o inconveniente de serem lançadas num universo que, intrinsecamente, não tem sentido algum. E assim, para evitar o niilismo, (…) temos de embarcar numa tarefa dupla. Primeiro, inventamos ou descobrimos um projeto que dê sentido à vida e seja vigoroso o bastante para sustentá-la. Depois, precisamos dar um jeito de esquecer nosso ato de invenção e nos convencer de que não inventamos, e sim descobrimos, o projeto que dá sentido à vida – convencer-nos de que ele tem uma existência independente ‘lá fora’”.

Um grande número de pessoas busca terapia em função de sofrimentos que giram em torno da questão do sentido, e expressam suas dores em frases como: “não tem sentido viver!”; “qual é o sentido de se continuar vivendo?”; “se ser feliz é o sentido da vida, então não mereço viver”, “não consigo encontrar felicidade na vida, por isso, acho que viver não tem sentido!”; “para que viver se sou tão infeliz?!”…

É óbvio que a busca de sentido para a vida representa uma questão existencial fundamental. A busca de sentido determina não apenas o que somos, o que fazemos, sentimos e pensamos, como determina também nossa qualidade de vida. Diante disso pode-se perguntar: O sentido da vida é algo que se descobre ou algo que se constrói? Sou da opinião que o sentido da vida se constrói em meio às condições de nossa existencialidade. O processo de criação de sentido é possibilitado sobre uma base que se apresenta, em parte, com sentidos já dados que entram em relação com “virtualidades de sentido ” (possibilidades de criação de sentido inéditos) – que emergem em função, justamente, do contínuo e permanente movimento de produção de sentido.

Mas há aqueles que não suportam a idéia de criação de sentido e buscam, angustiadamente, pelas ofertas prontas que se apresentam no mercado. Tais “kits de sentido” surgem como ofertas provindas da religião, do mercado de consumo, de ideologias várias, enfim… não importa a origem, muito menos os caminhos que eles apontam. Importa, sim que representem uma alternativa que pareça minimamente segura. É o que acontece, por exemplo, com certas formas de expressão religiosa na contemporaneidade que se organizam, justamente, sobre a idéia de que o sentido da vida já está dado: é ser feliz – felicidade aqui confunde-se com sensações de prazer alcançadas, em geral, pela via do consumo dos mais variados tipos de mercadoria: objetos, experiências, subjetividades, estilos, comportamentos, imagens, etc…

A religiosidade pode fazer parte do processo de construção de sentido da vida por um viés afirmativo, que favoreça a saúde integral, mas infelizmente, pode também compôr práticas de sentido que limitam a vida e suas formas de expressão, favorecendo assim, o empobrecimento da vida e aparecimento de adoecimentos vários.

María Izabel Rodríguez Fernández, argumentando sobre saúde mental e sentido da vida, observa que

el sentido de la vida es lo que da significado y ayuda a encontrar un soporte interno a la existencia. Sin dicho soporte interno, parece ser más probable que la psique se vuelva frágil y, por consiguiente, llegue a enfermar. Esto no quiere decir que la enfermedad psíquica se origine exclusivamente en la ausencia de sentido de la vida, sino que tal vez el sentido sea un factor importante para explicar, entender y prevenir la enfermedad mental, e incluso podría darnos pautas de cara a un tratamiento psicoterapéutico.

Por otra parte, nos atrevemos a lanzar la hipótesis de que en la enfermedad psíquica hay un intento fallido de encontrar un sentido o de construir una realidad inteligible en la que poder sobrevivir. Y parece que ese sentido puede llegar a ser más importante que captar la realidad en sí misma, sobre todo si dicha realidad resulta difícil de afrontar o de soportar, como muchos hemos podido comprobar en la realidad

Fernández apresenta uma reflexão bastante interessante sobre esse tema e conclui que o sentido da vida tem um peso importante na saúde mental da pessoa.

Si uno tiene claro cuál es su papel en el mundo, que está muy relacionado con el sentido que da a su vida y percibe el futuro de forma positiva (lo que también tiene relación con el sentido), es más probable que alcance y conserve su estabilidad mental. Por otra parte, la pérdida de sentido de la vida también puede ser consecuencia de una situación de depresión u otra patología psíquica que desenfoque la explicación del sentido de la propia vida y de las metas que la orientan, centrándose la persona que la sufre en los aspectos más negativos de la realidad y no en la búsqueda de un sentido a su existencia.

Leia o texto completo da autora aqui: la-cuestion-del-sentido-y-su-repercusion-en-la-vida-psiquica1

A prática do cuidado e a função da religiosidade no enfrentamento da doença novembro 23, 2007

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O Professor Geraldo Paiva discute, num texto publicado em março/2007, pela Rever, o conceito de cura como cuidado e como recuperação da doença. Ele levanta, também, algumas questões acerca da competência da Psicologia para se pronunciar quanto à eficácia ou não do religioso na experiência de enfrentamento (coping) . O prof. Geraldo observa que

as pessoas cujo enfrentamento “religioso” tem a natureza de um enfrentamento “sagrado” mobilizam cognições, motivações, pulsões que dispõem uma nova configuração da existência e podem atingir, mediante o sistema imunológico, a faixa do biológico no homem.

Paiva aborda, ainda, o papel do/a psicólogo/a, do/a teólogo/a e do/a agente pastoral a partir de uma prática que saiba distinguir, em termos teóricos e práticos, as dimensões do religioso, do sagrado e do profano.

O texto completo pode ser acessado aqui: Religião, enfrentamento e cura: perspectivas psicológicas

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Os olhares do cuidado 

Saúde e Espiritualidade – o mais recente enfoque em Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira outubro 23, 2007

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Com surpresa tomei conhecimento, pela internet, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sem dúvida, trata-se de uma novidade que vem atender uma demanda que vinha sendo negligenciada no campo das pesquisas acadêmicas no Brasil. Vários programas de Pós-Graduação em Saúde e Saúde Coletiva, a exemplo da maioria dos cursos de Psicologia, fecham os olhos ao tema da religiosidade/espiritualidade (como se saúde nada tivesse a ver também com questões referentes à espiritualidade, apesar do Brasil ser um país tão religioso e constatarmos na prática clínica, sofrimentos profundamente relacionados à questões de caráter religioso/espiritual). As pesquisas sobre Religião e religiosidade têm se restringido bastante às áreas da Teologia, Ciências Sociais, Antropologia e Sociologia. Faz falta a perspectiva da Psicologia e da Psiquiatria e mesmo da Medicina e da Saúde. Era tempo da academia acordar para a pesquisa nessa área!

O professor Alexander Moreira de Almeida, coordenador do Programa faz a seguinte observação:

Estudar cientificamente a espiritualidade é uma empreitada muito entusiasmante e perigosa.Essa é uma área repleta de preconceitos, preconceitos a favor e contra a espiritualidade. A maioria das pessoas tem opiniões sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis. É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante e uma negação dogmática ou, por outro, para uma aceitação ingênua de afirmações pouco fundamentadas. Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou anti-religiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas.”

Acesse também, o artigo de Harold G. Koening, sobre: Religião, espiritualidade e Psiquiatria: uma nova era na atenção à saúde mental

Mais informações sobre o Programa em Saúde Brasileira podem ser encontradas no ítem 4 da página Instituições.

Os olhares do Cuidado: dimensões da integralidade em saúde outubro 11, 2007

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Como abordar a questão da integralidade em saúde se deixarmos de fora a dimensão da espiritualidade/religiosidade, esse difícil tema que insiste em se fazer presente até mesmo quando parece ausente? Para pensar sobre a questão da espiritualidade e sua relação com a prática do cuidado e da busca da integralidade em saúde, 3 “dispositivos” serão aqui evocados. O que poderá emergir como possíveis “conclusões” ou mesmo outras questões para se continuar pensando a partir dos dispositivos apresentados fica em aberto, à espera, talvez, daqueles/as com coragem para deixar aqui suas contribuições.

Dispositivo 1 – fábula: “Cura” – O sentido de cura e cuidado

A palavra “cura” vem do latim – curare – significa cuidado, atenção, “preocupação com”. Não é por acaso que o título da Fábula de Higino, também contada por Goethe, no segundo ato de Fausto, traz o título “Cura”. Em sua obra Ser e Tempo, Heidegger utiliza-a como idéia central para desenvolver a reflexão sobre cuidado como um “modo de ser do humano”. O cuidado pré-figura a existência humana, perpassa-a e a constitui, sendo então, condição da continuidade da existência. Vamos à lenda:

Quando um dia o Cuidado atravessou um rio, viu ele terra em forma de barro: meditando, tomou parte dela e começou a dar-lhe forma. Enquanto medita sobre o que havia criado, aproximou-se Júpiter. O Cuidado lhe pede que dê espírito a essa figura esculpida com barro. Isso Júpiter lhe concede com prazer. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar seu nome à sua figura, Júpiter o proibiu e exigiu que lhe fosse dado o seu nome. Enquanto o Cuidado e Júpiter discutiam sobre os nomes, levantou-se também a Terra e desejou que à figura fosse dado o seu nome já que ela lhe tinha oferecido uma parte do seu corpo. Os conflitantes tomaram Saturno para juíz. Saturno pronunciou-lhes a seguinte sentença, aparentemente justa: Tu Júpiter, porque deste o espírito, receberás na sua morte o espírito; tu Terra porque lhe presenteaste o corpo, receberás o corpo. Mas, porque o Cuidado por primeiro formou essa criatura, , irá o Cuidado possuí-la enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, irá chamar-se homo (homem), já que é feito de húmus (terra) (Heidegger: 1988, p. 263-4).

Dispositivo 2 – vídeo – A Integralidade da assistência em saúde

(vídeo produzido pelo BERRO – Laboratório de Artes Cênicas da UFPI disponível em: http://www.abepsi.org.br/abep/videos.aspx#)

“Entre desejo e realidade” (como se pode ler nas inscrições iniciais do vídeo) está a cegueira e o não-olhar o outro como impedimento para a promoção efetiva da cura/cuidado. O cuidado supõe olhar o outro em sua singularidade. Tem como condição ouvir o desejo do outro ainda que o mesmo pareça óbvio àquele que ocupa o lugar de cuidador. O cuidado não é algo que se dá a outro, mas que se pratica com o outro, implica em circulação de afetos, em algo que se cria em comum. Quanto nossa escuta e nosso olhar estão abertos em nossa prática de cuidado? Quanto permitimos que todo o nosso corpo, olhos, ouvidos, coração e mente sejam afetados e ativados nos encontros de afeto com o outro?

Dispositivo 3 – narrativas da vida de Jesus – O olhar o outro, a escuta do desejo e a valorização das crenças pessoais

Duas narrativas, recortadas do Segundo Testamento, contam a história de pessoas cegas buscando pela cura. A primeira é de um morador da cidade de Jericó – lugar onde acontece o encontro desse cego com Jesus. Ao perceber a agitação da cidade em razão da visita do Filho de Deus àquele lugar, aproveita a oportunidade e clama por misericórdia. As pessoas ordenam que ele se silencie, mas ele grita cada vez mais alto. Jesus vê que ele é cego, mas a despeito disso, evoca seu desejo de cura na pergunta de algo “aparentemente” óbvio: “Que queres que eu te faça?” (Marcos 10: 46-52). Jesus não se colocou no lugar de de alguém que “sabe” de antemão o desejo do outro, ainda que pudesse supô-lo. Ele pergunta pelo desejo: “o que você quer?”. O resultado desse encontro é descrito na frase: “Vai, a tua fé te salvou”. A segunda narrativa conta a história de dois cegos que pedem a cura e Jesus lhes pergunta: “vocês crêem que eu posso fazer isso?” À resposta afirmativa de ambos, Jesus diz: “Seja feito segundo a fé de vocês!”(Mateus 9: 27-28). Em ambas as narrativas, o posicionamento de Jesus frente aos que buscam a cura não é de alguém que sabe de antemão o desejo do outro. Pelo contrário, sua atitude revela que parece-lhe parte integrante do processo de cura, a ativação de um elemento que não depende do “curador”, mas que tem a ver com a implicação das partes envolvidas num processo de criação – em conjunto – de uma outra realidade. No caso dos cegos, esse elemento era a fé, a crença, os valores que possuíam – era a subjetividade de cada um que era convocada no processo de cura. É possível depreender dessas narrativas que a cura/cuidado é uma via de duas mãos, é algo que se constrói em comum, sobre uma base mínima de identificação onde as condições de possibilidade de emergência de uma outra configuração depende do olhar do outro e de uma escuta que agencia o desejo no processo de cura e de afirmação mesma da vida.

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Prática clínica e espiritualidade: Como (e a quem cabe) atender a demanda espiritual de pacientes com enfermidades crônicas? outubro 7, 2007

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Estudos realizados junto a pacientes com enfermidades crônicas de difícil prognóstico (HIV, dores crônicas, cardiopatias, esclerose múltipla, pacientes terminais, etc) destacam a importância do enfrentamento religioso nesse contexto de cuidado, salientando, também, os benefícios daí advindos (Rivera-Ledesma, 2007). Tem-se constatado, a partir de várias pesquisas, a importância do “cuidado integral” em saúde. Apesar disto, o aspecto da espiritualidade muitas vezes fica de fora no atendimento aos pacientes, menos em razão de admitir ou não a sua importância, mas muito mais em função da dificuldade dos/as profissionais em levar à cabo tal atendimento. Rivera-Ledesma (2007, p. 125) afirma que

atender as necessidades espirituais dos pacientes sob cuidado médico é uma realidade clínica cotidiana nas unidades de traumatologia, oncologia, e em geral naquelas áreas onde o paciente se vê confrontado com sua própria morte ou a de um ser querido, e a Organização Mundial de Saúde tem enfatizado sua importância.”

Contudo, como fazer isto? Será que o atendimento às necessidades espirituais cabe exclusivamente ao capelão ou aos líderes religiosos? Qual a postura do/a psicólogo/a? Qual o papel do/a médico/a, enfermeiro/a, de cada clínico envolvido no atendimento aos pacientes em relação a essa questão?

Rivera-Ledesma debruça-se sobre este tema explorando “a inserção do espiritual nos quatro recursos psicoterápicos básicos que constituem o arsenal clínico em psicologia: o Acompanhamento, o Aconselhamento, a Psicoterapia e os Sistemas Psicoterápicos”. Para o autor do estudo, não se está em discussão a importância do atendimento espiritual aos pacientes, mas sim “como” realizar tal atendimento, uma vez que

cada especialidade parece expressar no enquadre clínico que lhe é característico distintos questionamentos profissionais e éticos, circunscrevendo sua atuação a um certo nível de intervenção em relação ao espiritual. Sem dúvida parece que não existe ainda um claro consenso que permita elucidar: ‘Quem deve ser responsável pelas necessidades espirituais de um paciente e como?’”

Este assunto foi objeto de reflexão e pesquisa de doutorado de Rivera-Ledesma, na cidade do México. Seu estudo em muito contribui para a prática clínica nas diferentes áreas profissionais (medicina, psicologia, líderes espirituais, capelães, enfermagem, etc) que se ocupam do cuidado integral em saúde. O autor conclue seu trabalhando lembrando da importância “de não se desdenhar da importância do espiritual. Esta área da vida humana que tem sido segregada do campo da psicologia, e que parece ser necessário hoje em dia, assinalar um lugar para além do apaixonamento/ardor da fé e do ceticismo academicista contemporâneo”.

Vale a pena ler esse trabalho com atenção.

Acesse o texto completo: Prática Clínica e Espiritualidade.

VI Simpósio Internacional de Aconselhamento Pastoral setembro 5, 2007

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Espiritualidade na trajetória da vida: vivência, desafios e perspectivas – este é o tema do Simpósio que ocorrerá na EST – Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo – RS, de 18 a 20 de outubro de 2007. Acesse o site, para ver mais detalhes sobre a programação e as interessantes oficinas que serão oferecidas no evento.

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