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Subjetivação contemporânea e Religiosidade novembro 3, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, forças de narcisação, forças reativas de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, narcisismo, produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
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Qual é o papel, a função, ou mesmo a utilidade da religião no modo contemporâneo de subjetivação? Em especial, numa configuração social cuja “política de subjetivação” (criação de modos de existência) volta-se essencialmente para o indivíduo, seu prazer e bem-estar, de que modo as atuais formas de expressão religiosa se dinamizam?

Lembremos, como bem observa Rolnik, que cada configuração sócio-histórica cria suas próprias “políticas de subjetivação” para sustentar o seu próprio sistema. Ou seja, cada regime cria suas variações a respeito do lugar do outro e da política de relação que com ele se estabelece. Evidentemente, as religiões também participam das políticas de subjetivação vigentes – quer seja na promoção de uma religiosidade voltada à deglutição acrítica e reprodução do mesmo – quer seja pela potência de criação de alternativas de outros modos de existência. É claro que entre um pólo e outro, existem várias outras formas.

No texto: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea” , faço uma análise da experiência religiosa promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), especialmente a partir da sua proposta de sacrifício (do dinheiro). Trabalho, no texto, com a “concepção de narcisismo ativo e reativo e defendo a idéia de que a prática do sacrifício, tal como proposta pela IURD, articula elementos do narcisismo reativo e estabelece-se como uma tecnologia do eu, usada como remédio para lidar com a experiência contemporânea da vergonha” (Esperandio, 2007, p. 19).

O texto foi publicado na Revista Psicologia & Sociedade, vol. 19, nr. 2. e você pode acessá-lo aqui: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea: culpa substituída pela vergonha?”

Nas palavras da editora Cleci Maraschim, este número da Revista Psicologia & Sociedade “traz novamente uma série de artigos de pesquisadores que trabalham no campo da Psicologia Social e em suas interfaces com as Ciências Humanas, Sociais”. Você pode ter acesso ao conteúdo completo da revista, que está disponível também em formato online em: http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewissue.php?id=14

O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, forças de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, Religião e Sociedade, sacrifício, sofrimento, subjetivação.
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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as “condições de possibilidade” da fé na contemporaneidade setembro 12, 2007

Posted by psicologiadareligiao in , Igreja Universal do Reino de Deus, Pesquisas em Psic. da Relig..
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A manchete do Estadão estampa:

“JUSTIÇA DE SP MANDA UNIVERSAL DEVOLVER DOAÇÃO DE FIEL”.

Está aqui mais um tema relevante – entre tantos outros – a ser refletido pela Psicologia da Religião: a fé e as relações de poder na experiência religiosa.

Na matéria referida acima, O Estadão e a Folha de São Paulo “jogam” a notícia. Obviamente o assunto é polêmico e o debate envolve várias perspectivas, desde a teológica, a religiosa, a jurídica, a sociológica, a política, e claro, a psicologia da religião…

No que diz respeito à Psicologia da Religião, o tema aponta a necessidade desta de buscar exercitar-se numa forma de pensar que seja mais interdisciplinar, a fim de que a sua contribuição teórica possa ser traduzida, também, na prática. A colaboração com outras disciplinas, a partir de algo que lhes seja comum, pode ajudar na criação de estratégias e na invenção conjunta de dispositivos que estejam voltados à afirmação da vida. Dispositivos estes que carreguem a potência de produzir subjetividades mais humanizadas e cooperantes.

A notícia sobre o processo contra a Igreja Universal do Reino de Deus põe em evidência a premência do estudo e pesquisa sobre a fé na contemporaneidade e o (ab)uso de poder que se configura em suas mais variadas expressões.

A boa-fé dos fiéis favorece o aparecimento de práticas de má-fé de pessoas que se colocam como “líderes espirituais”. Mas, a despeito da fé ingênua e dos abusos da fé que se verificam na História, “a fé é possível”, segundo Tillich, e “até necessária em nosso tempo”. Tillich, em seu estudo sobre a “dinâmica da fé”,  afirma que esta

também não pode ser desvalorizada pela distorção supersticiosa ou autoritária de seu sentido dentro ou fora das igrejas, das seitas ou de movimentos ideológicos” (Tilich, 1980, p. 82).

Eis, pois, diante de nós, mais um desafio: o de pensar sobre as “condições de possibilidade” da fé na dinâmica da sociedade contemporânea.

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