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Narcisismo contemporâneo e a produção social do comportamento adicto abril 1, 2008

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Reproduzo aqui, uma reflexão de Contardo Calligaris, publicada na Folha de São Paulo – de 22.11.07. No texto, Calligaris chama a atenção para a produção contemporânea do comportamento adicto em suas mais diversas expressões: desde o consumo de objetos vários, às diferentes drogas alucinógenas. Na tentativa de supressão do sofrimento a qualquer custo, e frente ao desejo de completude absoluta, parece que “os objetos de consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto”.

As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.

Segue o texto completo de Caligaris.

Narciso no país das maravilhas

A maioria dos objetos são drogas: satisfazem um anseio parecido com o do toxicômano

ESSE É o subtítulo de um estudo publicado recentemente (2006) pela Routledge, “The Self Psychology of Addiction and its Treatment” (a psicologia-do-self da adicção e de seu tratamento). Os autores, Richard Ulman e Harry Paul, são psicanalistas (da psicologia do self, a escola de Heinz Kohut), terapeutas de toxicômanos e eles mesmos drogadictos em remissão.
O estudo, embora estritamente clínico, propõe uma visão da toxicomania que, ao meu ver, vale como interpretação geral da modernidade. Explico.
Na laboriosa tentativa de encontrar um lugar no mundo, cada um de nós se alimenta de duas fontes: 1) as aspirações, as normas e os brasões transmitidos por nossos ascendentes, coisas que podem nos dar a sensação de que temos uma missão na vida; 2) o amor, mais ou menos incondicional, que nos acolhe e agasalha nos primórdios de nossa existência permitindo, aliás, que ela vingue.
Em suma: legados paternos e cuidados maternos (é óbvio que qualquer um pode fazer função de pai ou de mãe).
Ora, na modernidade, bebemos sobretudo na segunda fonte. Por isso, somos todos narcisos, ou seja, mais preocupados em sermos gostados, amados e admirados pelos outros do que com deveres e princípios.
Problema: em geral, o modelo do amor graças ao qual seríamos “alguém” (que sempre significa “alguém muito especial”) é o momento em que, pendurados ao peito materno, ou melhor, com a mãe pendurada aos nossos lábios, estaríamos ao centro de um mundo controlado por nós: basta chamar, chorar etc. para que ela apareça e nos faça felizes.
Logicamente, com esse sonho narcisista encravado no nosso âmago, torna-se difícil lidar com separações, frustrações etc. E, infelizmente, o mundo é um pouco mais cruel do que a mãe-padrão e sempre muito mais cruel do que a mãe mítica e escrava que gostaríamos de ter tido.
Como aprendemos a encarar perdas, danos e fracassos?
Quem lia as tiras de Charlie Brown, de Charles Schultz, deve se lembrar do cobertor que Linus carregava sempre consigo: quando as coisas não iam bem, ele agarrava o cobertor e chupava o dedo; era seu jeito de reencontrar, momentaneamente, a felicidade perdida. O cobertor de Linus é um exemplo perfeito do que D. W. Winnicott, um grande psicanalista, chamou de “objetos transicionais”: são objetos inanimados, mas que representam um amor do qual não conseguimos ainda nos separar.
Eles funcionam como o lápis entre os dentes do fumante que quer parar de fumar: não substitui o cigarro, mas, na luta para deixar o vício, oferece conforto nas crises de abstinência. Ou como a mamadeira da noite quando o desmame acabou há tempos, mas ainda bate, digamos assim, uma “nostalgia amorosa”.
À força de brincar com cobertores e chupetas, a gente deveria aprender a 1) dispensar cobertores e chupetas,
2) lidar com a precariedade da presença e do amor dos outros. Mas não é tão simples assim, até porque, nessa tarefa, o mundo não nos ajuda. Narciso vive no país das maravilhas, diante de uma imensa vitrina de objetos que nos prometem o seguinte: ao alcançá-los, ganharemos o amor, a admiração e (por que não) a inveja de todos. E alcançá-los é fácil -basta comprar: chocolate, relógios, charutos ou pacotes de férias.
Quem precisa de amores incertos com pessoas de verdade ou de objetos “transicionais” que as representem? Os objetos do consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto.
As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.
Poderia ser o melhor dos mundos, se não fosse por dois detalhes. 1) Se hesito entre um carro e uma amizade ou um amor, é bem provável que minha experiência afetiva seja miserável; 2) se espero a felicidade dos objetos, desaprendo a agir e a desejar. No próximo domingo é a primeira fase da Fuvest, e passei o ano dormindo no cursinho? Não é o caso de me desesperar, vou para o shopping comprar um sapato simplesmente “divino”.
Agora, falando sério, por que se opor à liberação das drogas? Afinal, a maioria dos objetos em venda livre satisfaz, no fundo, um anseio parecido com o do toxicômano. Relaxe e goze…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2211200725.htm

 

Religiosidade, AIDS e a Noção de Cuidado novembro 30, 2007

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DIA 01 DE DEZEMBRO É O DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA A AIDS

 

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(Imagem retirada do site: http://balloon.wordpress.com/2006/12/01/worldaidsday/)

 

A Banda Britânica Queen (grupo nomeado embaixador oficial da campanha global de Nelson Mandela contra a AIDS) lançará neste sábado, dia 01 de dezembro, uma música que poderá ser baixada gratuitamente na internet, como parte da campanha pelo Dia Mundial da luta contra a AIDS. A Folha online comenta que “a canção ‘Say It’s Not True’ foi escrita pelo baterista Roger Taylor em 2003 e inclui no vocal o cantor do grupo Free, Paul Rodgers.

 

Segundo a Folha, o baterista Roger Taylor declarou:

 

Ao disponibilizar esta canção para ser baixada gratuitamente pela internet esperamos ajudar Nelson Mandela em sua campanha, que envia a mensagem de que ninguém está livre da infecção”.

Mandela, por sua vez, faz-nos um alerta sobre a responsabilidade de todos nós frente a essa questão.

 

Temos que conhecer o tema, proteger-nos e proteger aqueles que amamos. Está em nossas mãos deter esse flagelo”.

 

 

O engajamento da banda na campanha mundial contra a AIDS e a fala de Mandela nos remete à noção winnicottiana de cuidado. A noção de cuidado em Winnicott – como eu a compreendo – diz respeito ao cuidado de si em simultaneidade ao cuidado do outro. A luta contra a AIDS – em termos de prevenção – passa, obviamente, também, por essa postura de cuidado de si e do outro.

 

Mas há milhares de pessoas no mundo já infectadas pelo HIV. Elas também necessitam de cuidado. Nesse sentido, vale a pena lembrar o alerta de Pargament aos profissionais da saúde, sobre a importância de identificar no “enfrentamento religioso” as potencialidades de suporte ou de prejuízo. Faria e Seidl apresentam uma importante reflexão sobre o tema do enfrentamento religioso em pessoas portadoras do vírus HIV.

Sigamos refletindo sobre o assunto a partir do apoio dos textos abaixo:

 

Faria e Seidl – Religiosidade, enfrentamento e bem-estar subjetivo em pessoas vivendo com HIV-AIDS

 

Acesse, também: Fatores de proteção relacionados à promoção da resiliência em pessoas que vivem com HIV/AIDS

 

A canção “Say it’s not true”, da Banda Queen, estará disponível para downloads a partir do dia 01 de dezembro, o Dia Mundial da Campanha, nos seguintes endereços:

www.queenonline.com

http://www.46664.com/index.php

http://www.queenpluspaulrodgers.com/

http://www.paulrodgers.com/

Sobre a noção de cuidado, veja também os posts:

Os olhares do cuidado: dimensões da integralidade em saúde

Do sentimento de culpa à noção de Concern 

Anjos e Demônios – o caso  da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo anônimo

Anjos e Demônios – o caso da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo anônimo novembro 27, 2007

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Adolescente presa

(Foto de Marlene Bergamo – extraída da Folha de São Paulo – 25.11.07)

O título do post é para provocar a nossa reflexão acerca de anjos, demônios e a prática do cuidado como capacidade ética

Sim! Eles estão em toda parte! Anjos e demônios andam por aí – “entre” (?) nós…

O caso da jovem adolescente, presa numa cela com 2o homens, tem sido amplamente divulgado nos últimos dias, tanto pela mídia nacional como internacional. Trata-se de uma situação que choca as pessoas com um mínimo de sensibilidade. Os jornais dão conta de que a prisão da menina de 15 anos ocorreu em razão de uma “acusação de furto”, ou “tentativa de furto”, como diz a Folha de São Paulo. Obviamente, a prisão da adolescente não pode ser compreendida como “medida legal” em relação ao suposto delito. Causa mal-estar citar as razões óbvias pelas “(des)medidas” tomadas por pessoas que ocupam posição de poder e têm a função de realizar a segurança da população. O argumento do desconhecimento da idade exata da garota não justifica a contundente falta de humanidade que o caso expõe. Foi uma barbárie! Um detalhe que causa surpresa: a prisão foi ordenada por uma delegada, uma mulher! E o que é ainda pior: a garota foi mantida nessa condição de violência e tortura por quase um mês com conhecimento de quase toda a cidade.

A pergunta, pois, que surge espontaneamente é: “Como uma coisa dessas pôde acontecer?” “Por quê ninguém denunciou?”

A resposta é terrível. Na reportagem de Laura Capriglione e Marlene Bergamo, a tia de um dos presos transferidos responde que a razão do silêncio foi “medo de morrer”. E justifica:

“Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?”

 

Esse acontecimento trágico só recebeu (ou está recebendo) um outro destino porque “no dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima.”

Um anjo anônimo salvou a garota da barbárie a que estava submetida perpetrada e patrocinada pela instituição do Estado.

Não pretendo fazer desse post simplesmente um desabafo indignado, apesar do sentimento de profunda tristeza e horror que esse fato nos provoca. Penso que se faz relevante pensar, num momento como esse, a respeito da carência de anjos na sociedade contemporânea. De demônios já estamos “cheios” – por dentro, por fora, andando entre nós e dentro de nós. É mais simples acusar as pessoas diretamente envolvidas nessa barbárie e nos indignarmos com o fato, apaziguados pelo pensamento de que tais atrocidades foram cometidas não por nós, mas pelos outros (ou “pelas outras”).

É bem possível que outras pessoas na cidade tenham se indignado pela situação. Provavelmente até reagiram: expressaram medo, raiva, piedade, torpor, etc. Mas só uma pessoa foi capaz de agir sobre a situação, não simplesmente reagir a ela. Um anjo? Caído do céu para salvar a garota? Alguns diriam que sim! Talvez pelo sentimento de que uma atitude como essa: ativa, libertadora, que se move sobre a compreensão de uma auto-responsabilização pela condição desumanizada vivida pelo outro, é tão rara que alguém com tais traços só pode ser “sobrenatural”- um anjo! Sobre a mesma lógica se “demoniza” os perpetradores e as perpetradoras das barbáries – tais pessoas seriam tomadas como demônios, não poderiam ser consideradas como pessoas comuns, humanas: como você e eu!

Entretanto, acredito que necessitamos mais do que indignação. Mais do que espaço para expressar nosso espanto sobre as barbáries que nós – seres humanos – somos capazes de realizar. Necessitamos pensar, inventar alternativas de vida construídas a partir de uma visão que ultrapasse análises maniqueístas tais como anjo/demônio, mal/bem, etc .

Talvez pudésemos ser, de algum modo enriquecidos mesmo em meio a essa tragédia, se pudéssemos nos juntar na construção de algumas medidas concretas e ativas face a tudo isso. E a pergunta, então, insiste aqui, outra vez:

Como desenvolver um modo de existência que expresse uma capacidade ética – uma ética que se baseia no cuidado? Cuidado, entendido aqui, como expressao da “capacidade de se preocupar”? Winnicott usa a expressão “capacidade” para se referir a presença ou ausência de condições para se lidar com o “entorno” onde desenvolvemos/compomos a nossa subjetividade. Para ele, a noção de “capacidade” implica construção, interação, criação que se faz a partir dos/nos encontros com o outro. Neste sentido, nada é “natural”, ou dado à priori. Trata-se de potência que se desenvolve, que se constrói. Cria-se, desenvolve-se certas capacidades: “capacidade de estar só”, “capacidade de sentir culpa”, “capacidade de acreditar”, e também, a “capacidade de se preocupar”. Esta última tem a ver com o cuidado de si que se constrói em simultaneidade ao cuidado com o outro. Exatamente o oposto de uma atitude de olhar para o próprio umbigo e preocupar-se apenas com o que diz respeito, ou o que cabe nas fronteiras do próprio eu. A capacidade de se preocupar considera o si em simultaneidade com o outro. O eu não se faz criativo quando desvinculado do outro.

Penso que podemos ser criativos nesse momento se buscarmos desenvolver a nossa capacidade de nos preocuparconosco e com o outro em simultaneidade . Nesse sentido, quais ações poderíamos criar para que, de fato, essa capacidade se apresente como potencial a ser desenvolvido numa dimensão tanto macropolítica quanto micropolítica?

Sinta-se à vontade para deixar aqui a sua sugestão e colaborar na construção de algo que possamos fazer em comum com vistas a desenvolver, coletiva e pessoalmente, a “capacidade de nos preocupar”.

Para acessar a reportagem da Folha de São Paulo clique aqui: Moradores sabiam que menina estava em cela de homens no Pará.

Posts relacionados:

Os olhares do cuidado

Do sentimento de culpa à noção de concern

Do sentimento de culpa à noção de “concern” – contribuições winnicottianas outubro 1, 2007

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A palavra “concern”, trazida para o campo da psicologia, por Winnicott, é de difícil tradução para o português. Em razão disto, tradutores desse autor preferem manter a palavra no original em inglês. Em português, concern traz a idéia de “preocupação”, “cuidado”. Winnicott é conhecido pelos seus “paradoxos insolúveis”. Sua utilização da palavra concern guarda um desses paradoxos sem solução, pois, “cuidado” tem o sentido ambíguo de “desvelo”, “atenção”, e ao mesmo tempo “cautela”, “inquietação”, “preocupação”.

Em Winnicott, a noção de concern aparece como alternativa à idéia de culpa (bastante estudada por Freud, com respeito à formação do superego e à resolução do Complexo de Édipo). Em seu estudo sobre “a psicanálise do sentimento de culpa”, Winnicott observa que a idéia de “valor” no indivíduo está intimamente ligada à capacidade para o sentimento de culpa. Para ele, o sentimento de culpa não se trata de algo “natural”, pelo contrário, desenvolve-se e estabelece-se como uma capacidade para experimentar o mesmo. Em outras palavras, o sentimento de culpa, de acordo com Winnicott, está ligado ao desenvolvimento de um senso moral, ou, melhor dizendo, ao desenvolvimento de uma ética, pois, cuidado e capacidade de se preocupar não diz respeito a um comportamento desvinculado da relação com o outro, pelo contrário, a pressupõe.

Assim, a idéia winnicottiana de “cuidado” parece mais ética (valores flexíveis, construídos por opção do indivíduo em função do estilo de existência que tais escolhas implicam, como nos lembra Foucault) e menos moral (valores rígidos, tomados como certo/errado a priori, a partir de modelos já dados).

Qual a importância da reflexão acerca do sentimento de culpa e da noção winnicottiana de concern para a Psicologia da Religião? A pergunta não poderá ser respondida plenamente aqui, agora. Trata-se de um questionamento que merece maior aprofundamento futuro. Por ora, cabe pontuar apenas que Winnicott contribui com uma importante ferramenta conceitual a ser utilizada no estudo de certas formas de religiosidade que emergem na contemporaneidade. Além disso, a idéia de concern pode ajudar em muito aqueles que trabalham com o Aconselhamento Pastoral/Espiritual, pois aponta a possibilidade de uma prática de aconselhamento que tenha como baliza a ética do cuidado, e não a culpabilização moral calcada em a-priori religiosos. Assim, para começar a pensar sobre o tema, vale a pena estudar com atenção, dois textos: o de Jurandir Freire Costa: “Da dívida como culpa ao cuidado com o outro: as perspectivas de Nietzsche e Winnicott”, e o de Nahman Armoni: “Poderiam Freud e Winnicott nos ajudar a compreender as transformações morais e éticas de nossos tempos?”

Para ter acesso ao texto de J. F. Costa, clique no link abaixo.

da-divida-como-culpa-ao-cuidado-com-o-outro.doc

Além destes dois textos, vale a pena ir direto ao texto de Winnicott em:

WINNICOTT, D. W. Psicanálise do sentimento de culpa. In: WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.

O espaço da Ilusão – a contribuição de Winnicott para a Psicologia da Religião agosto 30, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Ilusão, Winnicott.
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Freud considerou a religião como ilusão e identificou-a como o desejo primitivo de fusão com o outro para dirimir o sofrimento da separação e do desamparo. A busca religiosa seria, portanto, uma tentativa inconsciente de repetir a “matriz” primitiva da experiência de prazer e satisfação. Winnicott, ao contrário de Freud, interpretou a Religião (assim como a Arte e a Filosofia) como manifestações da “utilização da ilusão”. Ilusão não como engano ou fantasia, mas como instância de afirmação e criação da vida.

Para Winiccott, o desejo de fusão e a gradual insatisfação desse desejo, é o que permite ao sujeito o sentimento de continuidade da existência. O amadurecimento emocional só acontece quando se faz oposição a esse desejo de modo paulatino. As experiências de separação entre bebê e mãe trazem sofrimento ao bebê em razão da perda do sentimento de continuidade da existência. Esse sofrimento leva-o a lidar com essa dor fazendo-o inventar formas de dar conta dela. Winnicott observou que nesse processo, o bebê encontra objetos que simbolizam a presença da mãe e por isso são capazes de restaurar o sentimento de continuidade de existência, necessário ao processo de constituir-se como uma unidade coesa. A esses objetos simbólicos, Winnicott chamou de objetos transicionais, porque eles têm uma função fundamental, porém temporária. Assim, pelo objeto que o próprio bebê escolhe para simbolizar a mãe, ele vai constituindo-se como unidade separada, reconhecendo-se como sujeito ao mesmo tempo em que não perde, pela separação, o sentimento de continuidade de existência. Ou seja, sentimento de continuidade não é o mesmo que sentimento de completude.

Esse objeto que surge no “entre” bebê e mãe é um objeto “criado” pelo próprio bebê, e indica o movimento criador, fundante de uma existência ativa. Para Winnicott (1975, p. 141), a experiência com os objetos transicionais representa uma “terceira área”, que fica entre interior e exterior e é o local da criação (da ilusão, ou ainda do espaço potencial). Winnicott parece identificar com essa terceira área o próprio processo de subjetivação que acontece nas dobras da subjetivação. “O termo objeto transicional abre campo ao processo de tornar-se capaz de aceitar a diferença e similaridade” (1975, p. 19), pois esse objeto transicional funciona como visibilidade de um jogo de forças ativas e reativas que se dá na dimensão invisível. E essa experiência tem a ver com a construção da capacidade de simbolização, presente na religião, por exemplo. Essa terceira área, que Winnicott identifica como uma área de “ilusão”, de seu ponto de vista é necessária a esse sentimento de continuidade existencial, pois, a substância da ilusão refere-se ao que é permitido ao bebê e que na vida adulta, é inerente à arte e a religião (1975, p. 26). Essa área intermediária (espaço das ilusões necessárias) está “entre a criatividade primária e a percepção objetiva baseada no teste da realidade” (1975, p. 26). Interessante observar que para Winnicott, essa área de substância ilusória é o espaço que nasce da atividade criativa – que é uma passagem (transição) para a “realidade externa”. É a área onde a experiência cultural se realiza criando os fenômenos transicionais (arte, filosofia e religião) - necessários ao ser humano. É, portanto, o espaço onde o adulto encontrará alívio da tensão que nasce da necessidade de “aceitação da realidade que nunca é completada, e que nenhum ser humano está livre da tensão de se relacionar com a realidade interna e externa” (1975, p.28-29).

Parece-nos que o posicionamento de Winnicott em relação a ilusão como necessária à vida, aproxima-se de Nietzsche, quando este afirma que “a vida tem necessidade de ilusões, isto é, de não-verdades tidas como verdades. Ela tem necessidade de crença na verdade, mas então a ilusão basta, isto é, as ‘verdades’ se demonstram por seus efeitos, pela prova da força, e não por provas lógicas” (apud Machado, 1999, p. 45).

A Religião, assim como outros fenômenos, encontram-se no espaço cultural e entram no jogo das relações de força que lidam com as forças de narcisação ativas e reativas, sendo componente importante da dinâmica contínua de criação da vida em cujo processo emergem as subjetividades.

Tanto Winnicott, por parte da Psicologia, quanto Tillich, por parte da Teologia, observam que o que faz oposição à vida não é o instinto de morte, mas sim, o não-ser (para Tillich) ou o não-viver (para Winnicott). Tillich pontua que para ser/viver, exige-se coragem – que pode ser experienciada na religião. Contudo, “muita coragem de ser, criada pela religião, nada mais é do que o desejo de limitar o próprio ser e de fortalecer esta limitação pelo poder da religião”, observa Tillich (1972, p. 56). A coragem de ser como “si próprio”, na perspectiva de Tillich tem a ver com a criação do “próprio estilo” winnicottiano. Tem a ver com a “coragem de fazer de si próprio o que se quer ser”.(Tillich, 1972, p. 117). Mas há um paradoxo em “fazer de si o que quer ser”, pois, o mesmo não se separa do ser que participa na existência do outro e no cuidado com o outro.

A religião, como fenômeno transicional, se coloca como lugar/instância que o ser humano “usa” para lidar com as contingências da vida, e também como “lugar” onde as subjetividades experienciam, simultaneamente, as forças de criação-afirmação e forças de negação da vida. Uma religião saudável é, portanto, aquela que põe em funcionamento as forças ativas e contribui, desse modo, para um modo de existência que busca mais do que a sobrevivência, simplesmente. Uma religião que põe em movimento as forças ativas contribui com o ser humano em seu processo contínuo de criação, afirmação e expansão da vida.

Bibliografia:

MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

TILLICH. Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.

 Acesse, também, em Publicações, um breve comentário sobre o livro de Ana-Maria Rizzuto – O Nascimento do Deus Vivo – um estudo psicanalítico.

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