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Ainda sobre Pesquisa em Psicologia da Religião setembro 1, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, narcisismo, Pesquisas em Psic. da Relig., produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
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Numa análise dos 8 grupos de trabalho que aglutinaram pesquisas em Psicologia da Religião, conforme apresentados no VI Seminário de Psicologia da Religião e Senso Religioso, pode-se depreender uma ausência importante de uma “linha” de pesquisa: a dos processos de subjetivação e produção de subjetividade. Meu interesse na pesquisa em Psicologia da Religião vai por essa via. Assim, apresentei um trabalho no Grupo 2: Psicologia, Experiência Religiosa e Cultura, por ser o GT onde minha pesquisa mais se aproximava. Mas descobri ali que esse referencial teórico sobre “subjetivação e produção de subjetividade” nem passa perto. A reflexão do GT se sustenta ainda numa “tensão” entre indivíduo e cultura – conforme o Coordenador do Grupo se expressou. Penso que está aí um campo de grande relevância a ser explorado. E estou a fim de perseguir esse caminho. Mas gostaria de fazê-lo acompanhada, de algum modo. Espero que outras pessoas que se interessem por esse tema façam contato, e juntos, possamos criar um trabalho de “multidão”, como diz o Negri, no sentido de construir algo novo a partir de uma base “em comum”. No GT, apresentei um trabalho sob o título: “Subjetividade Contemporânea, Sacrifício e Igreja Universal do Reino de Deus: culpa substituída pela vergonha?”. Este trabalho tem a ver com minha tese de doutorado, defendida no ano passado, na EST/IEPG. A tese é de domínio público, mas espero transformá-la em livro logo, depois de “enxugar” o conteúdo e diminuir o número de páginas. Creio que vale a pena fazer isso, pois o tema, “Narcisismo e Sacrifício – Modo de subjetivação e Religiosidade Contemporânea”, é de grande relevância para a reflexão a respeito do nosso modo de existência hoje. E então, alguém se habilita a trilhar esse caminho?

Comentários»

1. Mariana - setembro 17, 2007

Oi, profi…

Pode me explicar melhor o que você quer dizer com “processos de subjetivação e produção de subjetividade”?

Outra questão…

Dei uma olhada na sua tese e na sinopse você escreveu que “a subjetividade hoje, experimenta muito menos culpa e muito mais vergonha”. Saindo um pouco do contexto da IURD, minha dúvida é a seguinte: bebendo da fonte de um evangelho saudável, sem influência da economia capitalista, você acredita que o cristão, em geral, também faça parte dessa lógica da subjetividade atual, de que a vergonha é mais influente que a culpa?

2. psicologiadareligiao - setembro 17, 2007

Oi, Mariana,
Perguntas muito interessantes e pertinentes. E fico orgulhosa por vc se interessar pelo assunto!
Vamos lá…
Processos de subjetivação e produção de subjetividade são conceitos que se imbricam no que a gente pode chamar de “constituição de si”. Vou repetir pra vc o que escrevi em “Para entender pós-modernidade”.
“Produção de subjetividade, um conceito bastante utilizado na Psicologia Social, foi desenvolvido a partir dos estudos trazidos por autores como Foucault, Deleuze, Guattari e Rolnik. Diz respeito à idéia de que a subjetividade não se trata de algo dado, ou pré-determinado como se tivesse uma essência humana universal. A subjetividade (assim como o desejo) não é algo de ordem puramente individual ou genética, ela é uma construção que se dá a partir do social, mas não é simplesmente um produto deste. Ela se constrói na complexidade das relações de força e a partir de uma multiplicidade de processos onde o sujeito está imerso, sendo este, ao mesmo tempo, produto e produtor da sociedade. A subjetividade é, portanto, “modelada” na imbricação de várias instâncias, tais como família, escola, trabalho, religião, meios de comunicação, etc, as quais atravessam o indivíduo e este as vai significando de modo singular”. Por exemplo, cada formação sócio-histórica tem algumas formas singulares de “produção de subjetividade”, veja a fabricação do indivíduo na Modernidade. A produção de um “indivíduo disciplinado” foi necessária ao estabelecimento do capitalismo, e agora, no neoliberalismo, a produção de uma “subjetividade flexível”. Na contemporaneidade, experienciamos um modo de subjetivação (de constiuição de si) que produz subjetividades do tipo “indivíduo”, voltados para si mesmos, para os próprios interesses – ou seja, o sujeito torna-se ponto de partida e chegada do cuidado de si. Neste sentido, o que se é e o que se pretende ser , deve caber no espaço da preocupação consigo. Conceitos como sociedade, pátria, família, Deus, só interessam ao “indivíduo” como meios de realização pessoal, conforme observa o Prof. J. F. Costa. Hoje em dia, nós aceitamos o conceito de indivíduo como algo natural, mas na verdade, trata-se de uma idéia que foi produzida. Nietzsche, por exemplo, observa que por um longo período da história da humanidade nada havia de mais aterrador do que o sujeito sentir-se isolado, como indivíduo. A pessoa que se distanciava da coletividade (dimensão produtora de um sentido de ‘eu’) sentia-se em profunda ansiedade, como um não-eu… é em relação a isso que mais nos diferenciamos hoje em dia, dos nossos antepassados… Mas hoje, a idéia de indivíduo é tomada como “natural”.

Quanto à sua segunda pergunta eu diria o seguinte: não somos “influenciados” pelo capitalismo. Somos subjetivados nele. Ele é matéria prima da nossa subjetividade. Não podemos estar fora dele. Pensar que temos uma “interioridade”, um dentro desvinculado/separado do fora (da exterioridade) é uma ilusão. O capitalismo produz nosso modo de pensar, sentir, comer, vestir, amar (já dizia Guattari)… entretanto, não somos só “produtos” do capitalismo, somos também produtores do mesmo, estamos em um movimento constante de relação de forças que vai tomando forma e se configurando num espaço social, numa dada “forma” de sociedade e de relações… as subjetividades emergem dessa configuração social que é composta pelas relações de força…
Não somos assim tão diferentes (nem melhores) que aqueles que vivem uma forma de religiosidade promovida pela IURD… também estamos nesse mesmo processo de subjetivação onde a vergonha tem sido um dos modos dominantes de subjetivação… Isso pode ser exemplificado concretamente com nossas preocupações pelo corpo ideal, jovem, magro, esbelto… pelo alto consumo dos produtos light/diet, pela preocupação em não envelhecer, etc… muitos exemplos podem ser trazidos aqui para mostrar como a vergonha tem sido um efeito das forças reativas de narcisação na contemporaneidade… Vou postar aqui, daqui uns dias, um texto que talvez esclareça melhor esses conceitos…
ainda para acrescentar: o cristianismo não é “puro” – como se tivesse caído do céu… assim como hoje nós podemos assistir a uma produção de uma “subjetividade religiosa capitalística” em função do estabelecimento do capitalismo, o cristianismo, em seu nascimento, compôs-se também de outras forças culturais, como por exemplo, do mundo helênico (o helenismo, segundo tillich, é uma mistura de elementos gregos, persas, egípcios, judaicos, indianos e muitos outros grupos místicos)… Perceber essa dinâmica nos ajuda a compreender, inclusive, porque assistimos atualmente, a emergência de formas de religiosidade com a cara do capitalismo!

Podemos marcar uma hora pra conversarmos, Mariana… vc fez perguntas complexas para clarear apenas nesse espaço de resposta. O que acha de combinarmos um horário?
Um abraço
mary


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