jump to navigation

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência setembro 6, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, culpa, forças reativas de narcisação, , sofrimento, vergonha.
trackback

Estou lendo “Jó – A força do escravo”, de Antonio Negri. Esperava terminar a leitura para depois comentar aqui. Mas tomei conhecimento de uma entrevista de Negri – para Valor Econômico a respeito desse livro – que vale a pena reproduzir aqui (a entrevista também está no blog do Ezequiel).

No modo de subjetivação contemporâneo sofrer é feio, é vergonhoso… Não é por acaso que a indústria farmacêutica dos antidepressivos continua em crescimento, talvez nas mesmas proporções que crescem os “efeitos colaterais” produzidos pela produção social da vergonha (isolamento, diminuição da potência criativa, fechamento em si mesmo, etc…) Aproveito para dizer que, a meu ver, tem havido uma alteração significativa na configuração subjetiva contemporânea, em relação ao caráter dos sofrimentos. Se até há pouco tempo atrás, os consultórios de psicologia se viam às voltas com os sofrimentos movidos pelo sentimento de culpa, hoje, em geral, são as feridas relativas à vergonha e às forças reativas de narcisação.

Entretanto, seja pela culpa, seja pela vergonha, “o sofrimento é condição da existência”, como afirma Negri. Na experiência de sofrimento é possível afirmar a vida e criar alternativas inusitadas que aumentem a potência de existir. “Identificar a origem do mal e enfrentá-lo”, como sugere Negri, constitui-se, pois, não apenas uma estratégia para lidar com o sofrimento, mas também um exercício de libertação e de invenção de outros modos de vida.

Segue a entrevista completa:

Valor Econômico – SP (06/07/2007)
A travessia de um sofrimento

Por José Castello, para o Valor

Antonio Negri no seu apartamento, em Paris: “Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro”

O filósofo Antonio Negri não aceita o pessimismo e tampouco a debilidade que dominam o pensamento contemporâneo. Nascido em Pádua, Itália, em 1933, ele se tornou mais conhecido no Brasil depois da publicação do polêmico “Império”, livro de 2000, escrito a quatro mãos com Michael Hardt. O pensamento vigoroso de Negri volta às livrarias com o lançamento de “Jó, a Força do Escravo”, pela editora Record.

Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria guardados no “Antigo Testamento” e na “Tanakh”. De autoria incerta, “O Livro de Jó”, que alguns atribuem a Moisés, outros a Salomão, acredita-se, foi escrito em torno de 2000 a.C. Toda a sabedoria de Jó está em desviar a atenção da figura do diabo para olhar Deus diretamente, mostra Negri. O diabo é um burocrata, que gerencia a relação do homem com Deus e, em conseqüência, a rege. Quando decide olhar Deus nos olhos, Jó ensina, diz Negri, que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação.

Negri afirma que existe, portanto, um aspecto positivo na dor: é da travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si. A experiência da dor pode se converter, desse modo, em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Em vez de se assustar com a incerteza a respeito do futuro, Negri prefere vê-lo como uma experiência de abertura infinita, na qual nada está predeterminado e, em conseqüência, tudo pode acontecer. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência. Para Negri, tudo se constrói a cada instante e é dessa instabilidade, que hoje se costuma ver como ameaça, que o homem pode tirar a felicidade.

Negri começou a escrever “Jó, a Força do Escravo” no início da década de 1980, durante os quatro anos em que esteve preso, sob a acusação de ter sido o mentor do seqüestro e assassinato de Aldo Moro, o popular político da Democracia Cristã. Ele se livrou da prisão quando, em 1983, se elegeu deputado pelo Partido Radical Italiano, vitória que lhe conferiu a vantagem da imunidade parlamentar. A imunidade foi logo retirada pela Câmara dos Deputados, mas antes disso Negri conseguiu se refugiar na França, onde viveu exilado durante 14 anos.

Ele se tornou, então, professor da Universidade de Paris VIII e do Colégio Internacional de Filosofia, convivendo com intelectuais do porte de Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em 1997, enfim, decidiu retornar voluntariamente à Itália, para lutar por sua anistia e a de outros presos políticos em situação semelhante. Depois de ser novamente preso, conseguiu a liberdade condicional. Até 2004, viveu em regime de liberdade restrita. Antonio Negri mora, atualmente, em Veneza, de onde concedeu, por telefone, a entrevista que se segue.

Valor: Nosso mundo, gerido pelos antidepressivos, pelas psicoterapias, pelo misticismo e pelo fanatismo, vive em luta contínua contra o sofrimento. O sofrimento é, também, o tema central de “Jó, a Força do Escravo”. Parece ser, enfim, seu tema mais importante.

Antonio Negri: Sim, o sofrimento é condição da existência. Condição que está ligada diretamente à solidão humana. Nosso desejo de viver se abre, sempre, para os outros. O sofrimento aparece quando alguma coisa, a que chamamos de mal, impede a realização do desejo. No mundo de hoje, os limites à liberdade, ao desejo e à felicidade são muito grandes. Existem muitos entraves em nossa vida. O problema é que, em geral, atribuímos a esse mal que veda nosso acesso à felicidade uma origem misteriosa. Jó, de início, faz a mesma coisa, apegando-se à idéia de uma origem enigmática para a dor. Mas o importante em Jó é que, em dado momento, ele identifica a origem do mal e a enfrenta. O mal, então, deixa de ser um mistério, deixa de ser uma ameaça difusa, e toma uma forma. Quando Jó olha Deus de frente, quando ele vê o Absoluto, vê a si mesmo e compreende, então, que a origem do mal é completamente objetiva. Ao encarar Deus, Jó se apropria de Deus. Ele entende, aí, que só ele mesmo pode se livrar do mal. É o momento em que se liberta também da mistificação do mistério – livra-se da idéia de que o mal tem sempre uma origem misteriosa – e passa a entender o que ele é. É esse o momento mais formidável de Jó.

Valor: Em geral, reduz-se a figura de Jó a uma caricatura, a do homem que tem uma paciência infinita. O sr. o vê, ao contrário, como um homem que se engaja na luta e na ação.

Negri: Jó é um personagem ativo. É um homem que constrói riquezas com seu trabalho, é um homem feliz, que deseja entender a existência do mal. Reduz-se Jó, em geral, a uma caricatura – por exemplo, quando se fala da “paciência de Jô”. Contudo, a idéia de que Jó é um homem que sofre pacificamente é falsa. Ele está sempre em luta contra o mal, ele o enfrenta e o combate. Por que o mal? Por que Deus permite o mal? – essa é sua grande pergunta. Já que não há nada que justifique o mal.

Valor: O poeta italiano Giacomo Leopardi (1789-1837), conhecido por seu pessimismo, é outro personagem importante em suas reflexões sobre o sofrimento. Também para Leopardi, a dor não leva ao imobilismo. Ao contrário, ele dizia que o homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa. Em que medida Leopardi e Jó se aproximam?

“A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz o presidente Bush”

Negri: Escrevi um livro sobre Leopardi, “Lenta Ginestra”, ensaio sobre a ontologia, que se inspira em um de seus últimos poemas. Creio que existe uma comparação positiva entre Jó e Leopardi. Para os dois, é a comunidade dos homens que se opõe e enfrenta o mal. Os dois me ajudam a lutar contra as escolas pessimistas de pensamento. Na verdade, não é uma questão de pessimismo ou de otimismo, mas, sim, da capacidade humana de se organizar para agir e para reagir. Não se trata de escolher entre o pessimismo de Leopardi e de Schopenhauer ou o otimismo, por exemplo, dos marxistas. Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro.

Valor: O sr. começou a escrever Jó na prisão, em um momento no qual não tinha perspectivas a respeito da reconquista da liberdade. Em que medida essa experiência pessoal do sofrimento marca sua obra?

Negri: Escrevi tanto sobre Jó como sobre Leopardi atrás das grades. Havia, sim, um sofrimento pessoal que me mobilizava, mas era um sofrimento concreto. No meu caso, o sofrimento provinha da falta absoluta de liberdade e também da falta de perspectiva de reconquista da liberdade. Não era um sofrimento misterioso. Eram coisas concretas e bem visíveis que me influenciaram, como, por exemplo, a percepção que passei a ter da derrota política. O trabalho que fiz na prisão foi não só de interpretação do sofrimento, mas também de construção de um pensamento. Foram coisas que andaram juntas. São coisas, é verdade, que saíram de meu sofrimento. Mas não basta ficar no sofrimento, o importante é ligá-lo aos fatos históricos. E enfatizar que podemos ver esse sofrimento na perspectiva racional, isto é, em uma perspectiva clara. Que é possível conservar uma concepção racional não só do sofrimento, mas também da história e da vida como um todo.

Valor: Hoje se fala muito de um crescente mal-estar que acomete todo o planeta. Um mal-estar difuso, que penetra nas zonas mais inesperadas e, freqüentemente, se esquiva de uma definição e de um nome. Ele se associa ao vazio, à descrença no futuro, ao desencanto, e sua presença, parece, se torna cada vez avassaladora.

Negri: Sim, existe hoje uma visão mística do sofrimento. Ela é alimentada pelos adeptos da new age, do esoterismo, do orientalismo. É estimulada por todos os que afirmam que o sofrimento é místico. O Brasil é o país de Paulo Coelho. Já escrevi sobre Coelho para a “Folha de S. Paulo”. A penetração de seus livros dá uma boa indicação do que você fala. Em seu país, a concepção mística do sofrimento foi enfrentada com firmeza pelos padres da Teologia da Libertação. Eles tiveram a coragem de introduzir no catolicismo a possibilidade de mudança e de luta. Sou um grande admirador dos ensaios de Leonardo Boff. Eles oferecem uma visão que é cristã, mas é também materialista e muito forte, muito potente. Mesmo os cristãos não podem descartar, não podem deixar em segundo plano, o aspecto material. Ele está presente, por exemplo, na doutrina da ressurreição da carne após a morte. O corpo que reaparece, o corpo que renasce, o que ele é? Ele é matéria. Logo, mesmo na tradição cristã, existe um forte componente material. Muitos cristãos não conferem a devida importância a essa idéia do corpo ressuscitado. Insisto: o que ressuscita é o corpo, é a matéria. Portanto: o corpo está no centro da fé. Quanto a Paulo Coelho, do mesmo modo, não me parece que o sucesso dele seja muito místico… É muito mais um sucesso material, ligado, portanto, à matéria também.

Valor: Associa-se sempre esse cenário de esvaziamento e de amortecimento da razão ao mundo pós-moderno. Fala-se ainda na vigência de um “pensamento fraco”, que seria uma característica nefasta do novo século. O sr. compartilha essa visão?

Negri: Não posso negar que o nascimento de pós-moderno delimita a aparição de um “pensamento fraco”. Surge uma forte negação da história, negação do valor do trabalho e, sobretudo, negação da luta. O pós-modernismo nada mais é que a negação, o ultrapassar dos valores da modernidade. Existe, de fato, essa tendência negativa. Mas existe também uma reação, uma busca do saber, o investimento em uma nova organização social, em uma nova ordem e também em uma nova razão. Uma volta a valores da modernidade, mas em uma perspectiva nova, que dá mais força ao individualismo. Esse seria o lado positivo do pós-modernismo.

Valor: Como seria essa nova razão? O papa Bento XVI diz, por exemplo, que a aproximação de Deus não se dá pela palavra, isto é, pela razão, mas “por atração”. Como o sr. vê a idéia?

Negri: Primeiro, é preciso pensar o que é a razão. A razão é muito mais rica que a razão instrumental e eurocêntrica. Particularmente, estou convencido de que a razão é extremamente corporal e vibrante. Mas essa característica biológica da razão não nos tira a responsabilidade sobre ela. A idéia de engajamento “por atração”, como sugere Bento XVI, tira do homem a responsabilidade de sujeito. Todos esses sujeitos do fanatismo e do extremismo são exatamente sujeitos que abdicaram da razão e, por isso, se tornaram muito perigosos. São perigosos, sobretudo, porque negam as singularidades e as particularidades. A grande luta, hoje, é a da afirmação do múltiplo e da democracia. A identidade está sempre ligada à multiplicidade. E é a partir dela que podemos agir. No fanatismo, ao contrário, há uma espécie de identidade fixa. O fanatismo religioso, o patriotismo e o nacionalismo se apóiam, sempre, em uma identidade fixa – pelo menos quando vista de fora. Contudo, por dentro atuam, como diz o papa, “por atração”. É a dinâmica de uma espécie de monstro que devora seus adeptos. Isso, a meu ver, significa o fim da liberdade. E a liberdade é imensamente importante para o futuro da humanidade.

Valor: É a fixação na idéia do mal que leva à paralisia, ao desencanto e ao vazio?

Negri: No “Livro de Jó”, o diabo é uma espécie de burocrata que domina a visão que se tem de Deus e é, em resumo, quem lhe dá forma e identidade. Toda a luta de Jó é para se livrar da burocracia, isto é, para se livrar dessa mediação controlada pelo diabo. E, desse modo, ver Deus diretamente. Olhar Deus cara a cara, afastando o diabo dessa relação. A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz, por exemplo, o presidente Bush. É essa luta prioritária contra o mal, que coloca sempre a figura do diabo na frente, que leva ao extremismo absurdo, por exemplo, dos ocidentais contra os orientais. A partir do momento em que se pensa em termos de dualidade, toda a complexidade do mundo é reduzida a uma luta de civilizações, o que é não só absurdo, mas perigoso. O extremismo nega as singularidades. Se você reduz tudo a uma luta de Deus contra o diabo, ou do diabo contra Deus, cai em uma armadilha de que é muito difícil sair.

Comentários»

1. Morte, Sofrimento e as Dores de cada dia - o que “pode” a subjetividade hoje? « Psicologia da Religião - novembro 14, 2007

[…] Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência […]

Lenir Trezinha Barboza - junho 5, 2009

que maravilha, sempre achei que o sefrimento nos leva as nossas mais profundas competencias para axistir neste plano e nos desenvolver e produzir…… que qimica maravilhosa tudo isso somos nós.Gostei do pensamento afirmando a criatividade na existencia. Estou fazendo meu artigo de final da pos-graduação em psicologia organizacional e do trabalho e vou escrever sobre o sofrimento como base para as competencias e criatividade. Muito obrigado pelo conhecimento aqui deixado.

psicologiadareligiao - junho 5, 2009

Alegra-me saber que o material te ajudou de algum modo, Lenir.
Um abraço e bom trabalho de finalização de curso,
Mary


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: