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O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, forças de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, Religião e Sociedade, sacrifício, sofrimento, subjetivação.
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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

Comentários»

1. EDUARDO JOSE DA SILVA - outubro 28, 2007

Embora não concorde com os comentários , pricipalmente no seu desconhecimento sobre o mundo pentecostal e protestante, que aliás, não tem nada a ver com religiosidade, devo afirmar que fiquei decepcionado em ver o lider espiritual da igreja Universal , apresentar-se como DONO DA REDE RECORD DE TELEVISÃO. Vi aquilo como um choque, juntamente com todos de minha família.Posso garantir que foi grande decepção. Este sentimento, talves não seja bem compreendido por aquele que não seja verdadeiramente evangélico. foi e é um sentimento de tristeza , em ver uma das pessoas que mais admirávamos e que notamos que se deixou envolver pelas vaidades do mundo. Aquele que se apresentava como homem de Deus, como instrumento do Pai Eterno, aqule que se identificava em melodia cantadapor seu sobrinho e Senador , como “pequeno grão de areia”, mostra-se agora a toda a nação brasileira, como empresário do mundo das comunicações. Sr. Empresário Edir Macedo, obrigado por ter me alertado sobre seu propósito nesta terra. Ainda ssim eu e minha família estamos orando para que você se dê conta , juntamente com seus Bispos de confiançae que cuidam da IURD e RECORD , que sua atitude foi a mais irresponsável que você poderia ter tomado. A RECORD foi comprada com um dinheiro santificado, doado para a obra de Deus, para a divulgação do seu evangelho, para mostrar ao mundo, a verdadeira palavra que liberta o mundo . É triste ver emissora adquirida com dinheiro do povo de Deus, garantindo aos lares brasileiros, uma programação com o mesmo quilate da poderosa global. Temos até um personagem bêbado aos domingos, apresentando artistas do povo em plena Praça da Sé. Deve ser confuso e triste aos irmãos da IURD, muitos que até buscam nas reuniões a vitória sobre seus maridos e filhos que têm a vida destruida pelo uso de drogas e de álcool . É assim que estamos vendo a IURD e seu crescimento. Mas não se enganem os Bispos da alta direção da IURD. Muitos comentários já acontecem nos estacionamentos das igrejas Universal. Eu particularmente já dei outro destino a mim e minha família quanto a igreja que irei congregar. Acreditem, aonde estou agora , existe um missionário… que fala da PALAVRA DE DEUS.

2. psicologiadareligiao - outubro 28, 2007

Prezado, Eduardo. Tenho uma percepção própria a respeito da IURD, sim, como vc pode perceber. De qualquer modo, obrigada por ter deixado seu comentário.


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