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Os olhares do Cuidado: dimensões da integralidade em saúde outubro 11, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Pastoral, cuidado, Espiritualidade, Saúde e Religiosidade.
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Como abordar a questão da integralidade em saúde se deixarmos de fora a dimensão da espiritualidade/religiosidade, esse difícil tema que insiste em se fazer presente até mesmo quando parece ausente? Para pensar sobre a questão da espiritualidade e sua relação com a prática do cuidado e da busca da integralidade em saúde, 3 “dispositivos” serão aqui evocados. O que poderá emergir como possíveis “conclusões” ou mesmo outras questões para se continuar pensando a partir dos dispositivos apresentados fica em aberto, à espera, talvez, daqueles/as com coragem para deixar aqui suas contribuições.

Dispositivo 1 – fábula: “Cura” – O sentido de cura e cuidado

A palavra “cura” vem do latim – curare – significa cuidado, atenção, “preocupação com”. Não é por acaso que o título da Fábula de Higino, também contada por Goethe, no segundo ato de Fausto, traz o título “Cura”. Em sua obra Ser e Tempo, Heidegger utiliza-a como idéia central para desenvolver a reflexão sobre cuidado como um “modo de ser do humano”. O cuidado pré-figura a existência humana, perpassa-a e a constitui, sendo então, condição da continuidade da existência. Vamos à lenda:

Quando um dia o Cuidado atravessou um rio, viu ele terra em forma de barro: meditando, tomou parte dela e começou a dar-lhe forma. Enquanto medita sobre o que havia criado, aproximou-se Júpiter. O Cuidado lhe pede que dê espírito a essa figura esculpida com barro. Isso Júpiter lhe concede com prazer. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar seu nome à sua figura, Júpiter o proibiu e exigiu que lhe fosse dado o seu nome. Enquanto o Cuidado e Júpiter discutiam sobre os nomes, levantou-se também a Terra e desejou que à figura fosse dado o seu nome já que ela lhe tinha oferecido uma parte do seu corpo. Os conflitantes tomaram Saturno para juíz. Saturno pronunciou-lhes a seguinte sentença, aparentemente justa: Tu Júpiter, porque deste o espírito, receberás na sua morte o espírito; tu Terra porque lhe presenteaste o corpo, receberás o corpo. Mas, porque o Cuidado por primeiro formou essa criatura, , irá o Cuidado possuí-la enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, irá chamar-se homo (homem), já que é feito de húmus (terra) (Heidegger: 1988, p. 263-4).

Dispositivo 2 – vídeo – A Integralidade da assistência em saúde

(vídeo produzido pelo BERRO – Laboratório de Artes Cênicas da UFPI disponível em: http://www.abepsi.org.br/abep/videos.aspx#)

“Entre desejo e realidade” (como se pode ler nas inscrições iniciais do vídeo) está a cegueira e o não-olhar o outro como impedimento para a promoção efetiva da cura/cuidado. O cuidado supõe olhar o outro em sua singularidade. Tem como condição ouvir o desejo do outro ainda que o mesmo pareça óbvio àquele que ocupa o lugar de cuidador. O cuidado não é algo que se dá a outro, mas que se pratica com o outro, implica em circulação de afetos, em algo que se cria em comum. Quanto nossa escuta e nosso olhar estão abertos em nossa prática de cuidado? Quanto permitimos que todo o nosso corpo, olhos, ouvidos, coração e mente sejam afetados e ativados nos encontros de afeto com o outro?

Dispositivo 3 – narrativas da vida de Jesus – O olhar o outro, a escuta do desejo e a valorização das crenças pessoais

Duas narrativas, recortadas do Segundo Testamento, contam a história de pessoas cegas buscando pela cura. A primeira é de um morador da cidade de Jericó – lugar onde acontece o encontro desse cego com Jesus. Ao perceber a agitação da cidade em razão da visita do Filho de Deus àquele lugar, aproveita a oportunidade e clama por misericórdia. As pessoas ordenam que ele se silencie, mas ele grita cada vez mais alto. Jesus vê que ele é cego, mas a despeito disso, evoca seu desejo de cura na pergunta de algo “aparentemente” óbvio: “Que queres que eu te faça?” (Marcos 10: 46-52). Jesus não se colocou no lugar de de alguém que “sabe” de antemão o desejo do outro, ainda que pudesse supô-lo. Ele pergunta pelo desejo: “o que você quer?”. O resultado desse encontro é descrito na frase: “Vai, a tua fé te salvou”. A segunda narrativa conta a história de dois cegos que pedem a cura e Jesus lhes pergunta: “vocês crêem que eu posso fazer isso?” À resposta afirmativa de ambos, Jesus diz: “Seja feito segundo a fé de vocês!”(Mateus 9: 27-28). Em ambas as narrativas, o posicionamento de Jesus frente aos que buscam a cura não é de alguém que sabe de antemão o desejo do outro. Pelo contrário, sua atitude revela que parece-lhe parte integrante do processo de cura, a ativação de um elemento que não depende do “curador”, mas que tem a ver com a implicação das partes envolvidas num processo de criação – em conjunto – de uma outra realidade. No caso dos cegos, esse elemento era a fé, a crença, os valores que possuíam – era a subjetividade de cada um que era convocada no processo de cura. É possível depreender dessas narrativas que a cura/cuidado é uma via de duas mãos, é algo que se constrói em comum, sobre uma base mínima de identificação onde as condições de possibilidade de emergência de uma outra configuração depende do olhar do outro e de uma escuta que agencia o desejo no processo de cura e de afirmação mesma da vida.

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