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Produção de subjetividade e Nobel da Paz 2007 – Entrevista com o vice-presidente do Comitê Nobel outubro 17, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Al Gore, Nobel da Paz, produção de subjetividade.
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Talvez alguns se perguntem o que tem a ver o Nobel da Paz – 2007 e a Psicologia da Religião. O ponto em comum que merece ser pensado é o da produção de subjetividade – a partir da perspectiva da ecologia – e as relações possíveis com a Teologia (em particular a cristã).

Quero dividir esse tema em duas postagens. Nesse primeiro post vou colocar apenas a entrevista que fiz com Berge Furre, vice-presidente do Comitê Nobel. Penso que é importante conhecer um pouco sobre o Prêmio Nobel, para depois seguirmos com a reflexão proposta.

Berge Furre é historiador e professor de História da Igreja na Universidade de Oslo. Aposentou-se este ano, mas continua com trabalho de orientação a estudantes no Programa de Doutorado. Tive o privilégio de ser aluna do professor Berge (no Mestrado e Doutorado) e, também, de trabalhar com ele num Projeto de Pesquisa Internacional – RIGA – Religion in a Globalized Age – no período de 2001 a 2005. A pesquisa, enfocando a relação entre processos de globalização e religião, foi realizada em 7 países, entre eles o Brasil. Fui a pesquisadora brasileira engajada no projeto. A pesquisa no Brasil, sob a coordenação do Prof. Berge, foi sobre a Igreja Universal do Reino de Deus. Além de historiador e professor, Berge é também pastor luterano e um político muito respeitado na Noruega. É membro co-fundador do Partido Socialista de Esquerda. A entrevista foi concedida por e-mail.

Você poderia falar um pouco sobre o Comitê Nobel, o modo como este funciona, os “bastidores” do processo de escolha do Nobel da Paz?

O comitê Nobel tem cinco membros designados pelo parlamento Norueguês (Stortinget). Quatro são ex-políticos (do parlamento ou do governo). Um membro, o presidente, é professor e médico. Todos têm experiência política, mas agora, como membros do Comitê, nenhum deles faz parte do parlamento ou do governo. Os membros são todos “livres” – pessoas independentes – sem relações formais a partidos. O trabalho do comitê é baseado no princípio da unanimidade – “consensus”. Nós temos discussões vivas durante o processo de escolha, mas buscamos sempre a unanimidade no comitê. Sobre o modo como trabalhamos, o que eu posso dizer é que os nomes têm de ser apresentados até o dia 1º de fevereiro. Qualquer membro de qualquer governo, qualquer parlamentar, ou outros grupos, podem apresentar candidaturas. Neste sentido, é muito fácil haver uma candidatura e por isso a lista é grande. No início de cada ano, recebemos uma lista de quase 200 nomes e começamos as discussões para ir diminuindo o número dos concorrentes. Nós temos ajuda de especialistas noruegueses, mas também consultamos alguns especialistas estrangeiros. Mais ou menos em junho, julho, a lista dos candidatos já está bastante reduzida e trabalhamos apenas com alguns nomes, para chegar, finalmente, a uma decisão que é anunciada, normalmente, em outubro, por volta do dia 10-12.

Por que o Comitê Nobel escolheu Al Gore/IPCC (– Intergovernamental Panel on Climate Change) para o prêmio deste ano?

O comitê escolheu a questão do clima como um dos problemas mais importantes da humanidade: O painel sobre clima, das Nações Unidas, mostra quatro relatórios cada vez mais assustadores. Trata-se de uma ameaça séria à vida no planeta. Al Gore é uma pessoa que tem trabalhado nesta área há mais ou menos 20 anos e baseia-se em relatórios científicos que apresentam a ameaça trazida pelas mudanças climáticas. Ele tem capacidade para proclamar ao mundo sobre essa ameaça e agora temos um porta-voz para acordar a todos sobre esta questão. Assim, “acordar” o mundo sobre esse problema foi a razão que levou o comitê a colocar esse tema no centro dos interesses mundiais.

Quais outras pessoas concorreram ao prêmio deste ano? Uma curiosidade: algum brasileiro/a foi nomeado para o Nobel este ano? Quem?

O comitê nunca publica nomes de outros candidatos. É um segredo nosso. Minha boca está fechada a “sete chaves”.

Provavelmente muitos têm curiosidade em saber por que o Nobel da Paz é concedido por um Comitê da Noruega, enquanto outros Prêmios Nobel são outorgados por um comitê na Suécia. Você poderia falar um pouco sobre isso?

O testamento de Alfred Nobel determina que os prêmios a pessoas ou instituições na área da Física, Medicina, Química, e Literatura sejam dados por comitês suecos. Alfred Nobel também declarou que o prêmio da paz seria escolhido pelo Parlamento Norueguês. Por que Suécia ou por quê outro país? Porque Noruega? Há diferentes teorias. Uma: Noruega e Suécia eram países unidos no período entre 1814-1905. A Noruega não tinha um Ministério das Relações Exteriores. O Ministério dos Negócios Estrangeiros ficava nas mãos do rei de Estocolmo na Suécia. Talvez, então, o sentido de ser a Noruega o país responsável de escolher o prêmio da paz resida no fato dela não ter uma política estrangeira. Desse modo, o prêmio não correria o risco de se “misturar” à política internacional da Suécia. Outra teoria: As relações entre Noruega e Suécia eram tensas (a união foi dissolvida em 1905). É possível que Alfred Nobel pensasse que desse modo – através do prêmio – as relações entre Suécia e Noruega pudessem ser fortalecidas.

Alfred Nobel, o criador do Prêmio Nobel da Paz, deixou escrito que o prêmio deveria ser outorgado a pessoas que reconhecidamente contribuíssem para a redução do armamento, para o fortalecimento da fraternidade entre as nações e para a promoção da paz mundial. Em 2004, a ganhadora do prêmio foi a queniana Wangari Maathai, conhecida por sua luta pelo ambiente. No ano passado, Yunus, idealizador do banco de microcréditos, conhecido pela sua luta contra a pobreza. Neste ano, Al Gore e IPCC, pela prática de uma política voltada às questões em torno da mudança climática. Trata-se de uma nova política de reconhecimento em torno da questão da promoção da paz no mundo?

Nas primeiras décadas, os prêmios foram outorgados a pessoas e organizações cujo trabalho tinham uma relação direta a conflitos de guerra. Mas em 1960, Albert Lutuli, da África de Sul, recebeu o prêmio por idéias voltadas aos direitos humanos (Apartheid). Passo a passo, o comitê escolheu laureates envolvidos não apenas em soluções de conflitos, mas também em áreas de direitos humanos e ambiente. Paulatinamente tem-se desenvolvido o entendimento da articulação entre direitos humanos, questões do ambiente em relação à promoção da paz. O comitê estende cada vez mais a área de abrangência do prêmio por compreendê-lo em uma perspectiva humana do mundo. No testamento de Alfred Nobel uma frase é especialmente importante na escolha do prêmio: “A confraternização dos povos”.

Alguns representantes religiosos, como Dalai Lama, Madre Teresa de Calcutá, Luther King, foram laureados com o Nobel da Paz. Vc é professor de História da Igreja na Faculdade de Teologia e é pastor luterano num país que tem uma religião estatal. A pergunta agora é para você como teólogo e membro do Comitê. É claro que a religião tem um importante papel na promoção da paz no mundo. Em sua opinião, quais seriam os principais desafios da religião hoje na promoção da paz?

De fato, muitos laureados têm uma relação à religião, como você aponta. É também um fato que em conflitos (de guerra, de direitos humanos, de ambiente), as soluções de paz muitas vezes tem um engajamento religioso. Muitas pessoas hoje falam do “retorno da religião”, pontuando o fim da “era do secularismo” . Não sei se é verdade e se há mesmo um “retorno da religião”. Em geral, a religião é uma “benção”. Entretanto, graves conflitos hoje têm elementos religiosos, especialmente na forma de fundamentalismo. Religião é um fenômeno “perigoso” quando está nas mãos de poderes. Posso mencionar Paquistão, Índia, Bósnia, Iran, Israel/Palestina.
Mas acho que a religião também pode ser um fator importante no fortalecimento das forças de paz e liberdade. Exemplo: África do Sul e a briga contra apartheid. Também acho que a religião pode “sobreviver” aos conflitos através do dialogo entre as religiões. Diálogo entre líderes religiosos e grupos
religiosos podem ajudar a construir a paz, a aumentar a tolerância e a compreensão entre povos e grupos religiosos. Os líderes religiosos tem uma responsabilidade importante neste mundo e têm responsabilidades, também, frente às questões da crise climática.

Obrigada, Prof. Berge, pela entrevista.

berge-e-mary-polonia2007.jpg

Comentários»

1. Ezequiel Vieira - outubro 18, 2007

Parabens pela entrevista!

Especificamente sobre Al Gore… ainda acho que a premiação foi muito mais pelo seu sentido político, como pude ler nas palavras de Berge Furre “Ele tem capacidade para proclamar ao mundo sobre essa ameaça e agora temos um porta-voz para acordar a todos sobre esta questão”

Mas talvez tb seja algo pessoal…. Enfim, aguardo a 2ª parte

2. psicologiadareligiao - outubro 18, 2007

Oi, Ez, obrigada pela visita e pelo comentário! É legal receber “parabéns pela entrevista” – de um jornalista, sabia?
Ah, a segunda parte…! Tinha já escrito um bom pedaço e perdi! E, em geral, a gente costuma pensar que o que “perdeu” era melhor do que o que tem agora… Mas vem!
Quanto ao “sentido político” pode ser também de uma certa “política de subjetividade”…
Abraço pra ti!


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