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Produção de Subjetividade e Nobel da Paz 2007 – Parte II outubro 19, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Al Gore, Antonio Negri, ética, Nobel da Paz, produção de subjetividade, Religião e Sociedade.
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“Toda uma dinamização da retomada de confiança da humanidade em si mesma está para ser forjada aos poucos. O ideal é dificultar o pessimismo e a passividade que nos envolvem”. F. Guattari.

No Post anterior, levantei a questão sobre o que o prêmio Nobel da Paz 2007 pode ter a ver com a Psicologia da Religião. Antecipei que o ponto em comum que merece ser pensado é o da produção de subjetividade – a partir da perspectiva da ecologia – e as relações possíveis com a Teologia (em particular a cristã).

A entrevista com Berge Furre, vice-presidente do Comitê Nobel, nos forneceu alguns dados sobre o trabalho do Comitê e as razões da escolha do nome de Al Gore e IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) como os laureados pelo Nobel da Paz neste ano. O comitê entende que “a questão do clima é um dos problemas mais importantes da humanidade”, e Al Gore “tem capacidade para proclamar ao mundo sobre essa ameaça [do aquecimento global] e agora temos um porta-voz para acordar a todos sobre esta questão. Assim, ‘acordar’ o mundo sobre esse problema foi a razão que levou o comitê a colocar esse tema no centro dos interesses mundiais”.

Várias pessoas questionam a legitimidade do prêmio Nobel da Paz para Al Gore/IPCC, lançando dúvidas sobre as intenções políticas motivadoras do trabalho que Al Gore realiza. Não me parece profícua essa discussão quando qualquer neófito pode constatar, sem a mínima reflexão, apenas com a percepção do senso comum, a verdade dos fatos apontados por Al Gore. Tem havido, sim, e muito mais rápido do que se pensava algum tempo atrás, uma mudança climática com efeitos devastadores sobre o planeta, ameaçando a própria continuidade da vida na terra. Portanto, no debate proposto aqui, não cabe perder tempo com atitudes pré-concebidas. Vale a pena abrir um espaço de escuta ao que ele está dizendo e fazendo.

O que me parece importante pensar – e aqui, sim, começamos a visualizar o que isso pode ter a ver com a Psicologia da Religião – é a reflexão sobre as bases, as estratégias, o alcance e os efeitos do trabalho e luta de Al Gore. Seu fazer carrega a potência criadora de uma outra realidade. A luta de Al Gore parece trilhar o caminho do “poder constituinte” – que emprega as energias em uma política de subjetividade que escapa à lógica do poder constituído. O poder constituído produz uma configuração social que expressa, com seus valores essencialmente capitalistas, uma perspectiva reducionista da vida. Al Gore chama a atenção: “Isto não é uma questão política, mas é, sim, uma questão moral” (This is really not a political issue, so much is a moral issue”). Qual é a ” inconveniência” da verdade de Al Gore? Ele a resume na frase: “Nossa capacidade de viver é o que está em jogo, é o que estamos prestes a perder” (“Our ability to live is what is at stake”). Veja aqui o trailer do documentário. A verdade inconveniente de Al Gore é que no fundo ela aponta para a necessidade da criação de outros modos de vida, de outras condições de existência, para além da perspectiva da exploração e do lucro. Ela aponta para a necessidade de criação de outras políticas de subjetividade porque não se escasseiam apenas os recursos naturais que dão condições para a vida. Empobrece-se também de subjetividade. O documentário de Al Gore incide sobre o desejo – “a força determinante nos processos de constituição do político e da formação do social”, como pontua Negri.

Perceber o trabalho de Al Gore como um fazer que trilha os caminhos do poder constituinte é reconhecer que sua estratégia de luta busca “fazer multidão” (multitude) . Incidindo no desejo, Al Gore convoca a potência criadora presente nas singularidades que constituem a multidão. Estamos tomando aqui, a noção negriana de multidão, intimamente ligada à construção do comum. Multidão, para Negri, “é o reconhecimento de que por trás de identidades e diferenças, pode existir ‘algo comum’ – (…) entendido como proliferação de atividades criativas, relação ou formas associativas diferentes” (Negri, 2003, p. 148). Neste sentido, o ser multidão se expressa no fazer multidão através da cooperação, do trabalho que se produz em comum, que se forma e se prolifera através das redes. Trata-se portanto, de um dispositivo de guerra contra a forma como o capitalismo atual se configura. Nesse ponto creio ser necessário fazer jus ao que Guattari já dizia desde 1990, com a publicação do seu trabalho “As três Ecologias”.

A meu ver, a luta de Al Gore se aproxima das reflexões de Guattari no ponto em que ambos colocam em evidência que o que está em questão é a degradação da vida no planeta – no sentido ambiental, sim, mas também na dimensão individual e coletiva. E essas três ecologias – a do ambiente, a do social e a da subjetividade – como Guattari coloca, são indissociáveis, sofrem os mesmos processos de degradação e devem ser, por isso, alvo de nossa luta hoje.

Em 2001, o teólogo Leonardo Boff ganhou o Prêmio alternativo da Paz, em Estocolmo, por “articular ecologia, justiça social e espiritualidade em seu livro “Ecologia: Grito da Terra, Grito do Pobre”, publicado em 1995. Neste livro, Boff também aborda as três ecologias: ambiental, social e mental, e acrescenta ainda, uma “ecologia integral”. Boff desenvolve uma Teologia (cristã) que enfoca a mensagem bíblica de libertação integral: do planeta, das relações sociais e da subjetividade aprisionada nos modos dominantes de existência.

Penso que a Psicologia da Religião em muito pode contribuir com a reflexão sobre os processos de produção de subjetividade contemporânea, especialmente quando traz para o debate, a produção de determinadas expressões de espiritualidade assentadas nos mesmo valores capitalistas de exploração e lucro, que Al Gore denuncia com sua “verdade incoveniente”. Não falta em nosso país tão religioso, exemplos de grupos e instituições produtoras de uma subjetividade religiosa capitalística. Precisamos, sim, “lutar pela instauração de novos sistemas de valorização que não tenham como único critério o lucro. Há outras espécies de rentabilidade possíveis e necessárias, nos lembra Guattari, como por exemplo, uma rentabilidade estética [ambiental], social e de desejo [subjetividade]”(Rolnik, online, “ética do real”).

Leia também, a resenha de Suely Rolnik, do livro “As três ecologias”, de Felix Guattari – Ética do Real

Acesse, também, a versão do livro de Guattari, em espanhol, Las Tres Ecologias, em: http://static.scribd.com/docs/jrudjl05wu71b.pdf

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