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“Fazer multidão”: o desafio prático da teorização negriana do Comum outubro 30, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, comum, multidão, produção de subjetividade, subjetivação.
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Abrindo a reflexão…

No começo deste ano, encontrei a seguinte frase de Deleuze num blog:

“Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver.”

Como não havia referência sobre o lugar de onde a frase havia sido retirada, escrevi ao proprietário do blog perguntando. Ele não apenas me deu a referência exata: “DELEUZE, G. – Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 1994. p.17-18, como me mandou o livro de presente, pelo correio – o livro viajou de Minas Gerais a Porto Alegre. O gesto do prof. Eduardo Simonini me comoveu.

Faço uma ponte desse acontecimento com um outro, para fomentar a reflexão…

Foi em meio a um estudo mais aprofundado sobre Pós-Modernidade – que resultou na publicação do livro “Para entender Pós-Modernidade” (da série: Para entender – da Editora Sinodal) – que os conceitos de multidão e de comum, de Negri, fizeram um novo sentido pra mim. A despeito de várias críticas que tenho lido sobre o pensamento de Negri e Hardt, esses autores, juntamente com Virno, Lazzarato, Cocco e mais alguns outros, têm sido, em minha opinião, alguns dos pensadores da atualidade cuja reflexão teórica possibilita dialogar com distintos campos de saber, como a Tecnológica-Informacional e as diferentes áreas no campo das Humanas (inclusive a Psicanálise) no sentido de pensar alternativas possíveis à produção maciça de empobrecimento da subjetividade na contemporaneidade.

Qual a potência constituinte dessas noções de multidão e comum no que diz respeito a invenção de outras alternativas face a subjetivação contemporânea que contempla a hiperindividualização, a competição, o auto-interesse, a troca baseada no lucro sobre o outro?

Alguns subsídios para pensar a questão…

1. Sobre a noção de multidão

Em Gramática da Multidão, Virno observa que foi sobre o racionalismo moderno que se construiu, entre outras narrativas, a idéia de povo. Para ele,

a alternativa entre ‘povo’ e ‘multidão’ esteve no centro das controvérsias práticas (fundação do Estado centralizado moderno, guerras religiosas, etc.) e teórico-filosóficas do Século XVII. Esses dois conceitos em luta, forjados no fogo de agudos contrastes, jogaram um papel de enorme importância na definição das categorias sócio-políticas da modernidade. A noção de ‘povo’ foi a prevalecente. ‘Multidão’ foi o termo derrotado, o conceito que perdeu” (Virno, 2003, online).

Não nos esqueçamos: foi ancorado na idéia moderna de “povo” que o mundo assistiu ao quase extermínio de todo o povo judeu!!

Virno faz as seguintes observações contrapondo povo e multidão:

“o povo tende para o Uno. Os ‘múltiplos’ derivam-se do Uno. Para o povo, a universalidade é uma promessa; para os ‘múltiplos’, é uma premissa”. E cita Hobbes: “o povo é um Uno, porque tem uma única vontade e, a quem se lhe pode atribuir uma vontade única” (apud Virno, 2003, online).

A multidão pode tomar diferentes formas: a de povo (com uma identidade) a de massa (homogênea) e a forma da multidão: “uma multiplicidade de singularidades”.

“a multidão é a forma de existência política e social dos muitos enquanto muitos: forma permanente, não episódica nem intersticial” (Virno, 2003, online).

Negri, por sua vez, afirma: “cada corpo é uma multidão”. Contudo, esse corpo só existe em relação com o outro. Multidão é, então, “um conjunto de singularidades cooperantes que se apresentam como uma rede, uma network, um conjunto que define as singularidades em suas relações umas com as outras” (Negri, 2005, online).

2. Sobre o comum…

Dois momentos de um processo…

Primeiro – Quem não se recorda dos acontecimentos em Paris, no final de outubro e começo de novembro de 2005? Na periferia de Clichy-sous-Bois, cidade localizada na região metropolitana de Paris, acontece um assalto e o proprietário chama a polícia. A polícia vê dois adolescentes negros e se aproxima para checar informações. Embora nada tivessem a ver com o ocorrido, por medo dos policiais os adolescentes fogem. Na fuga, morrem eletrocutados ao tentarem se esconder num transformador de energia. Esse acontecimento faz irromper toda uma fúria reprimida e durante dias seguidos, começa uma onda de queima de carros como forma de um protesto raivoso contra as mortes dos adolescentes. Há um contágio dessa violência que passa a tomar forma de expressão em diferentes regiões do país.

Sobre isso, o prof. Malini escreve no texto de defesa de sua tese de doutoramento:

Na Internet, um dos amigos das vítimas acaba criando um blog para homenageá-las, o “Bouna et Zied”, estampando o slogan que marcou o acontecimento: Mort pour Rien (Mortos à toa). A Polícia acusa o blog de estimular as manifestações violentas da juventude pobre nas periferias. E o site é retirado do ar pelo seu servidor. O mesmo se repete com outros blogs, que passaram, num primeiro momento, a emitir opiniões e manifestos sobre a morte de Bouna e Zieda; e depois para emitir um boletim sobre o como havia sido o protesto naquele dia. Mais de 1700 blogs debatem o tema, sem contar a diversidade de publicações e listas de discussão online. Muitos blogueiros são interpelados pela Polícias que os enquadram na lei francesa por atos criminais. A nova lei penal francesa pune aqueles que fazem, por meio da comunicação eletrônica, provocações que surjam efeitos na sociedade.

(…) A revolta da periferia logo chega no Youtube e no DailyMotion, onde são hospedados mais de 1000 vídeos relacionados ao caso. Juntos esses filmes foram exibidos alguns milhões de vezes. E ainda continuam lá, provocando debates, comentários e novas exibições. Houve ainda a publicação de entrevista, na forma de áudio, audiovisual ou texto escrito, com os pais dos adolescentes e os jovens que participam do conflito, em vários pequenos jornais de alcance regional e comunitário. É uma explosão de sentidos que escapam aquela velha lógica da repetição da mesma informação nos veículos de comunicação de massa, a circulação circular da informação que falava Pierre Bourdieu, haja visto o fato de nós, jornalistas, nos pautarmos muitas vezes pelo o que os outros jornais estão agendando. (…)

Paralelo a isso os jornalistas tinham dificuldades de entrar na zona de combate, e de dentro, jovens se comunicavam pelo celular para resistir a Polícia e continuavam a publicar conteúdos na Internet e a estimular a participação da sociedade, agora em nível global, sobre o significado do conflito.

Segundo – Ontem, a Rede Globo exibiu no Fantástico uma reportagem feita por Regina Casé, a respeito de como vive essa comunidade, hoje. Os registros dos acontecimentos daquela época foram organizados em forma de um vídeo-documentário, com finalidade de mostrar ao mundo uma outra versão dos fatos, narrada na perspectiva dos próprios participantes.

A identificação com o outro – base onde se pode construir o comum – pode tanto se expressar em um viés destrutivo (de si e do outro) quanto afirmativo, criador e produtor de outras singularizações.

Para continuar pensando…

Talvez uma das dificuldades de fazer a passagem do “ser multidão” para “fazer multidão” tenha a ver com nossa fraca capacidade de criação de outras formas de pensamento (me lembro da citação de Deluze, no início desse post) e de relação com o outro, a fim de que a base de identificação entre singularidades potencialize um “comum” afirmativo de outras existencialidades possíveis – um comum que extrapole crenças religiosas, assunção intelectual de teorias filosófico-ideológicas, idealizações de diferentes espécies, etc…

Quais outras dificuldades ainda poderíamos listar? Compartilhe aqui a sua idéia… quem sabe poderemos construir alguma coisa bela sobre uma base comum?

Se vc quiser acessar a “Gramática da Multidão – Para uma análise das formas de vida contemporâneas”, de Paolo Virno, acesse o site: http://br.geocities.com/autoconvocad/gramatica_da_multidao.html

Para ler a entrevista com A. Negri onde ele menciona o “ser multidão” e “fazer multidão, acesse o site: http://www.universidadenomade.org.br/full_text.shtml?x=2574

Além da entrevista, vc pode acessar também a palestra de Negri sobre: AConstituição do Comum

O texto do Prof. Malini está em: http://fabiomalini.wordpress.com/2007/04/29/o-comunismo-das-redes/
(Texto completo onde o Prof. Malini narra os eventos acima: Comunismo das Redes)

 

 

Comentários»

1. Fabio Malini - novembro 4, 2007

Olá,

Faz tempo que precisava passar aqui e fazer um comentário dadivoso a ti.

Primeiro, obrigado pelas remissões. Segundo, adorei a sua análise sobre a perspectiva negriana, e esse remix com Deleuze etcetera.

Vamos continuar trocando mensagens e leituras.

Um forte abraço,

Malini

2. Míriam - novembro 5, 2007

Oi, Mary, estou conhecendo teu blog. Bem interessante. Obrigada por tudo. Abraço.

****

Oi, Miriam,

Que bom que vc veio!
Um abraço,
Mary

3. psicologiadareligiao - novembro 5, 2007

Oi, Malini,

Bom receber vc aqui! Legal saber que vc gostou da análise sobre o “fazer multidão”. Acho que esse é um dos nossos grandes desafios! Gosto também de “ouvir” sua proposta de “trocar mensagens e leituras” – penso que esse é um dos caminho para ir construindo o comum…
Um abraço,
Mary

4. Projeto Sonho - novembro 7, 2007

Gostei da análise
bem feito o texto.
Vou colocar um link para seu blog

Thiago Oliveira

Projeto Sonho

5. psicologiadareligiao - novembro 7, 2007

Legal, Thiago. Seja bem-vindo. Participe sempre!
Um abraço,
Mary


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