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Anjos e Demônios – o caso da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo anônimo novembro 27, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, cuidado, Winnicott.
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Adolescente presa

(Foto de Marlene Bergamo – extraída da Folha de São Paulo – 25.11.07)

O título do post é para provocar a nossa reflexão acerca de anjos, demônios e a prática do cuidado como capacidade ética

Sim! Eles estão em toda parte! Anjos e demônios andam por aí – “entre” (?) nós…

O caso da jovem adolescente, presa numa cela com 2o homens, tem sido amplamente divulgado nos últimos dias, tanto pela mídia nacional como internacional. Trata-se de uma situação que choca as pessoas com um mínimo de sensibilidade. Os jornais dão conta de que a prisão da menina de 15 anos ocorreu em razão de uma “acusação de furto”, ou “tentativa de furto”, como diz a Folha de São Paulo. Obviamente, a prisão da adolescente não pode ser compreendida como “medida legal” em relação ao suposto delito. Causa mal-estar citar as razões óbvias pelas “(des)medidas” tomadas por pessoas que ocupam posição de poder e têm a função de realizar a segurança da população. O argumento do desconhecimento da idade exata da garota não justifica a contundente falta de humanidade que o caso expõe. Foi uma barbárie! Um detalhe que causa surpresa: a prisão foi ordenada por uma delegada, uma mulher! E o que é ainda pior: a garota foi mantida nessa condição de violência e tortura por quase um mês com conhecimento de quase toda a cidade.

A pergunta, pois, que surge espontaneamente é: “Como uma coisa dessas pôde acontecer?” “Por quê ninguém denunciou?”

A resposta é terrível. Na reportagem de Laura Capriglione e Marlene Bergamo, a tia de um dos presos transferidos responde que a razão do silêncio foi “medo de morrer”. E justifica:

“Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?”

 

Esse acontecimento trágico só recebeu (ou está recebendo) um outro destino porque “no dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima.”

Um anjo anônimo salvou a garota da barbárie a que estava submetida perpetrada e patrocinada pela instituição do Estado.

Não pretendo fazer desse post simplesmente um desabafo indignado, apesar do sentimento de profunda tristeza e horror que esse fato nos provoca. Penso que se faz relevante pensar, num momento como esse, a respeito da carência de anjos na sociedade contemporânea. De demônios já estamos “cheios” – por dentro, por fora, andando entre nós e dentro de nós. É mais simples acusar as pessoas diretamente envolvidas nessa barbárie e nos indignarmos com o fato, apaziguados pelo pensamento de que tais atrocidades foram cometidas não por nós, mas pelos outros (ou “pelas outras”).

É bem possível que outras pessoas na cidade tenham se indignado pela situação. Provavelmente até reagiram: expressaram medo, raiva, piedade, torpor, etc. Mas só uma pessoa foi capaz de agir sobre a situação, não simplesmente reagir a ela. Um anjo? Caído do céu para salvar a garota? Alguns diriam que sim! Talvez pelo sentimento de que uma atitude como essa: ativa, libertadora, que se move sobre a compreensão de uma auto-responsabilização pela condição desumanizada vivida pelo outro, é tão rara que alguém com tais traços só pode ser “sobrenatural”- um anjo! Sobre a mesma lógica se “demoniza” os perpetradores e as perpetradoras das barbáries – tais pessoas seriam tomadas como demônios, não poderiam ser consideradas como pessoas comuns, humanas: como você e eu!

Entretanto, acredito que necessitamos mais do que indignação. Mais do que espaço para expressar nosso espanto sobre as barbáries que nós – seres humanos – somos capazes de realizar. Necessitamos pensar, inventar alternativas de vida construídas a partir de uma visão que ultrapasse análises maniqueístas tais como anjo/demônio, mal/bem, etc .

Talvez pudésemos ser, de algum modo enriquecidos mesmo em meio a essa tragédia, se pudéssemos nos juntar na construção de algumas medidas concretas e ativas face a tudo isso. E a pergunta, então, insiste aqui, outra vez:

Como desenvolver um modo de existência que expresse uma capacidade ética – uma ética que se baseia no cuidado? Cuidado, entendido aqui, como expressao da “capacidade de se preocupar”? Winnicott usa a expressão “capacidade” para se referir a presença ou ausência de condições para se lidar com o “entorno” onde desenvolvemos/compomos a nossa subjetividade. Para ele, a noção de “capacidade” implica construção, interação, criação que se faz a partir dos/nos encontros com o outro. Neste sentido, nada é “natural”, ou dado à priori. Trata-se de potência que se desenvolve, que se constrói. Cria-se, desenvolve-se certas capacidades: “capacidade de estar só”, “capacidade de sentir culpa”, “capacidade de acreditar”, e também, a “capacidade de se preocupar”. Esta última tem a ver com o cuidado de si que se constrói em simultaneidade ao cuidado com o outro. Exatamente o oposto de uma atitude de olhar para o próprio umbigo e preocupar-se apenas com o que diz respeito, ou o que cabe nas fronteiras do próprio eu. A capacidade de se preocupar considera o si em simultaneidade com o outro. O eu não se faz criativo quando desvinculado do outro.

Penso que podemos ser criativos nesse momento se buscarmos desenvolver a nossa capacidade de nos preocuparconosco e com o outro em simultaneidade . Nesse sentido, quais ações poderíamos criar para que, de fato, essa capacidade se apresente como potencial a ser desenvolvido numa dimensão tanto macropolítica quanto micropolítica?

Sinta-se à vontade para deixar aqui a sua sugestão e colaborar na construção de algo que possamos fazer em comum com vistas a desenvolver, coletiva e pessoalmente, a “capacidade de nos preocupar”.

Para acessar a reportagem da Folha de São Paulo clique aqui: Moradores sabiam que menina estava em cela de homens no Pará.

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Comentários»

1. isabel landim - novembro 29, 2007

o pior de tudo isto é a desculpa esfarrapada que estao tentando dar para justificar a barbarie, ( a garota tinha problemas mentais dai nao saber a idade) mas é só a idade que conta? ser mulher ja nao bastaria para que este caso fosse repugnante? desculpem-me o desabafo, mas entao se fosse a mae de um deles nao teria problema por serem maiores de idade? hipocritas é o que sao.

2. Marcelo Saldanha - novembro 30, 2007

Quando citaste Winnicott falando sobre “capacidade de se preocupar” lembrei da eclesiologia de Jurgen Moltmann, onde a Igreja é a sinal do Reino de Deus, um corpo agindo na força do Espírito no processo de geração de uma nova humanidade capaz de se preocupar com o outro e romper o vício da indiferença.
Quem sabe, ao reconhecermos a força dinâmica do Espírito Santo, possamos ser uma comunidade geradora de anjos cuidadores.

3. Anjos e Demônios - Parte II « Psicologia da Religião - dezembro 2, 2007

[…] Anjos e Demônios – O caso da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo an… […]


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