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Ética, Violência e Indiferença – O lugar do outro na subjetivação contemporânea dezembro 20, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, cuidado, Religião e Sociedade, subjetivação.
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Questões relacionadas ao tema Ética e Psicologia da Religião envolvem um amplo debate. Podemos abordá-las a partir de diferentes enfoques e acessos, por exemplo, a partir de situações aparentemente simples, vividas em nosso cotidiano, aquelas que parecem dizer respeito só a nós mesmos como indivíduos. Elas podem ser pensadas, também, a partir de outras situações mais amplas, envolvendo o coletivo. O jejum do Frei Luiz Cappio e a sua disposição radical em fazer com que governo e sociedade percebam a extensão das implicações do Projeto de transposição do Rio São Francisco levanta questões de extrema importância diretamente relacionadas ao tema da ética e religião. Várias pessoas opinam e defendem que Igreja e Governo devem ser instâncias separadas e classificam, por conseguinte, como ridículo o jejum do Frei como estratégia de luta por uma sociedade mais justa. Poderiam ser risíveis, se não fossem uma tentativa de banalização do gesto, críticas do tipo: “imagina se a moda de greve de fome pega como forma de impedir o governo de executar os seus projetos?!”

Será mesmo que essa “moda” emplacaria? Por maiores que pudessem ser os esforços dos “criadores de mundo e de desejo”, a moda do “jejum e oração” ou mesmo da “greve de fome” em defesa de um projeto coletivo, parece apontar muito mais para uma estética da vida que implica em escolhas livres, éticas, pensadas e vividas em função do modo de existência que tais escolhas implicam. Nada tem a ver com a estética da moda que se consome em cada nova estação. Uma estética existencial, que se apóia na decisão de lutar até às últimas consequências por um modelo de vida em sociedade diverso do modelo dominante, não parece algo passível de ser produzido como se produz a estética da moda. Quantos outros aderiram ao jejum, mesmo acreditando e apoiando a luta de Cappio? (“É moda, vamos lá…”)

Em meio a isso, provavelmente a maioria que tem ouvido essa “história da greve do frei”, sente algo que apóia o pensamento: “Esse projeto não me diz respeito!”. “Isto é coisa entre o governo e o povo do semi-árido”. “Tenho nada a ver com isto!”. A indiferença grassa entre nós como mecanismo de defesa, fazendo-nos pensar/agir/sentir a partir da ilusão de que vive-se melhor quando separamos “o que é de interesse do outro”, do que “é meu interesse”. Ainda não nos demos conta de que muito da violência que se configura em nossa sociedade contemporânea assenta-se sobre essa forma de pensamento e comportamento em que se separa o cuidado de si do cuidado do outro.

A reflexão sobre ética, violência e indiferença e a relação dessas questões com o nosso modo contemporâneo de subjetivação está apenas iniciada aqui. Ela segue adiante, com a ajuda do texto do psicanalista Jurandir Freire Costa, que vc pode acessar abaixo. Mas vc também pode colaborar, deixando aqui as suas idéias sobre o tema.

Segue o texto de J. F. Costa: Transcendência e Violência

Caso vc queira ler, ainda, outros textos relevantes sobre o tema, acesse também:

A Estética Foucaultiana

Freud e Winnicott – Moral e Ética

Pesquisas em Psicologia da Religião – Estratégias de coping religioso na saúde e bem-estar: a questão do luto dezembro 8, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Pastoral, Aconselhamento Psicológico, Pesquisas em Psic. da Relig., sofrimento.
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Arriès considerava mórbido não o falar da morte. Ao contrário, nada dizer sobre ela é que é, para ele,  verdadeiramente mórbido.

Carvalho (2007), em estudo sobre luto e religiosidade, faz uma revisão bibliográfica sobre o tema e empreende uma pesquisa empírica a respeito dos tipos de mecanismos de coping religioso utilizados em situações de luto.

Na pesquisa, Carvalho aplica em 32 sujeitos que passaram por uma experiência significativa de luto, o Questionário sobre oLuto (QSL), o Questionário de Avaliação do Sobrenatural (QAS3) e o The Ways of Religious Coping Scale (Worcs).
Um dos achados de Carvalho é que as pessoas que utilizam mecanismos de coping religioso restabelecem com menos complicações o equilíbrio perdido quando da perda de um ente querido.

O trabalho de Carvalho, produzido como Monografia de Conclusão do curso de Psicologia está disponível em: http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo_licenciatura.php?codigo=TL0059&area=d15&subarea=d15D Para baixar o texto completo clique aqui: Luto e Religiosidade

Sacrifício como doação de si – uma idéia estranha ao modo de subjetivação contemporâneo dezembro 4, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, Religião e Sociedade, sacrifício, Sagrado, subjetivação.
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Frei Cappio

(Veja o site da campanha: Uma vida pela vida
http://www.umavidapelavida.com.br/default.asp
)

Retiro uma pequena parte da reflexão sobre sacrifício, desenvolvida em minha tese de doutorado, para pensarmos um pouco sobre a greve de fome que Frei Cappio está fazendo, como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco.

A palavra sacrifício tem, pelo menos, três significados. Do latin: sacrificium deriva da conjunção de sacer: sacro, santo e facere: fazer. A base etimológica da palavra nos dá a idéia de “fazer santo”, “tornar sacro”, indicando o sacrifício como um processo de santificação, um ato de separação ou de consagração de alguma coisa. Do alemão, a palavra Opfer tem o sentido de sacrifício, oferta. A raiz desta palavra aponta a idéia da dádiva, da oferta, do presentear como “tornar algo sacro”.

Mas encontramos, também, a palavra sacrifício no discurso popular, no mass midia, até mesmo nos discursos de economia, indicando um uso fora do contexto religioso. Neste caso, sacrifício toma o sentido de renúncia, de abrir mão de alguma coisa de valor em troca de uma outra de valor maior. Implica, portanto, a presença de um certo nível de sofrimento na ação de, voluntária ou obrigatoriamente, renunciar a algo de valor na expectativa de retorno de um bem que ultrapasse o valor daquilo que se entregou no ato do sacrifício.

Hoje é o sétimo dia da greve de fome realizada pelo Frei Cappio! Uma greve de fome como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco. O assunto é polêmico. O espaço desse post não comporta uma apresentação aprofundada sobre o tema. Contudo, é interessante pensar que nenhum ser humano estaria disposto a dar sua própria vida em favor de uma causa se não acreditasse nela. Frei Cappio luta em favor de uma causa que beneficia os “muitos” – e não uns poucos. Seria, o gesto de Frei Cappio, uma forma de sacrifício?

Costumo dizer que no modo de subjetivação contemporâneo ninguém quer sacrificar-se por outros. Estamos dispostos a fazer sacrifícios (renúncia de um bem em favor de um bem maior) apenas em favor de nós mesmos. Em outras palavras, fazemos “investimentos em nós mesmos”, mas sacrifícios em favor de outros?… mais fácil choramingar sobre as atitudes egoístas (dos outros!) dizendo: “ah, todo mundo pensa em si, só eu penso em mim!”

Frei Cappio pensa no benefício de outros que não têm voz para expressar a perda que acontecerá com a transposição do Rio. Ele pensa, age, e enfrenta as conseqências de sua escolha ética. Dois anos atrás, Frei Cappio fez o mesmo. Finalmente o presidente Lula aceitou uma conversa e fez “promessas”. O que mudou de lá pra cá? As obras de transposição foram retomadas. A revitalização do rio não foi levada à sério. Muitas agências apóiam a luta de Cappio. A mídia no entanto, tem dado pouco relevo ao protesto. Parece dizer em silêncio: “não adianta! É uma luta perdida!”.

Deixaremos Frei Cappio sozinho nessa luta? O que podemos fazer sobre isso?

Vc pode apoiar o gesto de resistência do Frei Cappio, manifestando-se no site: Uma vida pela vida – http://www.umavidapelavida.com.br/manifestacoes.asp

Segundo a ADITAL – Agência de Notícias, “para apoiar a atitude de Cappio, é essencial mandar um fax para os endereços na lista abaixo com a carta em anexo. É importante mandar uma copia oculta (cco:) para o e-mail apoio.dom.cappio@gmail.com para que possa ser contabilizado o número de cartas enviadas ao Governo.”

Lista de Endereços
Presidência da República
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

Ministro de Integração Geddel Vieira Lima
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

Ministra do Meio Ambiente Marina Silva
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:
Gabinete Ministra Ellen Gracie (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

Gabinete Ministro Gilmar Mendes (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

Para saber mais sobre a luta de Frei Cappio, acesse: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29086&busca=frei%20luiz%20cappioPara saber mais detalhes sobre o projeto de transposição do Rio, faça um download da Revista: “Águas da Ilusão“.

Sobre o gesto de Frei Cappio como luta pela vida, leia uma análise do missiólogo católico, Paulo Suess, publicada em outubro/2005: “Cappio, Cabrobó, Cúria. O profeta entre a Igreja e o Estado”

Para ter acesso a um dossiê sobre a ocupação do Rio São Francisco e outras informações sobre o assunto, vc pode acessar o site: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Mais informações em: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Sobre a polêmica na Igreja Católica, a respeito da greve de fome do Frei Cappio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u350971.shtml

O que diz o Ministro da Integração Nacional: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u349959.shtml

Anjos e Demônios – Parte II dezembro 2, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, cuidado.
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Adolescente

(Foto de Marlene Bergamo – 23.11.07 – Folha Imagem)

No primeiro post sobre essa triste história da adolescente presa em cela com 20 homens abordei a questão do mal e bem sob a figura de anjos e demônios. Quis mostrar na reflexão que, tanto o bem quanto o mal, fazem parte do humano. Neste sentido, o mal não está fora de nós, nem é passível de ser praticado apenas pelo outro. Todos/as nós somos capazes de praticar mal e bem. Mas cabe a nós a escolha ética de ser-fazer o bem não em função de uma suposta moral, ou por princípios religiosos, ou para manter uma certa aparência, mas em função do modo de existência que as nossas escolhas éticas implicam.

A matéria da Folha de São Paulo desse domingo, dia 02.12.07, vem comprovar a base da reflexão do post anterior. O “anjo anônimo”, como denominei aqui, o único que fez a denúncia e se preocupou com a jovem é, segundo a reportagem abaixo, um dos que estiveram presos na cela com a adolescente!

Segue a reportagem da Folha, na íntegra – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0212200729.htm

Denúncia de abuso contra jovem partiu de um preso
Detento buscou certidão de nascimento para provar idade da adolescente
Depoimentos à Corregedoria confirmam que policiais, promotores e juíza sabiam da prisão de L. na mesma cela com homens

LEILA SUWWAN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Foi um preso, ex-companheiro de cela, que buscou provas para denunciar a prisão e os abusos sexuais contra a adolescente L., 15, que ficou encarcerada com cerca de 20 homens na cadeia de Abaetetuba (PA).
É o que mostram os depoimentos do inquérito da Corregedoria da Polícia Civil do Pará, que ilustra a sucessão de omissões, conformismos e conivências de policiais militares, quatro delegados, três carcereiros, dois promotores e uma juíza, todos de alguma forma envolvidos e que agora empurram as responsabilidades entre si.
Três carcereiros e delegado-supervisor dizem que promotores foram ao local no dia 13 de novembro, mas deixaram L. para trás. Era um mutirão para soltar presos provisórios.
Por ironia, o esforço rendeu a liberdade a “Beto”, acusado de ser o primeiro a estuprar L., mas também liberou o preso S., que decidiu ajudar a menina.
Segundo o conselheiro tutelar de Abaetetuba, José Maria Quaresma, S. o procurou no dia 14 e relatou “que a jovem estava sendo vítima de abusos e que possivelmente até policiais estivessem envolvidos” e que não conseguiu ajuda nem no fórum nem na Promotoria.
O denunciante também informou que “havia estado preso e conhecido L., a qual lhe pediu ajuda a fim de comprovar que era menor de idade”, já que nem acreditava nela.
A iniciativa de S. também rompe uma espécie de “conluio” formado entre os detidos, que admitem em seus depoimentos apenas um estupro violento, mas seguido do suposto comportamento lascivo e “oferecido” de L..
A partir da denúncia, começa um circo de contradições, com supostas fugas e documentos falsos. Autoridades tentam fugir de responsabilidades e tentam ocultar seus erros.
Agem como se a mistura de mulheres e homens na mesma cela fosse um detalhe menor, uma coisa “corriqueira”.
O carcereiro Claudionor Monteiro da Costa conta que “já presenciou a prisão de várias mulheres naquele local, fato que era de conhecimento de delegados, promotores, juízes, inclusive da juíza Clarice Maria de Andrade”, que tinha visto isso em visita ao “xadrez”.
Um dos carcereiros teria tentado alertar a juíza sobre L., mas teria ouvido dela que “já tinha dado uma chance a L. e, como havia aprontado novamente, teria que aguardar mais”. A juíza está em férias e não foi localizada pela reportagem.
Foram duas chances documentadas de reverter a situação de L. O delegado-supervisor Fernando da Cunha solicitou à juíza Clarice a transferência no dia 5 de novembro, mas não houve resposta.
Depois disso, um representante do Centro de Reeducação Feminino, único presídio para mulheres do Estado, em Ananindeua, teria contatado L., segundo o depoimento dela, mas não tomou providências.
O caso explodiu porque L. era menor e porque um preso se deu o trabalho de buscar a certidão de nascimento no colégio Santa Clara para sua denúncia.
No mesmo dia, os conselheiros foram à delegacia, mas não conseguiram liberá-la. No dia seguinte, foram informados da suposta fuga da menina.
L. contou outra história: “foi retirada do xadrez pelos três policiais que efetuaram sua apreensão (…) e que disseram para ela sumir”.
A menor diz que pegaria um barco para Manaus quando, três dias depois, os mesmos três a levaram de volta, com mais ameaças. Os nomes dos policiais ainda não surgiram.
A CPI e autoridades do governo federal suspeitam de ação deliberada contra a menor L., que vivia em situação de risco. Ela perdeu a virgindade com 12 anos e vivia nas ruas, alvo de exploração sexual, trabalho infantil e uso de drogas, segundo autoridades federais.
Outros dois delegados, Celso Iran Viana e Danielle Bentes da Silva, responsáveis por outros registros contra L. como maior de idade, tentaram outra estratégia. No dia 20 de novembro, buscaram o pai e o tio de L. de carro e os levaram à Igreja Nossa Sra. da Conceição.
Segundo eles, para retirar uma certidão que mostraria que L. seria maior de idade. Segundo o pai, que é analfabeto, ele queriam intimidá-lo e tentar reverter as acusações. Afirma que foi chamado de “corno” e ameaçado de prisão.

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