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Considerações acerca do Suicídio – “Suicídio, Religião e Religiosidade” março 17, 2008

Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Religião e Suicídio, suicídio.
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Contardo Calligaris observa em sua coluna na Folha de São Paulo do dia 28.02.08 que “nos últimos anos, subiu o índice de suicídio na população entre 40 e 64 anos”. E aí ele levanta a questão: “Por quê?”.

A informação trazida por Calligaris tem por base uma reportagem do “The New York Times” que publicou “os resultados de uma pesquisa dos Centers for Disease Control and Prevention dos EUA (centros para controle e prevenção das doenças)”. Calligaris afirma que

A pesquisa mostra que, de 1999 a 2004, na população entre 45 e 54 anos de idade, o índice de suicídios aumentou, em média, 20% (31% entre as mulheres).
No mesmo período, os suicídios de adolescentes aumentaram 2% e os de pessoas idosas diminuíram.

Em 2004, nos EUA, 32 mil mortes foram oficialmente atribuídas a suicídio. Ampliando a faixa da meia-idade, constata-se que, dessas mortes, mais de 14 mil são de pessoas entre 40 e 64 anos.

De acordo com o “New York Times”, observa Calligaris – “o fenômeno não seria apenas americano: um estudo recente aponta que, em 80 países, as pessoas de meia-idade são as menos ‘felizes’. As explicações são hipotéticas”.

Por exemplo, no que concerne às mulheres, desde 2002, diminuiu fortemente o uso da reposição hormonal na menopausa. Talvez o déficit de estrógeno tenha efeitos depressivos diretos ou indiretos. Também observa-se que pessoas de meia-idade são grandes consumidoras de antidepressivos. Talvez um uso vacilante dessa medicação (com interrupções brutais sem acompanhamento psiquiátrico) seja responsável por momentos de aflição irresistível. Mas é mais provável que, no caso, o consumo de antidepressivos seja apenas prova suplementar de que as pessoas dessa idade são especialmente “vulneráveis”.
Em suma, resta a pergunta: o que acontece, entre os 40 e os 64, que levaria ao suicídio mais indivíduos do que em outras faixas etárias?

O que leva ao suicídio, “adultos na plena força da vida?” Calligaris pontua que os exemplos trazidos pelo New York Times não levantam como causa possíveis crises profissionais ou de desemprego. Isto leva o colunista a tecer os seguintes comentários:

1) Nas últimas décadas, mesmo nas fileiras de quem acredita em Deus ou na revolução futura, vem se impondo a vontade (ou a necessidade) de justificar a vida “por ela mesma”. As aspas servem aqui para lembrar que ninguém sabe o que isso significa. Alguns pensam nos prazeres que eles se permitem, outros na satisfação de serem úteis ao próximo, outros ainda avaliam a qualidade estética de sua história ou valorizam a variedade e a intensidade de suas experiências. Seja como for, a vida deveria valer a pena pelo que a gente faz, pela própria experiência de viver.
2) Acrescente-se que, a partir dos anos 60, os adultos de nossa cultura começaram a se preocupar com a adolescência -ou seja, entre outras coisas, passaram a querer furiosamente que suas crianças se preparassem para elas serem “felizes” um dia (em todos os sentidos: sucesso amoroso e financeiro, êxtase, bom humor permanente).
3) Chegam hoje à meia-idade as gerações que cresceram esperando uma “felicidade” que daria sentido à longa “preparação” de sua adolescência e convencidas de que a vida deve se justificar por ela mesma. Os que fracassaram têm sorte: eles podem se dizer que a coisa não deu certo. Os que se acham bem-sucedidos esbarram, inevitavelmente, numa questão inquietante: “Então, é isso? Era só isso?”.

Sobre esse último comentário, podemos fazer alguns links sobre a função da religião como doadora de “sentido para a vida” e levantar, também, a pergunta sobre se a religião e a religiosidade ajudam ou não na prevenção do comportamento suicida.

O livro: “Suicídio – Estudos Fundamentais”, editado por Alexandrina M. A. da Silva MELEIRO, Chei Tung TENG e Yuan Pang WANG representa uma importante contribuição no debate acerca do suicídio. Um dos seus doze capítulos trata do suicídio e sua relação com as questões da religião e do exercício da religiosidade. O capítulo escrito por Alexander Moreira de Almeida apresenta uma revisão das pesquisas realizadas em torno do tema “Religião e Comportamento Suicida” e conclui que:

faz-se mister uma maior atenção às variáveis relacionadas à religiosidade nos estudos sobre o suicídio, bem como na prática clínica, pois ela tem se mostrado um importante fator protetor contra atos suicidas, embora ainda restem muitas questões a serem respondidas por futuras pesquisas

Almeida ainda faz um alerta: “O Brasil não tem produzido de modo consistente pesquisas que colaborem para uma melhor compreensão do tema”. E arremata:

Pela diversidade religiosa de nosso país, os pesquisadores nacionais têm a tarefa de ampliar os estudos das relações entre religiosidade e comportamento suicida, bem como investigar o quanto os achados de pesquisas realizadas em outras culturas se aplicam à nossa população”

O Capítulo escrito por Almeida, “Religião e Comportamento Suicida”, está disponível on-line no seguinte endereço:

http://www.hoje.org.br/site/arq/artigos/20050401-es-draa-ReligiaoSuicidio.pdf

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Suicídio e Literatura – O Mito de Sísifo (Camus) março 2, 2008

Posted by psicologiadareligiao in sacrifício, sofrimento, subjetivação contemporânea, suicídio.
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Sisifo

(Imagem capturada do site: http://pt.muestrarios.org/b/a-preciso-imaginar-sasifo-feliz.html)

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Albert Camus).

Suicídio ou Sacrifício?

Duas situações nos dão o que pensar quando colocadas em paralelo:

Nos EUA – Uma situação que tem se repetido com uma freqüência assustadoramente maior: um indivíduo armado entra numa Universidade ou num lugar qualquer, dispara contra várias pessoas desconhecidas matando-as. Em seguida, tira a própria vida.

No Oriente Médio – A emergência da figura dos “homens-bomba” (mas também das “mulheres-bomba”) causa surpresa para nós ocidentais que temos dificuldades para compreender a prática de entregar a própria vida num ato de destruição de si e do outro.

Qual a diferença entre estas duas situações?

A partir de um olhar superficial, sem muita reflexão, arrisco-me a pensar que se trata de dois modos distintos de subjetivação. Dois modos de existência que se configuram sobre o “chão” de uma pergunta motivadora do existir e do morrer: “qual o sentido da vida e da morte?” Enquanto a primeira situação descrita parece configurar-se em cima de um nihilismo existencial onde nada vale coisa nenhuma, nem minha vida nem a do outro, nada na vida (nem na morte) tem sentido, e viver e/ou morrer é a mesma coisa e por isso, numa crise de ódio contra a vida posso destruir a mim e ao outro, na segunda situação, intuo que a razão motivadora para tal prática se distingue significativamente.

Na segunda, o sentido religioso dá o tom da ação. Decide-se viver e/ou morrer por motivos com-sentido. O viver é construído com base no sentido (político-religioso) que permeia as escolhas e delineia uma estética da vida (e da morte). Morre-se, ou entrega-se a vida, pelas mesmas razões que permitem alguém continuar vivendo. O gozo de “destruir se destruindo” parte de motivações distintas nas situações apresentadas.
O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. O filósofo tcheco VILÉM FLUSSER, ao analisar a obra de Camus, em artigo publicado na Folha de São Paulo, no Caderno Mais, de 02.03.08, afirma que a humanidade do século 20 “se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus”. Flusser finaliza seu artigo colocando em questão a ética da existencialidade hoje, e pergunta-se sobre as saídas para a “vida absurda” que o ser humano tem construído para si.

O artigo de Vilém Flusser pode ser acessado aqui: O Mito de Sísifo – de Camus

Acesse também: O suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo.

Post relacionado: Considerações acerca do Suicídio – “O suicídio em tempos pós-modernos”.