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Suicídio e Literatura – O Mito de Sísifo (Camus) março 2, 2008

Posted by psicologiadareligiao in sacrifício, sofrimento, subjetivação contemporânea, suicídio.
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Sisifo

(Imagem capturada do site: http://pt.muestrarios.org/b/a-preciso-imaginar-sasifo-feliz.html)

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Albert Camus).

Suicídio ou Sacrifício?

Duas situações nos dão o que pensar quando colocadas em paralelo:

Nos EUA – Uma situação que tem se repetido com uma freqüência assustadoramente maior: um indivíduo armado entra numa Universidade ou num lugar qualquer, dispara contra várias pessoas desconhecidas matando-as. Em seguida, tira a própria vida.

No Oriente Médio – A emergência da figura dos “homens-bomba” (mas também das “mulheres-bomba”) causa surpresa para nós ocidentais que temos dificuldades para compreender a prática de entregar a própria vida num ato de destruição de si e do outro.

Qual a diferença entre estas duas situações?

A partir de um olhar superficial, sem muita reflexão, arrisco-me a pensar que se trata de dois modos distintos de subjetivação. Dois modos de existência que se configuram sobre o “chão” de uma pergunta motivadora do existir e do morrer: “qual o sentido da vida e da morte?” Enquanto a primeira situação descrita parece configurar-se em cima de um nihilismo existencial onde nada vale coisa nenhuma, nem minha vida nem a do outro, nada na vida (nem na morte) tem sentido, e viver e/ou morrer é a mesma coisa e por isso, numa crise de ódio contra a vida posso destruir a mim e ao outro, na segunda situação, intuo que a razão motivadora para tal prática se distingue significativamente.

Na segunda, o sentido religioso dá o tom da ação. Decide-se viver e/ou morrer por motivos com-sentido. O viver é construído com base no sentido (político-religioso) que permeia as escolhas e delineia uma estética da vida (e da morte). Morre-se, ou entrega-se a vida, pelas mesmas razões que permitem alguém continuar vivendo. O gozo de “destruir se destruindo” parte de motivações distintas nas situações apresentadas.
O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. O filósofo tcheco VILÉM FLUSSER, ao analisar a obra de Camus, em artigo publicado na Folha de São Paulo, no Caderno Mais, de 02.03.08, afirma que a humanidade do século 20 “se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus”. Flusser finaliza seu artigo colocando em questão a ética da existencialidade hoje, e pergunta-se sobre as saídas para a “vida absurda” que o ser humano tem construído para si.

O artigo de Vilém Flusser pode ser acessado aqui: O Mito de Sísifo – de Camus

Acesse também: O suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo.

Post relacionado: Considerações acerca do Suicídio – “O suicídio em tempos pós-modernos”.

Comentários»

1. Fabio Iumatti Valença - dezembro 1, 2010

Me parece um bom lugar para tecer considerações e ouvir os contraditorios. Da minha parte percebo que a presumida inutilidade e sem esperança referenciada a vida não tem respaldo no intimo de cada um. Percebe-se que não faz sentido. A vida por si so responde negativamente a desesperança e a inutilidade. No intimo a voz da consciencia fala que temos esperança e utilidade, mas poucos poderam ouvi-la.

Angélica Guilherme - abril 22, 2012

Acredito que apremissa de que a própria vida já carrega em si um aatitude deseperançosa só viria areforçar o direito que as pessoas deveriam ter de cada uma delas escolher até que dia quer viver. não lhe parece?

Angélica Guilherme – Mestre em Teoria da Literatura

psicologiadareligiao - abril 22, 2012

Sua pergunta não é nada simples, Angélica. “A vida já carrega em si uma atitude desesperançosa”. Será mesmo? “Atitude” me parece estar referida mais ao humano, do que propriamente à vida. Penso que “atitude desesperançosa” diz respeito à perspectiva humana (do sujeito) diante da vida e não da “vida em si”, vc não acha? Neste sentido, o direito de cada um de escolher até que dia viver passa necessariamente pela perspectiva individual, singular, pessoal que cada um tem da (e de sua) vida. A decisão de encerrar a vida como expressão de uma atitude desesperançosa é bastante séria, complexa, e não creio que passível de juízo alheio. Penso ainda que, se por um lado, a vida pode se configurar de forma a produzir no humano uma atitude desesperançosa, por outro lado – ou, ao mesmo tempo – ela carrega igual potência de produção de esperança. Depende da perspectiva que se contrói diante da vida – consequentemente – a decisão de escolher até que dia viver também passa por aí… A desesperança leva a uma escolha definitiva em relação a algo que pode ser temporário. Um grande abraço.

2. Os números de 2010 « Psicologia da Religião - janeiro 10, 2011

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