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A Espiritualidade como fator de proteção na Adolescência setembro 28, 2008

Posted by psicologiadareligiao in Adolescência, Espiritualidade, Saúde e Religiosidade.
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A Revista do Instituto Humanitas da Unisinos, dessa semana, publica uma entrevista com a Psicóloga Luciana Fernandes Marques, a respeito do tema Espiritualidade e Adolescência. A Revista aponta que, de acordo com Marques, “a religiosidade têm sido associada, na adolescência, à melhor tomada de decisão, maior bem-estar, menor envolvimento em comportamentos violentos, menor risco de doenças e menos problemas de comportamento.”

Segue abaixo, a entrevista com Luciana F. Marques, retirada do site da Revista Instituto Humanitas Unisinos
IHU On-LineComo a senhora percebe a relação dos jovens com a religião, nos dias de hoje?
Luciana Marques – Percebo um esvaziamento das crenças religiosas e valores morais. O consumo, as drogas e os valores de grupo exercem enorme poder de atração. Parece que alguns jovens têm uma educação mais voltada para o desenvolvimento da religiosidade, e adultos próximos que servem de modelos aproveitam melhor esse recurso. Às vezes, já criaram o hábito de ir a cultos com a família, ou de realizar orações e estudos em casa e se apropriam dessa prática como parte de sua vida. Há também formas alternativas de vivência espiritual não religiosa, através de seitas, terapias e oráculos, e que não é ligada às instituições clássicas. E socialmente não há um repúdio, então o jovem faz uma mescla disso com uso de certas roupas, com valores do grupo de iguais e ouve certas músicas. Os pais vêem como “esquisitice” da adolescência, mas certos valores estão presentes e podem ajudar ou atrapalhar o desenvolvimento desse indivíduo. 
IHU On-Line – Quais as mudanças mais significativas na vida dos adolescentes, a partir do momento em que eles passam a se envolver mais com os princípios religiosos, independente da doutrina, além de reconhecer tal importância?
Luciana Marques
– Durante a adolescência, há várias fases marcadas por níveis diferenciados de desenvolvimento. Estamos estudando como essas diferentes características se relacionam com a religiosidade e a espiritualidade. É provável que, no início da adolescência, ao se envolver com questões religiosas, o jovem utilize mais o recurso da imitação do comportamento dos adultos que observa. A própria imitação de orações, participação em rituais, cria um ambiente para a prática desses valores na vida cotidiana, além de trazer benefícios como o relaxamento (muitos rituais religiosos envolvem trabalho da atenção e concentração e relaxamento corporal). Já os adolescentes mais velhos se deparam com questões do desenvolvimento como construção da própria identidade, início da sexualidade e delineamento de projetos vitais. Nessa fase, a religiosidade/espiritualidade serve como um guia que pode ajudá-lo nas escolhas, no desenvolvimento da auto-imagem e nos projetos de futuro.
IHU On-Line – Que fatos a levaram a pesquisar nesta área? A quais resultados a senhora chegou, quando realizou uma pesquisa sobre a realidade dos adolescentes de Porto Alegre, e de que maneira os avalia?
Luciana Marques
– O estudo da espiritualidade surgiu na minha dissertação de mestrado numa pesquisa sobre práticas alternativas em psicologia, que era um assunto em voga na época, por suscitar vários problemas no exercício profissional do psicólogo. Embora estivesse presente a questão dos psicoterapeutas usarem práticas sem fundamento na área da psicologia, havia também um grande interesse deles por essa questão da espiritualidade. Então, no doutorado, fomos investigar se a espiritualidade se relacionava com a saúde geral de adultos. E vimos que havia ali uma dimensão associada à saúde e pouco explorada pelos psicólogos. E atualmente, na UFRGS, estamos desenvolvendo um estudo sobre o desenvolvimento da espiritualidade na adolescência. Queremos observar como isso se desenvolve ao longo desta fase da vida, mas ainda não avaliamos os resultados do estudo.
IHU On-Line – Durante muito tempo, tivemos a impressão de não poderia haver uma relação entre a psicologia e a religião. Qual é sua opinião a respeito? Podemos dizer que houve uma evolução?
Luciana Marques
– Essa é uma questão espinhosa cheia de paradoxos, contradições e questões mal-compreendidas. A religião e seus mitos e ritos constrói conhecimentos válidos através das experiências transcendentais, revelações, fenômenos mediúnicos, de acordo com suas crenças. A psicologia é uma ciência e como tal pode se aproximar desses fenômenos com seus instrumentos, visando descrevê-los, observar suas regularidades e associações com inúmeras variáveis. O tema difícil surge quando a ciência se aproxima para validar ou anular as crenças religiosas, que não é seu papel. Ou, pior ainda, quando utiliza métodos não científicos e mistura-se com a religião. Percebo que tem ocorrido uma evolução, no sentido de diminuir o preconceito na comunidade acadêmica com o estudo de certos temas considerados marginais, como a espiritualidade. Atualmente, este assunto tem sido estudado em várias teorias e tem sido absorvida numa visão de psicologia da saúde e psicologia positiva como uma força do ser humano capaz de auxiliá-lo como recurso de enfrentamento em situações difíceis. Ainda não vejo a discussão acerca das questões mais aplicadas, que poderia ser assim sintetizada: como o psicólogo pode atuar profissionalmente promovendo o recurso da espiritualidade de uma forma não religiosa?
IHU On-Line – Quais são as principais características dos adolescentes de hoje? E a que riscos eles estão expostos, tendo como parâmetro os moldes da sociedade atual?
Luciana Marques
– Muitos estudos descrevem a adolescência atualmente como uma massa sem contornos definidos. O jovem hoje não exerce seu poder político, não se envolve em lutas de cidadania e nem parece com pressa de crescer em independência emocional e financeira dos pais, ficando até a idade adulta morando com a família de origem, o que também é um fenômeno atual. Mas muitos dos riscos a que estão expostos são característicos dessa fase, de descoberta de si, do mundo, de curiosidade, de pouco medo de correr riscos, de atração por fortes emoções. Isso o empurra para situações de risco, juntamente com sua situação social, familiar e econômica, que aumentará, ou não, sua vulnerabilidade.
IHU On-Line – O que a senhora entende por espiritualidade? E em que sentido a mesma é um fator de proteção na adolescência?
Luciana Marques
– A espiritualidade é uma dimensão humana presente desde o homem das cavernas, quando já enterravam seus mortos com rituais e pareciam acreditar na vida após a morte. A espiritualidade pode ser vivenciada em religiões públicas ou fora delas. Tem sido mais associada ao desenvolvimento em caminhos religiosos com seus cultos públicos ou grupais, mitos e ritos. Tem-se visto que a religiosidade/espiritualidade fortalece o sentido de vida e o estabelecimento de projetos vitais e é uma dimensão importante no enfrentamento de situações adversas. Embora também se possa considerar algumas formas de religiosidade patológica que enfatizam a fuga da realidade ou acirramento de conflitos entre culturas, ou ainda a associação da religião com efeitos negativos como culpa, ansiedade, intolerância, depressão, rigidez cognitiva e excessiva dependência. A questão da religiosidade/espiritualidade como um fator de proteção do jovem é um tema que vem sendo estudado, sendo que muitas pesquisas destacam sua importância nessa fase da vida. A religiosidade tem sido associada, na adolescência, à melhor tomada de decisão, maior bem-estar, menor envolvimento em comportamentos violentos, menor risco de doenças e menos problemas de comportamento.
IHU On-Line – Além da espiritualidade, que outros fatores podem influenciar nos processos de educação e até mesmo na forma de lidar com os adolescentes?
Luciana Marques
– Quando lidamos com adolescentes na posição de pais, professores ou facilitadores, assumimos o papel do adulto que sabe e muitas vezes esquecemos que já tivemos aquela idade. Eventualmente, forçamos para que o grupo atinja os objetivos ou se adapte ao nosso projeto. Mas sem uma relação estreita, próxima, entre pessoas, o trabalho fica superficial e não atinge o jovem, que deflagra a perda de tempo através da rebeldia e não comprometimento. A empatia é fundamental no trabalho com jovens. Por melhor que sejam nossas propostas e instrumentos de trabalho, não vamos alcançar resultados se não escutarmos o que eles pensam, o que eles querem, e adequarmos nossa linguagem. A leitura do contexto familiar e social também é central, nos auxiliando a compreender outras variáveis envolvidas. Essa compreensão ampla atravessa nossa prática e viabiliza projetos junto aos jovens, que percebem quando realmente estamos interessados neles.

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