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“Fazer multidão”: o desafio prático da teorização negriana do Comum outubro 30, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, comum, multidão, produção de subjetividade, subjetivação.
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Abrindo a reflexão…

No começo deste ano, encontrei a seguinte frase de Deleuze num blog:

“Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver.”

Como não havia referência sobre o lugar de onde a frase havia sido retirada, escrevi ao proprietário do blog perguntando. Ele não apenas me deu a referência exata: “DELEUZE, G. – Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 1994. p.17-18, como me mandou o livro de presente, pelo correio – o livro viajou de Minas Gerais a Porto Alegre. O gesto do prof. Eduardo Simonini me comoveu.

Faço uma ponte desse acontecimento com um outro, para fomentar a reflexão…

Foi em meio a um estudo mais aprofundado sobre Pós-Modernidade – que resultou na publicação do livro “Para entender Pós-Modernidade” (da série: Para entender – da Editora Sinodal) – que os conceitos de multidão e de comum, de Negri, fizeram um novo sentido pra mim. A despeito de várias críticas que tenho lido sobre o pensamento de Negri e Hardt, esses autores, juntamente com Virno, Lazzarato, Cocco e mais alguns outros, têm sido, em minha opinião, alguns dos pensadores da atualidade cuja reflexão teórica possibilita dialogar com distintos campos de saber, como a Tecnológica-Informacional e as diferentes áreas no campo das Humanas (inclusive a Psicanálise) no sentido de pensar alternativas possíveis à produção maciça de empobrecimento da subjetividade na contemporaneidade.

Qual a potência constituinte dessas noções de multidão e comum no que diz respeito a invenção de outras alternativas face a subjetivação contemporânea que contempla a hiperindividualização, a competição, o auto-interesse, a troca baseada no lucro sobre o outro?

Alguns subsídios para pensar a questão…

1. Sobre a noção de multidão

Em Gramática da Multidão, Virno observa que foi sobre o racionalismo moderno que se construiu, entre outras narrativas, a idéia de povo. Para ele,

a alternativa entre ‘povo’ e ‘multidão’ esteve no centro das controvérsias práticas (fundação do Estado centralizado moderno, guerras religiosas, etc.) e teórico-filosóficas do Século XVII. Esses dois conceitos em luta, forjados no fogo de agudos contrastes, jogaram um papel de enorme importância na definição das categorias sócio-políticas da modernidade. A noção de ‘povo’ foi a prevalecente. ‘Multidão’ foi o termo derrotado, o conceito que perdeu” (Virno, 2003, online).

Não nos esqueçamos: foi ancorado na idéia moderna de “povo” que o mundo assistiu ao quase extermínio de todo o povo judeu!!

Virno faz as seguintes observações contrapondo povo e multidão:

“o povo tende para o Uno. Os ‘múltiplos’ derivam-se do Uno. Para o povo, a universalidade é uma promessa; para os ‘múltiplos’, é uma premissa”. E cita Hobbes: “o povo é um Uno, porque tem uma única vontade e, a quem se lhe pode atribuir uma vontade única” (apud Virno, 2003, online).

A multidão pode tomar diferentes formas: a de povo (com uma identidade) a de massa (homogênea) e a forma da multidão: “uma multiplicidade de singularidades”.

“a multidão é a forma de existência política e social dos muitos enquanto muitos: forma permanente, não episódica nem intersticial” (Virno, 2003, online).

Negri, por sua vez, afirma: “cada corpo é uma multidão”. Contudo, esse corpo só existe em relação com o outro. Multidão é, então, “um conjunto de singularidades cooperantes que se apresentam como uma rede, uma network, um conjunto que define as singularidades em suas relações umas com as outras” (Negri, 2005, online).

2. Sobre o comum…

Dois momentos de um processo…

Primeiro – Quem não se recorda dos acontecimentos em Paris, no final de outubro e começo de novembro de 2005? Na periferia de Clichy-sous-Bois, cidade localizada na região metropolitana de Paris, acontece um assalto e o proprietário chama a polícia. A polícia vê dois adolescentes negros e se aproxima para checar informações. Embora nada tivessem a ver com o ocorrido, por medo dos policiais os adolescentes fogem. Na fuga, morrem eletrocutados ao tentarem se esconder num transformador de energia. Esse acontecimento faz irromper toda uma fúria reprimida e durante dias seguidos, começa uma onda de queima de carros como forma de um protesto raivoso contra as mortes dos adolescentes. Há um contágio dessa violência que passa a tomar forma de expressão em diferentes regiões do país.

Sobre isso, o prof. Malini escreve no texto de defesa de sua tese de doutoramento:

Na Internet, um dos amigos das vítimas acaba criando um blog para homenageá-las, o “Bouna et Zied”, estampando o slogan que marcou o acontecimento: Mort pour Rien (Mortos à toa). A Polícia acusa o blog de estimular as manifestações violentas da juventude pobre nas periferias. E o site é retirado do ar pelo seu servidor. O mesmo se repete com outros blogs, que passaram, num primeiro momento, a emitir opiniões e manifestos sobre a morte de Bouna e Zieda; e depois para emitir um boletim sobre o como havia sido o protesto naquele dia. Mais de 1700 blogs debatem o tema, sem contar a diversidade de publicações e listas de discussão online. Muitos blogueiros são interpelados pela Polícias que os enquadram na lei francesa por atos criminais. A nova lei penal francesa pune aqueles que fazem, por meio da comunicação eletrônica, provocações que surjam efeitos na sociedade.

(…) A revolta da periferia logo chega no Youtube e no DailyMotion, onde são hospedados mais de 1000 vídeos relacionados ao caso. Juntos esses filmes foram exibidos alguns milhões de vezes. E ainda continuam lá, provocando debates, comentários e novas exibições. Houve ainda a publicação de entrevista, na forma de áudio, audiovisual ou texto escrito, com os pais dos adolescentes e os jovens que participam do conflito, em vários pequenos jornais de alcance regional e comunitário. É uma explosão de sentidos que escapam aquela velha lógica da repetição da mesma informação nos veículos de comunicação de massa, a circulação circular da informação que falava Pierre Bourdieu, haja visto o fato de nós, jornalistas, nos pautarmos muitas vezes pelo o que os outros jornais estão agendando. (…)

Paralelo a isso os jornalistas tinham dificuldades de entrar na zona de combate, e de dentro, jovens se comunicavam pelo celular para resistir a Polícia e continuavam a publicar conteúdos na Internet e a estimular a participação da sociedade, agora em nível global, sobre o significado do conflito.

Segundo – Ontem, a Rede Globo exibiu no Fantástico uma reportagem feita por Regina Casé, a respeito de como vive essa comunidade, hoje. Os registros dos acontecimentos daquela época foram organizados em forma de um vídeo-documentário, com finalidade de mostrar ao mundo uma outra versão dos fatos, narrada na perspectiva dos próprios participantes.

A identificação com o outro – base onde se pode construir o comum – pode tanto se expressar em um viés destrutivo (de si e do outro) quanto afirmativo, criador e produtor de outras singularizações.

Para continuar pensando…

Talvez uma das dificuldades de fazer a passagem do “ser multidão” para “fazer multidão” tenha a ver com nossa fraca capacidade de criação de outras formas de pensamento (me lembro da citação de Deluze, no início desse post) e de relação com o outro, a fim de que a base de identificação entre singularidades potencialize um “comum” afirmativo de outras existencialidades possíveis – um comum que extrapole crenças religiosas, assunção intelectual de teorias filosófico-ideológicas, idealizações de diferentes espécies, etc…

Quais outras dificuldades ainda poderíamos listar? Compartilhe aqui a sua idéia… quem sabe poderemos construir alguma coisa bela sobre uma base comum?

Se vc quiser acessar a “Gramática da Multidão – Para uma análise das formas de vida contemporâneas”, de Paolo Virno, acesse o site: http://br.geocities.com/autoconvocad/gramatica_da_multidao.html

Para ler a entrevista com A. Negri onde ele menciona o “ser multidão” e “fazer multidão, acesse o site: http://www.universidadenomade.org.br/full_text.shtml?x=2574

Além da entrevista, vc pode acessar também a palestra de Negri sobre: AConstituição do Comum

O texto do Prof. Malini está em: http://fabiomalini.wordpress.com/2007/04/29/o-comunismo-das-redes/
(Texto completo onde o Prof. Malini narra os eventos acima: Comunismo das Redes)

 

 

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Produção de Subjetividade e Nobel da Paz 2007 – Parte II outubro 19, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Al Gore, Antonio Negri, ética, Nobel da Paz, produção de subjetividade, Religião e Sociedade.
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“Toda uma dinamização da retomada de confiança da humanidade em si mesma está para ser forjada aos poucos. O ideal é dificultar o pessimismo e a passividade que nos envolvem”. F. Guattari.

No Post anterior, levantei a questão sobre o que o prêmio Nobel da Paz 2007 pode ter a ver com a Psicologia da Religião. Antecipei que o ponto em comum que merece ser pensado é o da produção de subjetividade – a partir da perspectiva da ecologia – e as relações possíveis com a Teologia (em particular a cristã).

A entrevista com Berge Furre, vice-presidente do Comitê Nobel, nos forneceu alguns dados sobre o trabalho do Comitê e as razões da escolha do nome de Al Gore e IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) como os laureados pelo Nobel da Paz neste ano. O comitê entende que “a questão do clima é um dos problemas mais importantes da humanidade”, e Al Gore “tem capacidade para proclamar ao mundo sobre essa ameaça [do aquecimento global] e agora temos um porta-voz para acordar a todos sobre esta questão. Assim, ‘acordar’ o mundo sobre esse problema foi a razão que levou o comitê a colocar esse tema no centro dos interesses mundiais”.

Várias pessoas questionam a legitimidade do prêmio Nobel da Paz para Al Gore/IPCC, lançando dúvidas sobre as intenções políticas motivadoras do trabalho que Al Gore realiza. Não me parece profícua essa discussão quando qualquer neófito pode constatar, sem a mínima reflexão, apenas com a percepção do senso comum, a verdade dos fatos apontados por Al Gore. Tem havido, sim, e muito mais rápido do que se pensava algum tempo atrás, uma mudança climática com efeitos devastadores sobre o planeta, ameaçando a própria continuidade da vida na terra. Portanto, no debate proposto aqui, não cabe perder tempo com atitudes pré-concebidas. Vale a pena abrir um espaço de escuta ao que ele está dizendo e fazendo.

O que me parece importante pensar – e aqui, sim, começamos a visualizar o que isso pode ter a ver com a Psicologia da Religião – é a reflexão sobre as bases, as estratégias, o alcance e os efeitos do trabalho e luta de Al Gore. Seu fazer carrega a potência criadora de uma outra realidade. A luta de Al Gore parece trilhar o caminho do “poder constituinte” – que emprega as energias em uma política de subjetividade que escapa à lógica do poder constituído. O poder constituído produz uma configuração social que expressa, com seus valores essencialmente capitalistas, uma perspectiva reducionista da vida. Al Gore chama a atenção: “Isto não é uma questão política, mas é, sim, uma questão moral” (This is really not a political issue, so much is a moral issue”). Qual é a ” inconveniência” da verdade de Al Gore? Ele a resume na frase: “Nossa capacidade de viver é o que está em jogo, é o que estamos prestes a perder” (“Our ability to live is what is at stake”). Veja aqui o trailer do documentário. A verdade inconveniente de Al Gore é que no fundo ela aponta para a necessidade da criação de outros modos de vida, de outras condições de existência, para além da perspectiva da exploração e do lucro. Ela aponta para a necessidade de criação de outras políticas de subjetividade porque não se escasseiam apenas os recursos naturais que dão condições para a vida. Empobrece-se também de subjetividade. O documentário de Al Gore incide sobre o desejo – “a força determinante nos processos de constituição do político e da formação do social”, como pontua Negri.

Perceber o trabalho de Al Gore como um fazer que trilha os caminhos do poder constituinte é reconhecer que sua estratégia de luta busca “fazer multidão” (multitude) . Incidindo no desejo, Al Gore convoca a potência criadora presente nas singularidades que constituem a multidão. Estamos tomando aqui, a noção negriana de multidão, intimamente ligada à construção do comum. Multidão, para Negri, “é o reconhecimento de que por trás de identidades e diferenças, pode existir ‘algo comum’ – (…) entendido como proliferação de atividades criativas, relação ou formas associativas diferentes” (Negri, 2003, p. 148). Neste sentido, o ser multidão se expressa no fazer multidão através da cooperação, do trabalho que se produz em comum, que se forma e se prolifera através das redes. Trata-se portanto, de um dispositivo de guerra contra a forma como o capitalismo atual se configura. Nesse ponto creio ser necessário fazer jus ao que Guattari já dizia desde 1990, com a publicação do seu trabalho “As três Ecologias”.

A meu ver, a luta de Al Gore se aproxima das reflexões de Guattari no ponto em que ambos colocam em evidência que o que está em questão é a degradação da vida no planeta – no sentido ambiental, sim, mas também na dimensão individual e coletiva. E essas três ecologias – a do ambiente, a do social e a da subjetividade – como Guattari coloca, são indissociáveis, sofrem os mesmos processos de degradação e devem ser, por isso, alvo de nossa luta hoje.

Em 2001, o teólogo Leonardo Boff ganhou o Prêmio alternativo da Paz, em Estocolmo, por “articular ecologia, justiça social e espiritualidade em seu livro “Ecologia: Grito da Terra, Grito do Pobre”, publicado em 1995. Neste livro, Boff também aborda as três ecologias: ambiental, social e mental, e acrescenta ainda, uma “ecologia integral”. Boff desenvolve uma Teologia (cristã) que enfoca a mensagem bíblica de libertação integral: do planeta, das relações sociais e da subjetividade aprisionada nos modos dominantes de existência.

Penso que a Psicologia da Religião em muito pode contribuir com a reflexão sobre os processos de produção de subjetividade contemporânea, especialmente quando traz para o debate, a produção de determinadas expressões de espiritualidade assentadas nos mesmo valores capitalistas de exploração e lucro, que Al Gore denuncia com sua “verdade incoveniente”. Não falta em nosso país tão religioso, exemplos de grupos e instituições produtoras de uma subjetividade religiosa capitalística. Precisamos, sim, “lutar pela instauração de novos sistemas de valorização que não tenham como único critério o lucro. Há outras espécies de rentabilidade possíveis e necessárias, nos lembra Guattari, como por exemplo, uma rentabilidade estética [ambiental], social e de desejo [subjetividade]”(Rolnik, online, “ética do real”).

Leia também, a resenha de Suely Rolnik, do livro “As três ecologias”, de Felix Guattari – Ética do Real

Acesse, também, a versão do livro de Guattari, em espanhol, Las Tres Ecologias, em: http://static.scribd.com/docs/jrudjl05wu71b.pdf

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência setembro 6, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, culpa, forças reativas de narcisação, , sofrimento, vergonha.
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Estou lendo “Jó – A força do escravo”, de Antonio Negri. Esperava terminar a leitura para depois comentar aqui. Mas tomei conhecimento de uma entrevista de Negri – para Valor Econômico a respeito desse livro – que vale a pena reproduzir aqui (a entrevista também está no blog do Ezequiel).

No modo de subjetivação contemporâneo sofrer é feio, é vergonhoso… Não é por acaso que a indústria farmacêutica dos antidepressivos continua em crescimento, talvez nas mesmas proporções que crescem os “efeitos colaterais” produzidos pela produção social da vergonha (isolamento, diminuição da potência criativa, fechamento em si mesmo, etc…) Aproveito para dizer que, a meu ver, tem havido uma alteração significativa na configuração subjetiva contemporânea, em relação ao caráter dos sofrimentos. Se até há pouco tempo atrás, os consultórios de psicologia se viam às voltas com os sofrimentos movidos pelo sentimento de culpa, hoje, em geral, são as feridas relativas à vergonha e às forças reativas de narcisação.

Entretanto, seja pela culpa, seja pela vergonha, “o sofrimento é condição da existência”, como afirma Negri. Na experiência de sofrimento é possível afirmar a vida e criar alternativas inusitadas que aumentem a potência de existir. “Identificar a origem do mal e enfrentá-lo”, como sugere Negri, constitui-se, pois, não apenas uma estratégia para lidar com o sofrimento, mas também um exercício de libertação e de invenção de outros modos de vida.

Segue a entrevista completa:

Valor Econômico – SP (06/07/2007)
A travessia de um sofrimento

Por José Castello, para o Valor

Antonio Negri no seu apartamento, em Paris: “Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro”

O filósofo Antonio Negri não aceita o pessimismo e tampouco a debilidade que dominam o pensamento contemporâneo. Nascido em Pádua, Itália, em 1933, ele se tornou mais conhecido no Brasil depois da publicação do polêmico “Império”, livro de 2000, escrito a quatro mãos com Michael Hardt. O pensamento vigoroso de Negri volta às livrarias com o lançamento de “Jó, a Força do Escravo”, pela editora Record.

Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria guardados no “Antigo Testamento” e na “Tanakh”. De autoria incerta, “O Livro de Jó”, que alguns atribuem a Moisés, outros a Salomão, acredita-se, foi escrito em torno de 2000 a.C. Toda a sabedoria de Jó está em desviar a atenção da figura do diabo para olhar Deus diretamente, mostra Negri. O diabo é um burocrata, que gerencia a relação do homem com Deus e, em conseqüência, a rege. Quando decide olhar Deus nos olhos, Jó ensina, diz Negri, que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação.

Negri afirma que existe, portanto, um aspecto positivo na dor: é da travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si. A experiência da dor pode se converter, desse modo, em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Em vez de se assustar com a incerteza a respeito do futuro, Negri prefere vê-lo como uma experiência de abertura infinita, na qual nada está predeterminado e, em conseqüência, tudo pode acontecer. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência. Para Negri, tudo se constrói a cada instante e é dessa instabilidade, que hoje se costuma ver como ameaça, que o homem pode tirar a felicidade.

Negri começou a escrever “Jó, a Força do Escravo” no início da década de 1980, durante os quatro anos em que esteve preso, sob a acusação de ter sido o mentor do seqüestro e assassinato de Aldo Moro, o popular político da Democracia Cristã. Ele se livrou da prisão quando, em 1983, se elegeu deputado pelo Partido Radical Italiano, vitória que lhe conferiu a vantagem da imunidade parlamentar. A imunidade foi logo retirada pela Câmara dos Deputados, mas antes disso Negri conseguiu se refugiar na França, onde viveu exilado durante 14 anos.

Ele se tornou, então, professor da Universidade de Paris VIII e do Colégio Internacional de Filosofia, convivendo com intelectuais do porte de Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em 1997, enfim, decidiu retornar voluntariamente à Itália, para lutar por sua anistia e a de outros presos políticos em situação semelhante. Depois de ser novamente preso, conseguiu a liberdade condicional. Até 2004, viveu em regime de liberdade restrita. Antonio Negri mora, atualmente, em Veneza, de onde concedeu, por telefone, a entrevista que se segue.

Valor: Nosso mundo, gerido pelos antidepressivos, pelas psicoterapias, pelo misticismo e pelo fanatismo, vive em luta contínua contra o sofrimento. O sofrimento é, também, o tema central de “Jó, a Força do Escravo”. Parece ser, enfim, seu tema mais importante.

Antonio Negri: Sim, o sofrimento é condição da existência. Condição que está ligada diretamente à solidão humana. Nosso desejo de viver se abre, sempre, para os outros. O sofrimento aparece quando alguma coisa, a que chamamos de mal, impede a realização do desejo. No mundo de hoje, os limites à liberdade, ao desejo e à felicidade são muito grandes. Existem muitos entraves em nossa vida. O problema é que, em geral, atribuímos a esse mal que veda nosso acesso à felicidade uma origem misteriosa. Jó, de início, faz a mesma coisa, apegando-se à idéia de uma origem enigmática para a dor. Mas o importante em Jó é que, em dado momento, ele identifica a origem do mal e a enfrenta. O mal, então, deixa de ser um mistério, deixa de ser uma ameaça difusa, e toma uma forma. Quando Jó olha Deus de frente, quando ele vê o Absoluto, vê a si mesmo e compreende, então, que a origem do mal é completamente objetiva. Ao encarar Deus, Jó se apropria de Deus. Ele entende, aí, que só ele mesmo pode se livrar do mal. É o momento em que se liberta também da mistificação do mistério – livra-se da idéia de que o mal tem sempre uma origem misteriosa – e passa a entender o que ele é. É esse o momento mais formidável de Jó.

Valor: Em geral, reduz-se a figura de Jó a uma caricatura, a do homem que tem uma paciência infinita. O sr. o vê, ao contrário, como um homem que se engaja na luta e na ação.

Negri: Jó é um personagem ativo. É um homem que constrói riquezas com seu trabalho, é um homem feliz, que deseja entender a existência do mal. Reduz-se Jó, em geral, a uma caricatura – por exemplo, quando se fala da “paciência de Jô”. Contudo, a idéia de que Jó é um homem que sofre pacificamente é falsa. Ele está sempre em luta contra o mal, ele o enfrenta e o combate. Por que o mal? Por que Deus permite o mal? – essa é sua grande pergunta. Já que não há nada que justifique o mal.

Valor: O poeta italiano Giacomo Leopardi (1789-1837), conhecido por seu pessimismo, é outro personagem importante em suas reflexões sobre o sofrimento. Também para Leopardi, a dor não leva ao imobilismo. Ao contrário, ele dizia que o homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa. Em que medida Leopardi e Jó se aproximam?

“A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz o presidente Bush”

Negri: Escrevi um livro sobre Leopardi, “Lenta Ginestra”, ensaio sobre a ontologia, que se inspira em um de seus últimos poemas. Creio que existe uma comparação positiva entre Jó e Leopardi. Para os dois, é a comunidade dos homens que se opõe e enfrenta o mal. Os dois me ajudam a lutar contra as escolas pessimistas de pensamento. Na verdade, não é uma questão de pessimismo ou de otimismo, mas, sim, da capacidade humana de se organizar para agir e para reagir. Não se trata de escolher entre o pessimismo de Leopardi e de Schopenhauer ou o otimismo, por exemplo, dos marxistas. Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro.

Valor: O sr. começou a escrever Jó na prisão, em um momento no qual não tinha perspectivas a respeito da reconquista da liberdade. Em que medida essa experiência pessoal do sofrimento marca sua obra?

Negri: Escrevi tanto sobre Jó como sobre Leopardi atrás das grades. Havia, sim, um sofrimento pessoal que me mobilizava, mas era um sofrimento concreto. No meu caso, o sofrimento provinha da falta absoluta de liberdade e também da falta de perspectiva de reconquista da liberdade. Não era um sofrimento misterioso. Eram coisas concretas e bem visíveis que me influenciaram, como, por exemplo, a percepção que passei a ter da derrota política. O trabalho que fiz na prisão foi não só de interpretação do sofrimento, mas também de construção de um pensamento. Foram coisas que andaram juntas. São coisas, é verdade, que saíram de meu sofrimento. Mas não basta ficar no sofrimento, o importante é ligá-lo aos fatos históricos. E enfatizar que podemos ver esse sofrimento na perspectiva racional, isto é, em uma perspectiva clara. Que é possível conservar uma concepção racional não só do sofrimento, mas também da história e da vida como um todo.

Valor: Hoje se fala muito de um crescente mal-estar que acomete todo o planeta. Um mal-estar difuso, que penetra nas zonas mais inesperadas e, freqüentemente, se esquiva de uma definição e de um nome. Ele se associa ao vazio, à descrença no futuro, ao desencanto, e sua presença, parece, se torna cada vez avassaladora.

Negri: Sim, existe hoje uma visão mística do sofrimento. Ela é alimentada pelos adeptos da new age, do esoterismo, do orientalismo. É estimulada por todos os que afirmam que o sofrimento é místico. O Brasil é o país de Paulo Coelho. Já escrevi sobre Coelho para a “Folha de S. Paulo”. A penetração de seus livros dá uma boa indicação do que você fala. Em seu país, a concepção mística do sofrimento foi enfrentada com firmeza pelos padres da Teologia da Libertação. Eles tiveram a coragem de introduzir no catolicismo a possibilidade de mudança e de luta. Sou um grande admirador dos ensaios de Leonardo Boff. Eles oferecem uma visão que é cristã, mas é também materialista e muito forte, muito potente. Mesmo os cristãos não podem descartar, não podem deixar em segundo plano, o aspecto material. Ele está presente, por exemplo, na doutrina da ressurreição da carne após a morte. O corpo que reaparece, o corpo que renasce, o que ele é? Ele é matéria. Logo, mesmo na tradição cristã, existe um forte componente material. Muitos cristãos não conferem a devida importância a essa idéia do corpo ressuscitado. Insisto: o que ressuscita é o corpo, é a matéria. Portanto: o corpo está no centro da fé. Quanto a Paulo Coelho, do mesmo modo, não me parece que o sucesso dele seja muito místico… É muito mais um sucesso material, ligado, portanto, à matéria também.

Valor: Associa-se sempre esse cenário de esvaziamento e de amortecimento da razão ao mundo pós-moderno. Fala-se ainda na vigência de um “pensamento fraco”, que seria uma característica nefasta do novo século. O sr. compartilha essa visão?

Negri: Não posso negar que o nascimento de pós-moderno delimita a aparição de um “pensamento fraco”. Surge uma forte negação da história, negação do valor do trabalho e, sobretudo, negação da luta. O pós-modernismo nada mais é que a negação, o ultrapassar dos valores da modernidade. Existe, de fato, essa tendência negativa. Mas existe também uma reação, uma busca do saber, o investimento em uma nova organização social, em uma nova ordem e também em uma nova razão. Uma volta a valores da modernidade, mas em uma perspectiva nova, que dá mais força ao individualismo. Esse seria o lado positivo do pós-modernismo.

Valor: Como seria essa nova razão? O papa Bento XVI diz, por exemplo, que a aproximação de Deus não se dá pela palavra, isto é, pela razão, mas “por atração”. Como o sr. vê a idéia?

Negri: Primeiro, é preciso pensar o que é a razão. A razão é muito mais rica que a razão instrumental e eurocêntrica. Particularmente, estou convencido de que a razão é extremamente corporal e vibrante. Mas essa característica biológica da razão não nos tira a responsabilidade sobre ela. A idéia de engajamento “por atração”, como sugere Bento XVI, tira do homem a responsabilidade de sujeito. Todos esses sujeitos do fanatismo e do extremismo são exatamente sujeitos que abdicaram da razão e, por isso, se tornaram muito perigosos. São perigosos, sobretudo, porque negam as singularidades e as particularidades. A grande luta, hoje, é a da afirmação do múltiplo e da democracia. A identidade está sempre ligada à multiplicidade. E é a partir dela que podemos agir. No fanatismo, ao contrário, há uma espécie de identidade fixa. O fanatismo religioso, o patriotismo e o nacionalismo se apóiam, sempre, em uma identidade fixa – pelo menos quando vista de fora. Contudo, por dentro atuam, como diz o papa, “por atração”. É a dinâmica de uma espécie de monstro que devora seus adeptos. Isso, a meu ver, significa o fim da liberdade. E a liberdade é imensamente importante para o futuro da humanidade.

Valor: É a fixação na idéia do mal que leva à paralisia, ao desencanto e ao vazio?

Negri: No “Livro de Jó”, o diabo é uma espécie de burocrata que domina a visão que se tem de Deus e é, em resumo, quem lhe dá forma e identidade. Toda a luta de Jó é para se livrar da burocracia, isto é, para se livrar dessa mediação controlada pelo diabo. E, desse modo, ver Deus diretamente. Olhar Deus cara a cara, afastando o diabo dessa relação. A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz, por exemplo, o presidente Bush. É essa luta prioritária contra o mal, que coloca sempre a figura do diabo na frente, que leva ao extremismo absurdo, por exemplo, dos ocidentais contra os orientais. A partir do momento em que se pensa em termos de dualidade, toda a complexidade do mundo é reduzida a uma luta de civilizações, o que é não só absurdo, mas perigoso. O extremismo nega as singularidades. Se você reduz tudo a uma luta de Deus contra o diabo, ou do diabo contra Deus, cai em uma armadilha de que é muito difícil sair.