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Cinema e Psicologia da Religião – O eterno retorno em “Abril Despedaçado” fevereiro 17, 2008

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Abril Despedaçado é um belo filme! Um dos mais bonitos que já vi! Nos últimos tempos, o cinema brasileiro tem se mostrado criativo, com capacidade de produzir verdadeiras obras de arte, como é o caso deste filme dirigido por Walter Salles, de 2001. Um filme que nos faz orgulhosos de nossa brasilidade!

O roteiro, do próprio Walter Salles em parceria com Sérgio Machado e Karim Ainouz, é uma adaptação do romance homônimo do albanês Ismail Kadaré. A história narrada por Kadaré aborda os crimes de sangue, regidos pelo Kanum, um código que encontra semelhança (não equivalência) nas guerras entre famílias no nordeste, segundo pesquisa empreendida por Salles.

Por sugestão de Kadaré, mergulhamos num segundo processo de pesquisa, que nos levou à tragédia grega e, mais especificamente, às peças de Ésquilo. O derramamento de sangue e as lutas fratricidas pelo poder são alguns dos temas que alimentaram o nascimento da tragédia grega. Aprendi que, até o século 7 D.C., os crimes de sangue cometidos na Grécia não eram julgados pelo Estado. Seu desenlace era determinado pelas famílias em conflito, que estabeleciam seus próprios códigos para a reparação do sangue derramado. Curiosamente, é na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil. Voltava-se portanto ao Brasil, através do teatro grego. Ficava também claro o caráter universal do relato de Kadaré.

Em relação à “cobrança de sangue” no Brasil, Salles afirma que o livro de Luiz Aguiar Costa Pinto, escrito na década de 40, Lutas de Família no Brasil, “permite entender como os conflitos que aconteceram no nosso país se aproximam – ou se distanciam – daqueles vividos na Albânia de Kadaré. Baseado na análise dos confrontos entre as famílias Pires e os Camargos, em São Paulo, e entre os Feitosas e os Montes, no Ceará, o livro prova que a vingança, no Brasil, se dá na ausência do estado regulador”. A partir desse livro, Sérgio Machado condensa os códigos estabelecidos pelas famílias em suas tentativas de regular as cobranças de sangue, do seguinte modo:

“A vingança é um dever irrestrito e indiscutível, de cuja obrigatoriedade não se pode fugir, sob pena de banição. Neste caso, a desgraça não é só individual, mas da família inteira”.

“Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria existência e o equilíbrio social”.

“A hipertrofia do poder familiar e a fraqueza do poder público determinam o problema das vinganças privadas no Brasil”.

“O dever de vingança cabe naturalmente ao parente mais próximo da vítima”.

“Se o mais próximo dos parentes não cumprir o dever, o ressentimento do defunto se voltará contra ele”.

É esta a história mostrada em Abril Despedaçado: a de uma família presa num ciclo interminável de vingança por causa de uma disputa por terra. Assim, em razão dessa obrigatoriedade da qual não se pode fugir (a cobrança de sangue do irmão morto), a vida do filho mais velho, Tonho (Rodrigo Santoro) , um jovem de apenas 20 anos, fica dividida em dois tempos: os poucos 20 anos já vividos e o breve tempo que lhe resta. Como bem lembra o patriarca da família rival, cada batida do relógio marcando o tempo fará lembrar a Tonho o ritmo de um ciclo sem fim: “menos um… menos um… menos um…”

O irmão mais novo de Tonho, o “Menino” (Ravi Lacerda), como é chamado pela família, tem apenas 11 anos. É ele quem questiona o ciclo de vingança. Em sua simplicidade de criança, parece o único inconformado com o ciclo do eterno retorno de destruição e de resignação a um modo de vida que não abre espaço para escolhas. É dele a percepção de que a regra do “olho por olho” deixa todo mundo cego e quem tem um olho só é doido. Menino se dá conta do processo destrutivo que rege as duas famílias: “é tudo igual de um lado e do outro”. Enquanto enuncia essa frase, ele faz o movimento de balanço do pêndulo, lembrando o tempo – que embora possa ser vivido como “repetição do mesmo”, também é nele, no tempo, que se pode construir o sonho, e onde o desejo de liberdade pode ser mais do que a sensação de vôo que o balanço pode propiciar… O balanço era o único objeto-meio de lazer do Menino nesse lugar seco onde até o riacho secou. “Era” até o encontro com um casal circense (Flávia Marco Antônio e Luiz Carlos Vasconcelos) que por ali passa à procura do centro da cidade, e a moça lhe dá um livro de presente. No diálogo com o homem, este pergunta ao Menino: “que lugar é este?“Menino responde: “- Riacho das Almas“. – “cadê o riacho?“, pergunta o homem. “- Secou. Só ficou as alma mesmo!”, responde o Menino.

Menino reflete sobre a vida, inconformado pela repetição do mesmo. Numa alusão à bolandeira, tocada por bois para moer a cana para o preparo da rapadura – tarefa que envolve toda a família, todos os dias, num trabalho repetitivo que simboliza a própria vida da família cuja experimentação no tempo pode ser desenhada como o giro infindável da bolandeira marcando um modo de ser que aprisiona e impede os movimentos de criação, Menino observa: “A gente é que nem os boi: roda, roda e nunca sai do lugar“…

É na bolandeira (roda dentada do engenho de açúcar) que a família se sustenta: cada um tem seu papel nesse círculo interminável sem espaço para nenhum outro movimento que não seja o da repetição. O aprisionamento neste círculo é de tal forma intenso que até mesmo os bois, ao serem retirados da canga, rodam em par em torno da bolandeira. Chocado pela cena, o Menino grita: “Tonho, os boi tão rodando sozinho!”.

Como libertar-se do círculo fechado, de destinos traçados, de uma vida pesada? “A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que nós pode carregar! Conversa fiada, às vezes ele manda um peso tão grande, mas tão grande que ninguém guenta!”

Numa linda cena onde Tonho aparece deprimido, sentado no balanço do Menino, sabendo do pouco tempo que lhe resta, Menino aproxima-se do irmão. Tonho lhe diz: “Lembra que fui eu quem te ensinei a voá com isso? Tu morria de medo…” Os olhos do menino se abrem e este lhe diz: “Tonho, hoje é tu quem vai avoá… Tu fica no meu lugá e eu no teu…“. É como se o Menino intuísse ali, uma saída para o ciclo… Mas a corda do balanço é fraca… não suporta o peso de Tonho que observa que “o menino está forte demais”… e este replica: “Eu não… é tu que não sabe avoá…!”

A possibilidade de invenção do novo no círculo de repetição do mesmo se dá quando Tonho encontra Clara, a moça do circo. Quando o casal circence vai para Ventura, Tonho “se aventura” a seguir com eles. Está quase chegando ao fim o tempo que lhe resta. Mas aí em Ventura, Tonho experimenta um outro círculo. Na imagem onde é ele quem faz Clara girar num plano espacial acima do solo firme, evidencia-se a diferença de uma outra possibilidade de experimentação circular. Um círculo que pode ser interpretado pela noção nietzscheana de eterno retorno. O encontro com Clara é por acaso. É ela quem apresenta a Tonho outros formas circulares… O encontro entre Clara e Tonho faz nascer o desejo de experimentação de um modo de existência circular mas afirmativo, porque cheio de alegria e beleza. Ali nasce o desejo do eterno retorno – “a fórmula suprema da afirmação”, segundo Nietzsche.

Para Nietzsche, eterno retorno refere-se ao pensamento seletivo e ao ser seletivo: “Se em tudo o quiseres fazer, começas por perguntar a ti mesmo: ‘É certo que o queira fazer um número infinito de vezes?’ será para ti o centro de gravidade mais sólido. (…) Vive de tal maneira que devas desejar reviver” (Nietzsche apud Deleuze, p. 77). Na cena mencionada, Clara grita muitas vezes: “mais, mais, mais, mais…” . Naquele momento Clara se liberta ao afirmar o seu querer, o seu desejo de viver as próprias escolhas. Por isso, mais tarde, ao decidir ir ao encontro de Tonho, ela declara: “Eu vim te dizê que não tô mais presa… Foi tu que me ajudou. Tu também pode, Tonho!”.

A idéia nietzscheana do eterno retorno pode ser uma noção importante para avaliar as escolhas religiosas individuais. Ela contribui com a reflexão a respeito de um critério para avaliar as nossas ações e as nossas escolhas: “Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?” Esta pergunta “pesaria sobre tuas ações como um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação!” (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 341)

Abril Despedaçado nos traz à lembrança, de uma forma bela e poética, o que muitas vezes esquecemos: a necessidade de uma dupla afirmação – afirmar a vida através da afirmação do desejo apenas e tão somente daquilo que realmente vale a pena e daquilo que de fato queremos perpetuar como um eterno retorno.

Sobre as “notas do diretor” a respeito do filme, acesse: http://www.abrildespedacado.com.br/pt/oprocesso_pt.htm

Cinema e Psicologia da Religião – “O Corpo” novembro 23, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Cinema e Psicologia da Religião.
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The Body

O filme, “O corpo”, não é novo. Lançado em 2001, nos EUA, é dirigido por Jonas McCord e conta com Antonio Banderas e Olivia Williams nos papéis principais.

The Body (2)

Diz a sinopse do filme:

 

Numa escavação em Jerusalém, a arqueóloga Sharon Golban (Olivia Williams) faz uma importante descoberta: o esqueleto de um homem que foi crucificado e enterrado com uma inscrição que o proclamava “rei dos judeus”. Começa aí uma série de investigações para saber se o esqueleto encontrado é de Jesus, que, supunha-se, havia subido aos céus sem deixar nenhum rastro. Para reconhecer a autenticidade da descoberta, o Vaticano envia o padre Matt (Antonio Banderas), um jesuíta professor de História. Mas os dois pesquisadores encontrarão muitos obstáculos, arriscando suas vidas para encontrar a verdade.

 

O Vaticano manda o padre acompanhar as descobertas em função do que acredita ser uma ameaça à fé e à própria instituição, caso se confirme que o corpo encontrado é mesmo o de Jesus. Em outras palavras, a missão do padre Matt é preservar, a qualquer preço, a crença na ressurreição, independentemente das possíveis provas da descoberta em torno do corpo encontrado.

O filme gira em torno dessa questão: a da suposição de que a Religião cristã desmorona, caso a ressurreição de Cristo seja considerada um mito. O apóstolo Paulo já afirmava enfaticamente:

 

E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. I Coríntios 15:14

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. I Coríntios 15:17

 

No centro, pois, da questão, está justamente o “problema” que surge em razão do “corpo encontrado”. O filme provoca, desse modo, uma profunda reflexão que passa por interrogações tais como:

        Tem a fé cristã sido contruída sob a condição da “ausência do corpo”?

        Quanto o cristianismo depende, para sua continuidade, de um corpo (de Cristo e do próprio cristão) que se faz ausente ?

        Seria a ausência do corpo “problema-privilégio” só do cristianismo?

        Será mesmo que a fé cristã se dissolveria se o corpo de Cristo (e o do cristão) fosse “verdadeiramente” encontrado?

O prof. Osvaldo Giacóia, em estudo baseado em Nietzsche a respeito do inconsciente do século XXI, nos lembra que

o corpo éo fenômeno mais complexo, que deve ser tomado como ponto de partida para a compreensão dos processos mais simples, como, por exemplo, a consciência e sua faculdade de julgar. É ele o fio condutor, que poderá guiar até uma outra concepção de subjetividade, muito mais refinada, ampla e profunda do que a noção tradicional de unidade sintética da consciência. A unidade do sujeito, ou o conceito de ‘Eu’ formado a partir do fio condutor do corpo poderá, então integrar em si fenômenos e processos inconscientes, de modo algum privados de racionalidade; pelo contrário, um novo conceito de sujeito, que se apresenta como a grande razão do corpo.

“Encontrar o corpo” significa encontrar a potência de si, pois como diz Espinoza, “não sabemos sequer o que pode um corpo. Falamos da consciência, e do espírito, tagarelamos sobre tudo isso, mas não sabemos do que um corpo é capaz, quais são as suas forças nem o que é que elas preparam” (apud Deleuze, in: Nietzsche, p. 61).

Para continuar a reflexão a respeito do corpo (e do inconsciente), acesse o texto do Prof. Osvaldo Giacóia Jr.: O Inconsciente no Séc. XXI

 

Cinema e Psicologia da Religião: Tropa de Elite X Paradise Now outubro 24, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Cinema e Psicologia da Religião, Religião e Sociedade, René Girard, sacrifício, Sagrado.
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“Construir juntos” os infinitos sentidos “possíveis” no espaço da ilusão (que é o espaço de invenção da Arte, da Filosofia e da Religião, segundo Winnicott) tem sido a proposta desse blog Psicologia da Religião. Mas, por enquanto, apesar do número considerável de acessos, num período tão curto de tempo (menos de dois meses) pode-se dizer que ele tem sido mais objeto de consumo do que dispositivo de criação em comum. Este post é uma tentativa de abrir um espaço mais escancarado para um começo… (Quem sabe pelo viés da arte seja menos difícil?) .

Assim, a postagem de hoje solicita uma aproximação mais efetiva do leitor/a interessador/a no tema. Por favor, sinta-se à vontade para deixar aqui suas idéias, questionamentos, “associações livres”, tendo como ponto de partida dois filmes. TROPA DE ELITE – “MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA”. Como o filme “está na moda”, quase “todo mundo” sabe do que se trata. O outro filme é: “PARADISE NOW”.

Paradise now

Diz a sinopse:

“Amigos de infância, os palestinos Khaled (Ali Suliman) e Said ( Kais Nashef) são recrutados para realizar um atentado suicida em Tel. Aviv. Eles são levados à fronteira com bombas presas ao corpo. A operação não ocorre como o palenjado e eles acabam se perdendo um do outro. Separados, Khaled e Said têm de enfrentar seu destino e as próprias convicções.”

Paradise now - 01

Paradise now - 04

Ambos os filmes mostram formas diferentes de violência, expressas em culturas diversas e por uma motivação bastante diversa. Ambos trazem elementos bem interessantes para uma reflexão sobre Psicologia, Religião, Psicologia da Religião… mas muito mais : ambos nos fazem pensar sobre a vida, sobre as nossas crenças e nossos ideais, as nossas motivações, o modo como enxergamos o outro, etc, etc…

Girard, em seu estudo sobre “A violência e o sagrado” afirma:

não há (…) violência que não possa ser descrita em termos de sacrifício” e se interroga: “por que ninguém se pergunta sobre as relações entre o sacrifício e a violência?” (Girard, 1990, p. 13, 14).

Se vc quiser ler um pouco mais sobre o estudo de Girard sobre a violência e o sagrado, acesse o texto: Girard e o Aprisionamento do Desejo”

Excelente o texto do prof.  Jurandir Freire Costa sobre Tropa de Elite e o Ano em que meus pais saíram de férias. O título do artigo é: “O ano em que daremos férias à tropa de elite”. Vc pode acessá-lo em: http://jfreirecosta.sites.uol.com.br/

Para ler a crítica de Régis Trigo, sobre Paradise Now, acesse aqui.

Sinta-se encorajado/a a deixar aqui suas reflexões. Vc pode fazê-lo clicando acima em “add a comment”.