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Ética, Violência e Indiferença – O lugar do outro na subjetivação contemporânea dezembro 20, 2007

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Questões relacionadas ao tema Ética e Psicologia da Religião envolvem um amplo debate. Podemos abordá-las a partir de diferentes enfoques e acessos, por exemplo, a partir de situações aparentemente simples, vividas em nosso cotidiano, aquelas que parecem dizer respeito só a nós mesmos como indivíduos. Elas podem ser pensadas, também, a partir de outras situações mais amplas, envolvendo o coletivo. O jejum do Frei Luiz Cappio e a sua disposição radical em fazer com que governo e sociedade percebam a extensão das implicações do Projeto de transposição do Rio São Francisco levanta questões de extrema importância diretamente relacionadas ao tema da ética e religião. Várias pessoas opinam e defendem que Igreja e Governo devem ser instâncias separadas e classificam, por conseguinte, como ridículo o jejum do Frei como estratégia de luta por uma sociedade mais justa. Poderiam ser risíveis, se não fossem uma tentativa de banalização do gesto, críticas do tipo: “imagina se a moda de greve de fome pega como forma de impedir o governo de executar os seus projetos?!”

Será mesmo que essa “moda” emplacaria? Por maiores que pudessem ser os esforços dos “criadores de mundo e de desejo”, a moda do “jejum e oração” ou mesmo da “greve de fome” em defesa de um projeto coletivo, parece apontar muito mais para uma estética da vida que implica em escolhas livres, éticas, pensadas e vividas em função do modo de existência que tais escolhas implicam. Nada tem a ver com a estética da moda que se consome em cada nova estação. Uma estética existencial, que se apóia na decisão de lutar até às últimas consequências por um modelo de vida em sociedade diverso do modelo dominante, não parece algo passível de ser produzido como se produz a estética da moda. Quantos outros aderiram ao jejum, mesmo acreditando e apoiando a luta de Cappio? (“É moda, vamos lá…”)

Em meio a isso, provavelmente a maioria que tem ouvido essa “história da greve do frei”, sente algo que apóia o pensamento: “Esse projeto não me diz respeito!”. “Isto é coisa entre o governo e o povo do semi-árido”. “Tenho nada a ver com isto!”. A indiferença grassa entre nós como mecanismo de defesa, fazendo-nos pensar/agir/sentir a partir da ilusão de que vive-se melhor quando separamos “o que é de interesse do outro”, do que “é meu interesse”. Ainda não nos demos conta de que muito da violência que se configura em nossa sociedade contemporânea assenta-se sobre essa forma de pensamento e comportamento em que se separa o cuidado de si do cuidado do outro.

A reflexão sobre ética, violência e indiferença e a relação dessas questões com o nosso modo contemporâneo de subjetivação está apenas iniciada aqui. Ela segue adiante, com a ajuda do texto do psicanalista Jurandir Freire Costa, que vc pode acessar abaixo. Mas vc também pode colaborar, deixando aqui as suas idéias sobre o tema.

Segue o texto de J. F. Costa: Transcendência e Violência

Caso vc queira ler, ainda, outros textos relevantes sobre o tema, acesse também:

A Estética Foucaultiana

Freud e Winnicott – Moral e Ética

Sacrifício como doação de si – uma idéia estranha ao modo de subjetivação contemporâneo dezembro 4, 2007

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Frei Cappio

(Veja o site da campanha: Uma vida pela vida
http://www.umavidapelavida.com.br/default.asp
)

Retiro uma pequena parte da reflexão sobre sacrifício, desenvolvida em minha tese de doutorado, para pensarmos um pouco sobre a greve de fome que Frei Cappio está fazendo, como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco.

A palavra sacrifício tem, pelo menos, três significados. Do latin: sacrificium deriva da conjunção de sacer: sacro, santo e facere: fazer. A base etimológica da palavra nos dá a idéia de “fazer santo”, “tornar sacro”, indicando o sacrifício como um processo de santificação, um ato de separação ou de consagração de alguma coisa. Do alemão, a palavra Opfer tem o sentido de sacrifício, oferta. A raiz desta palavra aponta a idéia da dádiva, da oferta, do presentear como “tornar algo sacro”.

Mas encontramos, também, a palavra sacrifício no discurso popular, no mass midia, até mesmo nos discursos de economia, indicando um uso fora do contexto religioso. Neste caso, sacrifício toma o sentido de renúncia, de abrir mão de alguma coisa de valor em troca de uma outra de valor maior. Implica, portanto, a presença de um certo nível de sofrimento na ação de, voluntária ou obrigatoriamente, renunciar a algo de valor na expectativa de retorno de um bem que ultrapasse o valor daquilo que se entregou no ato do sacrifício.

Hoje é o sétimo dia da greve de fome realizada pelo Frei Cappio! Uma greve de fome como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco. O assunto é polêmico. O espaço desse post não comporta uma apresentação aprofundada sobre o tema. Contudo, é interessante pensar que nenhum ser humano estaria disposto a dar sua própria vida em favor de uma causa se não acreditasse nela. Frei Cappio luta em favor de uma causa que beneficia os “muitos” – e não uns poucos. Seria, o gesto de Frei Cappio, uma forma de sacrifício?

Costumo dizer que no modo de subjetivação contemporâneo ninguém quer sacrificar-se por outros. Estamos dispostos a fazer sacrifícios (renúncia de um bem em favor de um bem maior) apenas em favor de nós mesmos. Em outras palavras, fazemos “investimentos em nós mesmos”, mas sacrifícios em favor de outros?… mais fácil choramingar sobre as atitudes egoístas (dos outros!) dizendo: “ah, todo mundo pensa em si, só eu penso em mim!”

Frei Cappio pensa no benefício de outros que não têm voz para expressar a perda que acontecerá com a transposição do Rio. Ele pensa, age, e enfrenta as conseqências de sua escolha ética. Dois anos atrás, Frei Cappio fez o mesmo. Finalmente o presidente Lula aceitou uma conversa e fez “promessas”. O que mudou de lá pra cá? As obras de transposição foram retomadas. A revitalização do rio não foi levada à sério. Muitas agências apóiam a luta de Cappio. A mídia no entanto, tem dado pouco relevo ao protesto. Parece dizer em silêncio: “não adianta! É uma luta perdida!”.

Deixaremos Frei Cappio sozinho nessa luta? O que podemos fazer sobre isso?

Vc pode apoiar o gesto de resistência do Frei Cappio, manifestando-se no site: Uma vida pela vida – http://www.umavidapelavida.com.br/manifestacoes.asp

Segundo a ADITAL – Agência de Notícias, “para apoiar a atitude de Cappio, é essencial mandar um fax para os endereços na lista abaixo com a carta em anexo. É importante mandar uma copia oculta (cco:) para o e-mail apoio.dom.cappio@gmail.com para que possa ser contabilizado o número de cartas enviadas ao Governo.”

Lista de Endereços
Presidência da República
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

Ministro de Integração Geddel Vieira Lima
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

Ministra do Meio Ambiente Marina Silva
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:
Gabinete Ministra Ellen Gracie (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

Gabinete Ministro Gilmar Mendes (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

Para saber mais sobre a luta de Frei Cappio, acesse: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29086&busca=frei%20luiz%20cappioPara saber mais detalhes sobre o projeto de transposição do Rio, faça um download da Revista: “Águas da Ilusão“.

Sobre o gesto de Frei Cappio como luta pela vida, leia uma análise do missiólogo católico, Paulo Suess, publicada em outubro/2005: “Cappio, Cabrobó, Cúria. O profeta entre a Igreja e o Estado”

Para ter acesso a um dossiê sobre a ocupação do Rio São Francisco e outras informações sobre o assunto, vc pode acessar o site: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Mais informações em: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Sobre a polêmica na Igreja Católica, a respeito da greve de fome do Frei Cappio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u350971.shtml

O que diz o Ministro da Integração Nacional: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u349959.shtml

Anjos e Demônios – Parte II dezembro 2, 2007

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Adolescente

(Foto de Marlene Bergamo – 23.11.07 – Folha Imagem)

No primeiro post sobre essa triste história da adolescente presa em cela com 20 homens abordei a questão do mal e bem sob a figura de anjos e demônios. Quis mostrar na reflexão que, tanto o bem quanto o mal, fazem parte do humano. Neste sentido, o mal não está fora de nós, nem é passível de ser praticado apenas pelo outro. Todos/as nós somos capazes de praticar mal e bem. Mas cabe a nós a escolha ética de ser-fazer o bem não em função de uma suposta moral, ou por princípios religiosos, ou para manter uma certa aparência, mas em função do modo de existência que as nossas escolhas éticas implicam.

A matéria da Folha de São Paulo desse domingo, dia 02.12.07, vem comprovar a base da reflexão do post anterior. O “anjo anônimo”, como denominei aqui, o único que fez a denúncia e se preocupou com a jovem é, segundo a reportagem abaixo, um dos que estiveram presos na cela com a adolescente!

Segue a reportagem da Folha, na íntegra – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0212200729.htm

Denúncia de abuso contra jovem partiu de um preso
Detento buscou certidão de nascimento para provar idade da adolescente
Depoimentos à Corregedoria confirmam que policiais, promotores e juíza sabiam da prisão de L. na mesma cela com homens

LEILA SUWWAN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Foi um preso, ex-companheiro de cela, que buscou provas para denunciar a prisão e os abusos sexuais contra a adolescente L., 15, que ficou encarcerada com cerca de 20 homens na cadeia de Abaetetuba (PA).
É o que mostram os depoimentos do inquérito da Corregedoria da Polícia Civil do Pará, que ilustra a sucessão de omissões, conformismos e conivências de policiais militares, quatro delegados, três carcereiros, dois promotores e uma juíza, todos de alguma forma envolvidos e que agora empurram as responsabilidades entre si.
Três carcereiros e delegado-supervisor dizem que promotores foram ao local no dia 13 de novembro, mas deixaram L. para trás. Era um mutirão para soltar presos provisórios.
Por ironia, o esforço rendeu a liberdade a “Beto”, acusado de ser o primeiro a estuprar L., mas também liberou o preso S., que decidiu ajudar a menina.
Segundo o conselheiro tutelar de Abaetetuba, José Maria Quaresma, S. o procurou no dia 14 e relatou “que a jovem estava sendo vítima de abusos e que possivelmente até policiais estivessem envolvidos” e que não conseguiu ajuda nem no fórum nem na Promotoria.
O denunciante também informou que “havia estado preso e conhecido L., a qual lhe pediu ajuda a fim de comprovar que era menor de idade”, já que nem acreditava nela.
A iniciativa de S. também rompe uma espécie de “conluio” formado entre os detidos, que admitem em seus depoimentos apenas um estupro violento, mas seguido do suposto comportamento lascivo e “oferecido” de L..
A partir da denúncia, começa um circo de contradições, com supostas fugas e documentos falsos. Autoridades tentam fugir de responsabilidades e tentam ocultar seus erros.
Agem como se a mistura de mulheres e homens na mesma cela fosse um detalhe menor, uma coisa “corriqueira”.
O carcereiro Claudionor Monteiro da Costa conta que “já presenciou a prisão de várias mulheres naquele local, fato que era de conhecimento de delegados, promotores, juízes, inclusive da juíza Clarice Maria de Andrade”, que tinha visto isso em visita ao “xadrez”.
Um dos carcereiros teria tentado alertar a juíza sobre L., mas teria ouvido dela que “já tinha dado uma chance a L. e, como havia aprontado novamente, teria que aguardar mais”. A juíza está em férias e não foi localizada pela reportagem.
Foram duas chances documentadas de reverter a situação de L. O delegado-supervisor Fernando da Cunha solicitou à juíza Clarice a transferência no dia 5 de novembro, mas não houve resposta.
Depois disso, um representante do Centro de Reeducação Feminino, único presídio para mulheres do Estado, em Ananindeua, teria contatado L., segundo o depoimento dela, mas não tomou providências.
O caso explodiu porque L. era menor e porque um preso se deu o trabalho de buscar a certidão de nascimento no colégio Santa Clara para sua denúncia.
No mesmo dia, os conselheiros foram à delegacia, mas não conseguiram liberá-la. No dia seguinte, foram informados da suposta fuga da menina.
L. contou outra história: “foi retirada do xadrez pelos três policiais que efetuaram sua apreensão (…) e que disseram para ela sumir”.
A menor diz que pegaria um barco para Manaus quando, três dias depois, os mesmos três a levaram de volta, com mais ameaças. Os nomes dos policiais ainda não surgiram.
A CPI e autoridades do governo federal suspeitam de ação deliberada contra a menor L., que vivia em situação de risco. Ela perdeu a virgindade com 12 anos e vivia nas ruas, alvo de exploração sexual, trabalho infantil e uso de drogas, segundo autoridades federais.
Outros dois delegados, Celso Iran Viana e Danielle Bentes da Silva, responsáveis por outros registros contra L. como maior de idade, tentaram outra estratégia. No dia 20 de novembro, buscaram o pai e o tio de L. de carro e os levaram à Igreja Nossa Sra. da Conceição.
Segundo eles, para retirar uma certidão que mostraria que L. seria maior de idade. Segundo o pai, que é analfabeto, ele queriam intimidá-lo e tentar reverter as acusações. Afirma que foi chamado de “corno” e ameaçado de prisão.

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Anjos e Demônios – O caso da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo anônimo.

Os olhares do Cuidado: Dimensões da integralidade em saúde.

Anjos e Demônios – o caso da menina presa em cela com 20 homens: salva da barbárie por um anjo anônimo novembro 27, 2007

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Adolescente presa

(Foto de Marlene Bergamo – extraída da Folha de São Paulo – 25.11.07)

O título do post é para provocar a nossa reflexão acerca de anjos, demônios e a prática do cuidado como capacidade ética

Sim! Eles estão em toda parte! Anjos e demônios andam por aí – “entre” (?) nós…

O caso da jovem adolescente, presa numa cela com 2o homens, tem sido amplamente divulgado nos últimos dias, tanto pela mídia nacional como internacional. Trata-se de uma situação que choca as pessoas com um mínimo de sensibilidade. Os jornais dão conta de que a prisão da menina de 15 anos ocorreu em razão de uma “acusação de furto”, ou “tentativa de furto”, como diz a Folha de São Paulo. Obviamente, a prisão da adolescente não pode ser compreendida como “medida legal” em relação ao suposto delito. Causa mal-estar citar as razões óbvias pelas “(des)medidas” tomadas por pessoas que ocupam posição de poder e têm a função de realizar a segurança da população. O argumento do desconhecimento da idade exata da garota não justifica a contundente falta de humanidade que o caso expõe. Foi uma barbárie! Um detalhe que causa surpresa: a prisão foi ordenada por uma delegada, uma mulher! E o que é ainda pior: a garota foi mantida nessa condição de violência e tortura por quase um mês com conhecimento de quase toda a cidade.

A pergunta, pois, que surge espontaneamente é: “Como uma coisa dessas pôde acontecer?” “Por quê ninguém denunciou?”

A resposta é terrível. Na reportagem de Laura Capriglione e Marlene Bergamo, a tia de um dos presos transferidos responde que a razão do silêncio foi “medo de morrer”. E justifica:

“Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?”

 

Esse acontecimento trágico só recebeu (ou está recebendo) um outro destino porque “no dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima.”

Um anjo anônimo salvou a garota da barbárie a que estava submetida perpetrada e patrocinada pela instituição do Estado.

Não pretendo fazer desse post simplesmente um desabafo indignado, apesar do sentimento de profunda tristeza e horror que esse fato nos provoca. Penso que se faz relevante pensar, num momento como esse, a respeito da carência de anjos na sociedade contemporânea. De demônios já estamos “cheios” – por dentro, por fora, andando entre nós e dentro de nós. É mais simples acusar as pessoas diretamente envolvidas nessa barbárie e nos indignarmos com o fato, apaziguados pelo pensamento de que tais atrocidades foram cometidas não por nós, mas pelos outros (ou “pelas outras”).

É bem possível que outras pessoas na cidade tenham se indignado pela situação. Provavelmente até reagiram: expressaram medo, raiva, piedade, torpor, etc. Mas só uma pessoa foi capaz de agir sobre a situação, não simplesmente reagir a ela. Um anjo? Caído do céu para salvar a garota? Alguns diriam que sim! Talvez pelo sentimento de que uma atitude como essa: ativa, libertadora, que se move sobre a compreensão de uma auto-responsabilização pela condição desumanizada vivida pelo outro, é tão rara que alguém com tais traços só pode ser “sobrenatural”- um anjo! Sobre a mesma lógica se “demoniza” os perpetradores e as perpetradoras das barbáries – tais pessoas seriam tomadas como demônios, não poderiam ser consideradas como pessoas comuns, humanas: como você e eu!

Entretanto, acredito que necessitamos mais do que indignação. Mais do que espaço para expressar nosso espanto sobre as barbáries que nós – seres humanos – somos capazes de realizar. Necessitamos pensar, inventar alternativas de vida construídas a partir de uma visão que ultrapasse análises maniqueístas tais como anjo/demônio, mal/bem, etc .

Talvez pudésemos ser, de algum modo enriquecidos mesmo em meio a essa tragédia, se pudéssemos nos juntar na construção de algumas medidas concretas e ativas face a tudo isso. E a pergunta, então, insiste aqui, outra vez:

Como desenvolver um modo de existência que expresse uma capacidade ética – uma ética que se baseia no cuidado? Cuidado, entendido aqui, como expressao da “capacidade de se preocupar”? Winnicott usa a expressão “capacidade” para se referir a presença ou ausência de condições para se lidar com o “entorno” onde desenvolvemos/compomos a nossa subjetividade. Para ele, a noção de “capacidade” implica construção, interação, criação que se faz a partir dos/nos encontros com o outro. Neste sentido, nada é “natural”, ou dado à priori. Trata-se de potência que se desenvolve, que se constrói. Cria-se, desenvolve-se certas capacidades: “capacidade de estar só”, “capacidade de sentir culpa”, “capacidade de acreditar”, e também, a “capacidade de se preocupar”. Esta última tem a ver com o cuidado de si que se constrói em simultaneidade ao cuidado com o outro. Exatamente o oposto de uma atitude de olhar para o próprio umbigo e preocupar-se apenas com o que diz respeito, ou o que cabe nas fronteiras do próprio eu. A capacidade de se preocupar considera o si em simultaneidade com o outro. O eu não se faz criativo quando desvinculado do outro.

Penso que podemos ser criativos nesse momento se buscarmos desenvolver a nossa capacidade de nos preocuparconosco e com o outro em simultaneidade . Nesse sentido, quais ações poderíamos criar para que, de fato, essa capacidade se apresente como potencial a ser desenvolvido numa dimensão tanto macropolítica quanto micropolítica?

Sinta-se à vontade para deixar aqui a sua sugestão e colaborar na construção de algo que possamos fazer em comum com vistas a desenvolver, coletiva e pessoalmente, a “capacidade de nos preocupar”.

Para acessar a reportagem da Folha de São Paulo clique aqui: Moradores sabiam que menina estava em cela de homens no Pará.

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Os olhares do cuidado

Do sentimento de culpa à noção de concern

Produção de Subjetividade e Nobel da Paz 2007 – Parte II outubro 19, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Al Gore, Antonio Negri, ética, Nobel da Paz, produção de subjetividade, Religião e Sociedade.
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“Toda uma dinamização da retomada de confiança da humanidade em si mesma está para ser forjada aos poucos. O ideal é dificultar o pessimismo e a passividade que nos envolvem”. F. Guattari.

No Post anterior, levantei a questão sobre o que o prêmio Nobel da Paz 2007 pode ter a ver com a Psicologia da Religião. Antecipei que o ponto em comum que merece ser pensado é o da produção de subjetividade – a partir da perspectiva da ecologia – e as relações possíveis com a Teologia (em particular a cristã).

A entrevista com Berge Furre, vice-presidente do Comitê Nobel, nos forneceu alguns dados sobre o trabalho do Comitê e as razões da escolha do nome de Al Gore e IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) como os laureados pelo Nobel da Paz neste ano. O comitê entende que “a questão do clima é um dos problemas mais importantes da humanidade”, e Al Gore “tem capacidade para proclamar ao mundo sobre essa ameaça [do aquecimento global] e agora temos um porta-voz para acordar a todos sobre esta questão. Assim, ‘acordar’ o mundo sobre esse problema foi a razão que levou o comitê a colocar esse tema no centro dos interesses mundiais”.

Várias pessoas questionam a legitimidade do prêmio Nobel da Paz para Al Gore/IPCC, lançando dúvidas sobre as intenções políticas motivadoras do trabalho que Al Gore realiza. Não me parece profícua essa discussão quando qualquer neófito pode constatar, sem a mínima reflexão, apenas com a percepção do senso comum, a verdade dos fatos apontados por Al Gore. Tem havido, sim, e muito mais rápido do que se pensava algum tempo atrás, uma mudança climática com efeitos devastadores sobre o planeta, ameaçando a própria continuidade da vida na terra. Portanto, no debate proposto aqui, não cabe perder tempo com atitudes pré-concebidas. Vale a pena abrir um espaço de escuta ao que ele está dizendo e fazendo.

O que me parece importante pensar – e aqui, sim, começamos a visualizar o que isso pode ter a ver com a Psicologia da Religião – é a reflexão sobre as bases, as estratégias, o alcance e os efeitos do trabalho e luta de Al Gore. Seu fazer carrega a potência criadora de uma outra realidade. A luta de Al Gore parece trilhar o caminho do “poder constituinte” – que emprega as energias em uma política de subjetividade que escapa à lógica do poder constituído. O poder constituído produz uma configuração social que expressa, com seus valores essencialmente capitalistas, uma perspectiva reducionista da vida. Al Gore chama a atenção: “Isto não é uma questão política, mas é, sim, uma questão moral” (This is really not a political issue, so much is a moral issue”). Qual é a ” inconveniência” da verdade de Al Gore? Ele a resume na frase: “Nossa capacidade de viver é o que está em jogo, é o que estamos prestes a perder” (“Our ability to live is what is at stake”). Veja aqui o trailer do documentário. A verdade inconveniente de Al Gore é que no fundo ela aponta para a necessidade da criação de outros modos de vida, de outras condições de existência, para além da perspectiva da exploração e do lucro. Ela aponta para a necessidade de criação de outras políticas de subjetividade porque não se escasseiam apenas os recursos naturais que dão condições para a vida. Empobrece-se também de subjetividade. O documentário de Al Gore incide sobre o desejo – “a força determinante nos processos de constituição do político e da formação do social”, como pontua Negri.

Perceber o trabalho de Al Gore como um fazer que trilha os caminhos do poder constituinte é reconhecer que sua estratégia de luta busca “fazer multidão” (multitude) . Incidindo no desejo, Al Gore convoca a potência criadora presente nas singularidades que constituem a multidão. Estamos tomando aqui, a noção negriana de multidão, intimamente ligada à construção do comum. Multidão, para Negri, “é o reconhecimento de que por trás de identidades e diferenças, pode existir ‘algo comum’ – (…) entendido como proliferação de atividades criativas, relação ou formas associativas diferentes” (Negri, 2003, p. 148). Neste sentido, o ser multidão se expressa no fazer multidão através da cooperação, do trabalho que se produz em comum, que se forma e se prolifera através das redes. Trata-se portanto, de um dispositivo de guerra contra a forma como o capitalismo atual se configura. Nesse ponto creio ser necessário fazer jus ao que Guattari já dizia desde 1990, com a publicação do seu trabalho “As três Ecologias”.

A meu ver, a luta de Al Gore se aproxima das reflexões de Guattari no ponto em que ambos colocam em evidência que o que está em questão é a degradação da vida no planeta – no sentido ambiental, sim, mas também na dimensão individual e coletiva. E essas três ecologias – a do ambiente, a do social e a da subjetividade – como Guattari coloca, são indissociáveis, sofrem os mesmos processos de degradação e devem ser, por isso, alvo de nossa luta hoje.

Em 2001, o teólogo Leonardo Boff ganhou o Prêmio alternativo da Paz, em Estocolmo, por “articular ecologia, justiça social e espiritualidade em seu livro “Ecologia: Grito da Terra, Grito do Pobre”, publicado em 1995. Neste livro, Boff também aborda as três ecologias: ambiental, social e mental, e acrescenta ainda, uma “ecologia integral”. Boff desenvolve uma Teologia (cristã) que enfoca a mensagem bíblica de libertação integral: do planeta, das relações sociais e da subjetividade aprisionada nos modos dominantes de existência.

Penso que a Psicologia da Religião em muito pode contribuir com a reflexão sobre os processos de produção de subjetividade contemporânea, especialmente quando traz para o debate, a produção de determinadas expressões de espiritualidade assentadas nos mesmo valores capitalistas de exploração e lucro, que Al Gore denuncia com sua “verdade incoveniente”. Não falta em nosso país tão religioso, exemplos de grupos e instituições produtoras de uma subjetividade religiosa capitalística. Precisamos, sim, “lutar pela instauração de novos sistemas de valorização que não tenham como único critério o lucro. Há outras espécies de rentabilidade possíveis e necessárias, nos lembra Guattari, como por exemplo, uma rentabilidade estética [ambiental], social e de desejo [subjetividade]”(Rolnik, online, “ética do real”).

Leia também, a resenha de Suely Rolnik, do livro “As três ecologias”, de Felix Guattari – Ética do Real

Acesse, também, a versão do livro de Guattari, em espanhol, Las Tres Ecologias, em: http://static.scribd.com/docs/jrudjl05wu71b.pdf

Do sentimento de culpa à noção de “concern” – contribuições winnicottianas outubro 1, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Pastoral, ética, cuidado, culpa, Winnicott.
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A palavra “concern”, trazida para o campo da psicologia, por Winnicott, é de difícil tradução para o português. Em razão disto, tradutores desse autor preferem manter a palavra no original em inglês. Em português, concern traz a idéia de “preocupação”, “cuidado”. Winnicott é conhecido pelos seus “paradoxos insolúveis”. Sua utilização da palavra concern guarda um desses paradoxos sem solução, pois, “cuidado” tem o sentido ambíguo de “desvelo”, “atenção”, e ao mesmo tempo “cautela”, “inquietação”, “preocupação”.

Em Winnicott, a noção de concern aparece como alternativa à idéia de culpa (bastante estudada por Freud, com respeito à formação do superego e à resolução do Complexo de Édipo). Em seu estudo sobre “a psicanálise do sentimento de culpa”, Winnicott observa que a idéia de “valor” no indivíduo está intimamente ligada à capacidade para o sentimento de culpa. Para ele, o sentimento de culpa não se trata de algo “natural”, pelo contrário, desenvolve-se e estabelece-se como uma capacidade para experimentar o mesmo. Em outras palavras, o sentimento de culpa, de acordo com Winnicott, está ligado ao desenvolvimento de um senso moral, ou, melhor dizendo, ao desenvolvimento de uma ética, pois, cuidado e capacidade de se preocupar não diz respeito a um comportamento desvinculado da relação com o outro, pelo contrário, a pressupõe.

Assim, a idéia winnicottiana de “cuidado” parece mais ética (valores flexíveis, construídos por opção do indivíduo em função do estilo de existência que tais escolhas implicam, como nos lembra Foucault) e menos moral (valores rígidos, tomados como certo/errado a priori, a partir de modelos já dados).

Qual a importância da reflexão acerca do sentimento de culpa e da noção winnicottiana de concern para a Psicologia da Religião? A pergunta não poderá ser respondida plenamente aqui, agora. Trata-se de um questionamento que merece maior aprofundamento futuro. Por ora, cabe pontuar apenas que Winnicott contribui com uma importante ferramenta conceitual a ser utilizada no estudo de certas formas de religiosidade que emergem na contemporaneidade. Além disso, a idéia de concern pode ajudar em muito aqueles que trabalham com o Aconselhamento Pastoral/Espiritual, pois aponta a possibilidade de uma prática de aconselhamento que tenha como baliza a ética do cuidado, e não a culpabilização moral calcada em a-priori religiosos. Assim, para começar a pensar sobre o tema, vale a pena estudar com atenção, dois textos: o de Jurandir Freire Costa: “Da dívida como culpa ao cuidado com o outro: as perspectivas de Nietzsche e Winnicott”, e o de Nahman Armoni: “Poderiam Freud e Winnicott nos ajudar a compreender as transformações morais e éticas de nossos tempos?”

Para ter acesso ao texto de J. F. Costa, clique no link abaixo.

da-divida-como-culpa-ao-cuidado-com-o-outro.doc

Além destes dois textos, vale a pena ir direto ao texto de Winnicott em:

WINNICOTT, D. W. Psicanálise do sentimento de culpa. In: WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.

O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

Ainda sobre Homossexualidade e Religião: uma análise sobre o tema no contexto da Igreja Católica setembro 16, 2007

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 Tem sido bastante acessados os posts sobre “Homossexualidade e religiosidade” e “Sexualidade e Religião”, com disponibilização de textos sobre o tema – de  autoria do Prof. J. Farris . A análise de Farris sobre homossexualidade e religião tem como ponto de partida a perspectiva Protestante. Agora, apresentamos o tema na perspectiva da Igreja Católica, pelo professor Edênio Valle, professor de Psicologia da Religião e Ciências da Religião na PUC – SP.

Segundo Valle, com base em estudos de valor realizados no Brasil, a idéia de “que nada se move quanto às posições da Igreja Católica, da Teologia e de outros especialistas católicos que se pronunciam sobre o assunto” tem sido reforçada.  No entanto, essa idéia de que a Igreja teria parado nos tempos da inquisição não corresponde aos fatos, de acordo com a opinião do professor. Para ele,

Existe entre os psicólogos que estudam a religião um desconhecimento bastante generalizado a respeito do que a Igreja Católica diz oficialmente sobre ética sexual e homossexualidade. O que se sabe e se repete são generalizações sobre pronunciamentos do Vaticano, interpretadas segundo a ótica editorial dos veículos de comunicação e com base normalmente em coisas do passado, quando religião, ciência, direito e costumes viam a homossexualidade como doença e/ou como “crimen pessimum”.

Diante disso, Valle apresenta o pensamento ético que a Igreja Católica defende a respeito da homossexualidade com base em análise dos documentos oficiais da Igreja. Seu estudo é realizado desde a “perspectiva das ciências da religião, com ênfase na abordagem psicontropológica”.

Valle acredita que tem havido um deslocamento na posição da Igreja em relação ao tema  no que se refere, especificamente, “à pastoral (isto é, ao acolhimento e acompanhamento das pessoas)”. Segundo ele, “os textos eclesiásticos (e mais ainda, os dos teólogos) demonstram uma atitude de maior compreensão da complexidade do fenômeno homossexual, em cada um de seus múltiplos e distintos aspectos neurobiológicos (…), socio-antropológicos (…) psicológicos (…), históricos (…) e bíblico-teológicos ( …)”.

Acesse o texto completo, publicado pela REVER, aqui.

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Homossexualidade e religiosidade

Sexualidade e Religião

Homossexualidade e religiosidade setembro 5, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Pastoral, ética, homossexualidade, Sexualidade e Religião.
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O tema é polêmico! E, por conta do “desconforto” que o assunto gera nas autoridades religiosas, líderes e mesmo na sociedade laica, percebe-se duas atitudes que se polarizam. De um lado, o “silêncio ensurdecedor” escancara o medo do debate, de outro lado, o “barulho” que a busca dos direitos das pessoas homossexuais provoca, levanta a suspeita que a necessidade da força da lei parece ser um sintoma que surge pela ausência de um debate aberto. Para onde vamos com essas atitudes? Farris não tem medo do debate. Pelo contrário, ele chama para a conversa de um modo amoroso e medeia a discussão com vistas à afirmação da vida. Para ele,

“é fundamental que a Igreja discuta aberta e criticamente a heterossexualidade e a homossexualidade. Sem esta discussão intencional e crítica, corremos o risco de repetir cegamente atitudes sociais e crenças teológicas em vez de aceitar o desafio de construir uma fé viva e relevante”.

Assim, Farris apresenta uma discussão básica sobre a sexualidade humana e oferece uma descrição de cinco perspectivas que dominam as discussões atuais sobre homossexualidade. Sua preocupação com o debate parte da percepção de que

“as atitudes, as crenças, teologias e éticas a respeito da sexualidade humana, em geral, e a heterossexualidade e a homossexualidade, especificamente, influenciam profundamente a ação pastoral, o aconselhamento pastoral e a vida cotidiana de todas as comunidades religiosas”.

Trata-se, portanto, de uma contribuição profundamente relevante para a discussão sobre o tema envolvendo sexualidade e fé.

Baixe o texto: Homossexualidade como conflito moral


 

Sexualidade e Religião – um debate “melindroso” setembro 4, 2007

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“A sexualidade é uma das forças fundamentais na vida humana. Ela penetra toda a existência individual e social. Por esta razão, a sexualidade e a Igreja, a fé, a teologia, a ética e a ação pastoral se interpenetram” – James Farris

Pois bem, há que se ter coragem para abordar um tema tão complexo envolvendo sexualidade e fé. Mas o prof. James Farris (UMESP) encara o desafio. E o faz com sensibilidade e clareza argumentativa. Farris coloca esse tema na “roda da conversa” com a consciência da necessidade do diálogo aberto. É neste sentido, então, que disponibilizamos aqui, o seu texto sobre REFLEXÕES SOBRE A SEXUALIDADE E UMA TEOLOGIA DE SER. Em tempos onde o silêncio sobre “temas difíceis” se apresenta como uma saída tentadora, Farris convida ao diálogo e ao exercício de um pensamento ético.