jump to navigation

Religião, Psicopatologia e Saúde Mental outubro 30, 2008

Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Psicopatologia, Religião e Psiquiatria, Saúde e Religiosidade.
add a comment

Paulo Dalgalarrondo é professor titular de Psicopatologia da Universidade Estadual de Campinas. Suas pesquisas concentram-se nas áreas de: psicopatologia, psiquiatria cultural, saúde mental e religião, psiquiatria social, psiquiatria de crianças e adolescentes e gerontologia.

O livro acima, publicado este ano, pela Artmed, é um trabalho ‘de balanço’, síntese das pesquisas que o professor realiza há cerca de quase 20 anos, segundo suas próprias palavras, referidas nas notas de agradecimento.

Na Revista de Psiquiatria Clínica, volume 35, nr. 3, deste ano, está publicada uma resenha do livro acima, pelo professor Zacaria Borge Ali Ramadam. O texto apresentado pelo professor na referida Revista, na seção “Comentário de Livro”, pode ser lido em sua íntegra abaixo. Mas você também pode acessá-lo no seguinte endereço: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-60832008000300004&script=sci_arttext

Religião, psicopatologia & saúde mental – Paulo Dalgalarrondo, Editora Artmed, Porto Alegre, 2008

Zacaria Borge Ali Ramadam

Professor-associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Nesta época inflacionada por manuais e tratados de Psiquiatria, com dezenas de colaboradores, quase todos submissos ao formulário dos DSM, pode-se dizer, sem exagero, que este livro do Prof. Dalgalarrondo constitui uma pequena obra-prima da literatura psiquiátrica nacional.

Trata-se de uma obra de fôlego, produzida por um único autor, fato cada vez mais raro atualmente.

Contudo, o que mais surpreende é a densidade do trabalho, a riqueza de informações, de citações bibliográficas e a criteriosa seleção de fontes.

Como se sabe, a Psiquiatria, desde seus primórdios, passou por grandes vicissitudes e entrechoques drásticos com a esfera religiosa, sobretudo na época do Malleus Maleficarum, de triste memória.

Ao longo dos séculos permanecem vivas numerosas controvérsias, sustentadas por interpretações espiritua-listas sobre a natureza dos transtornos mentais em diversas culturas e regiões do globo.

Daí decorre a importância e atualidade do livro, considerando-se a proliferação de credos religiosos nas últimas décadas e seus rituais de exorcismo ou “curas” miraculosas.

E, não apenas isso, os credos religiosos se inserem nos planos antropológico e cultural, influindo sobremaneira no desenvolvimento psicológico e na formação da personalidade dos indivíduos.

Assim, o estudo das numerosas vertentes e intersecções entre religião, psicopatologia e saúde mental – a proposta deste livro – descortina um amplo horizonte para a Psiquiatria.

A obra consta de 11 capítulos, iniciando pelos conceitos teóricos de religião e religiosidade, com uma revisão crítica de autores clássicos como Feuerbach, Marx (“a religião é o ópio do povo”), Tylor, Frazer, Durkheim, Lévi-Strauss, Max Weber; na área de psicopatologia são revistos Freud, Jung, Lacan, Erikson, W. James, Winnicott, Bion, seguindo-se a esses numerosos autores modernos, até a última década.

Deve-se ressaltar que as idéias desses autores foram minuciosamente revistas e comentadas, denotando a familiaridade do Prof. Dalgalarrondo com os textos originais (alemão, francês e inglês), sem traduções intermediárias ou citações de segunda mão.

Adentrando o campo da psicologia da religião, a partir do capítulo 3, o autor faz um minucioso levantamento de algumas dezenas de obras (livros) mais significativas sobre o assunto, desde o século XVIII até nossos dias, seguindo-se um inventário, igualmente pormenorizado, das revistas científicas especializadas nesse campo, publicadas a partir de 1904; discorre sobre curso da vida, grupos etários, gênero e sexualidade, bem como aspectos neuropsicológicos e a formação da personalidade em correspondência com o substrato religioso vigente.

O capítulo 4, dedicado à religião, contém informações substanciais sobre o vasto panorama de católicos, evangélicos, kardecistas, umbandistas, budistas, judeus e muçulmanos da nossa população, num enfoque histórico-sociológico, sendo comentados trabalhos de pesquisa dos mais renomados autores brasileiros.

Embora todos os tópicos do livro sejam abordados com profundidade e esmero, merece destaque o capítulo sobre psicopatologia e religião, em que a distinção entre fenômenos religiosos e psicopatológicos é conduzida com grande embasamento em pesquisas científicas, sem resvalar no lugar comum da depreciação de manifestações religiosas, denotando equilíbrio e rigor científico.

Isso não surpreende, considerando-se o percurso intelectual do Prof. Dalgalarrondo: realizou seu doutorado em Heidelberg, sob orientação do Prof. Wagner Gattaz, na mesma universidade onde pontificaram Jaspers, Kurt Schneider e outros grandes psicopatologistas; é autor de um excelente livro de Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais e tornou-se, merecidamente, professor titular de Psicopatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Este livro, que ora comentamos, reflete a grande erudição do autor e seu empenho num exaustivo trabalho de pesquisa; um mergulho profundo nas melhores fontes da investigação e produção científica, neste campo tão rico de indagações e controvérsias.

Proporciona aos leitores uma riqueza de informações e conhecimentos substanciais, não apenas para os profissionais de Psiquiatria e Saúde Mental, mas para todos os interessados na reflexão sobre os fenômenos da nossa cultura.

É uma obra preciosa, para ler e reler.

Saúde e Espiritualidade – o mais recente enfoque em Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira outubro 23, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Espiritualidade, pesquisa, Religião e Psiquiatria, Religião e Sociedade, Saúde e Religiosidade.
2 comments

Com surpresa tomei conhecimento, pela internet, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sem dúvida, trata-se de uma novidade que vem atender uma demanda que vinha sendo negligenciada no campo das pesquisas acadêmicas no Brasil. Vários programas de Pós-Graduação em Saúde e Saúde Coletiva, a exemplo da maioria dos cursos de Psicologia, fecham os olhos ao tema da religiosidade/espiritualidade (como se saúde nada tivesse a ver também com questões referentes à espiritualidade, apesar do Brasil ser um país tão religioso e constatarmos na prática clínica, sofrimentos profundamente relacionados à questões de caráter religioso/espiritual). As pesquisas sobre Religião e religiosidade têm se restringido bastante às áreas da Teologia, Ciências Sociais, Antropologia e Sociologia. Faz falta a perspectiva da Psicologia e da Psiquiatria e mesmo da Medicina e da Saúde. Era tempo da academia acordar para a pesquisa nessa área!

O professor Alexander Moreira de Almeida, coordenador do Programa faz a seguinte observação:

Estudar cientificamente a espiritualidade é uma empreitada muito entusiasmante e perigosa.Essa é uma área repleta de preconceitos, preconceitos a favor e contra a espiritualidade. A maioria das pessoas tem opiniões sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis. É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante e uma negação dogmática ou, por outro, para uma aceitação ingênua de afirmações pouco fundamentadas. Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou anti-religiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas.”

Acesse também, o artigo de Harold G. Koening, sobre: Religião, espiritualidade e Psiquiatria: uma nova era na atenção à saúde mental

Mais informações sobre o Programa em Saúde Brasileira podem ser encontradas no ítem 4 da página Instituições.

A prevalência de Transtornos Mentais entre ministros religiosos – uma pesquisa na interface Psiquiatria e Religião setembro 11, 2007

Posted by psicologiadareligiao in cuidado, pesquisa, Religião e Psiquiatria, Teses, Transtornos Mentais.
1 comment so far

Dez anos atrás, o Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto apresentou uma tese de pós-doutorado (Livre-docência para a Faculdade de Medicina da USP) onde investiga a prevalência dos transtornos mentais entre ministros religiosos. Uma das conclusões do prof. Lotufo Neto foi a de que

A religião, uma variável que influencia a saúde mental, está sendo negligenciada pela psiquiatria nos seus estudos e programas de tratamento e prevenção.

Observação semelhante foi colocada por um dos Grupos de Trabalho no VI Simpósio de Psicologia e Senso Religioso – 2007, apontando que a negligência do estudo da Religião/religiosidade se faz sentir por sua ausência na grade curricular dos Cursos de Graduação em Psicologia. É verdade que poucos são os cursos de Psicologia que oferecem a disciplina Psicologia da Religião em seu currículo, nem mesmo como disciplina optativa. Está aqui um dado que pede uma reflexão consistente a respeito.

Segue o resumo do trabalho do Dr. Francisco Lotufo Neto, que também pode ser acessado no site do CPPC.

Psiquiatria e Religião: A prevalência de Transtornos Mentais entre Ministros Religiosos

O campo é vasto e foi necessário delimitá-lo. Optou-se pelos estudos psiquiátricos a respeito da religião que tiveram a preocupação de testar uma hipótese, de estudar a relação entre transtornos mentais e religião de forma empírica. Por isso, deixou-se de lado a imensa quantidade de literatura muito rica, mas contendo apenas reflexões e opiniões a respeito. Este trabalho divide-se em duas partes. Na primeira deu-se uma introdução sobre os principais conceitos acerca de religião, espiritualidade e fé, além de definir os diferentes tipos do uso da expressão saúde mental. A seguir examinou-se as características da religião que pode ser prejudicial à saúde mental. Apresentou-se os diferentes mecanismos pelos quais a religião pode influenciar a saúde e detalhou-se o que os trabalhos mostram sobre a relação entre religião, saúde física, bem-estar e os diferentes transtornos mentais. Os problemas metodológicos do estudo da religião na psiquiatria foram abordados e as principais recomendações encontradas na literatura detalhadas. Na Segunda parte, resumiu-se a literatura sobre transtornos mentais em ministros religiosos, ficando evidente que o tema foi muito pouco estudado. Os trabalhos são antigos, de muito antes do início de cuidados como critérios e instrumentos diagnósticos. Examinou-se também a literatura sobre os fatores de estresse na vida do sacerdote.

Métodos
Para investigar a prevalência de transtornos mentais em ministros religiosos cristãos, não católicos, moradores da cidade de São Paulo, 750 questionários contendo o “Self-Report Psychiatric Screening Questionnaire (SRQ-20)” e o “Inventário de Vida Religiosa” foram enviados pelo correio. Das 207 respostas, quarenta foram sorteadas e convidadas para uma entrevista com o “Schedule for Clinical Assessment in Neuropsychiatry” e uma entrevista aberta visando responder à Escala para Gravidade de Estressores (eixo IV do DSM-III-R).

Resultados
A prevalência de transtornos mentais no mês que precedeu a entrevista foi de 12,5%, e 47% receberam um diagnóstico quando a vida toda foi considerada. Os principais diagnósticos foram Transtornos Depressivos (16,4%), Transtornos do Sono (12,9%) e Transtornos Ansiosos (9,4%). Religiosidade do tipo intrínseco (onde a religião constitui um fim em si mesma, em que a pessoa “vive a sua fé”) foi associada com saúde mental. Problemas financeiros, problemas com outros pastores, conflitos com os líderes leigos da igreja, dificuldades conjugais, problemas doutrinários na igreja e sobrecarga de trabalho foram os fatores de estresse identificados mais importantes.

Conclusões
o A religião, uma variável que influencia a saúde mental, está sendo negligenciada pela psiquiatria nos seus estudos e programas de tratamento e prevenção.
o É necessário que o psiquiatra esteja familiarizado com a literatura sobre religião e conheça a religiosidade de sua clientela, para saber como utilizá-la clinicamente.
o Nas pesquisas, é necessário uma avaliação multidimensional, que a respeite em sua complexidade.
o Orientação religiosa intrínseca parece ser benéfica à saúde mental.
o Ministros religiosos cristãos não-católicos, residentes em São Paulo, têm uma prevalência aumentada de transtornos afetivos e ansiosos, e menor de abuso e dependência de álcool e drogas.
Tese de Pós-Doutorado (Livre Docência para a Faculdade de Medicina da USP), apresentada em 1997.

Para obter acesso ao estudo completo entre em contato por e-mail: franciscolotufo@uol.com.br

Posts relacionados:

As pesquisas em Psicologia da Religião no Brasil

Ainda sobre Pesquisa em Psicologia da Religião