jump to navigation

Suicídio e Literatura – O Mito de Sísifo (Camus) março 2, 2008

Posted by psicologiadareligiao in sacrifício, sofrimento, subjetivação contemporânea, suicídio.
4 comments

Sisifo

(Imagem capturada do site: http://pt.muestrarios.org/b/a-preciso-imaginar-sasifo-feliz.html)

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Albert Camus).

Suicídio ou Sacrifício?

Duas situações nos dão o que pensar quando colocadas em paralelo:

Nos EUA – Uma situação que tem se repetido com uma freqüência assustadoramente maior: um indivíduo armado entra numa Universidade ou num lugar qualquer, dispara contra várias pessoas desconhecidas matando-as. Em seguida, tira a própria vida.

No Oriente Médio – A emergência da figura dos “homens-bomba” (mas também das “mulheres-bomba”) causa surpresa para nós ocidentais que temos dificuldades para compreender a prática de entregar a própria vida num ato de destruição de si e do outro.

Qual a diferença entre estas duas situações?

A partir de um olhar superficial, sem muita reflexão, arrisco-me a pensar que se trata de dois modos distintos de subjetivação. Dois modos de existência que se configuram sobre o “chão” de uma pergunta motivadora do existir e do morrer: “qual o sentido da vida e da morte?” Enquanto a primeira situação descrita parece configurar-se em cima de um nihilismo existencial onde nada vale coisa nenhuma, nem minha vida nem a do outro, nada na vida (nem na morte) tem sentido, e viver e/ou morrer é a mesma coisa e por isso, numa crise de ódio contra a vida posso destruir a mim e ao outro, na segunda situação, intuo que a razão motivadora para tal prática se distingue significativamente.

Na segunda, o sentido religioso dá o tom da ação. Decide-se viver e/ou morrer por motivos com-sentido. O viver é construído com base no sentido (político-religioso) que permeia as escolhas e delineia uma estética da vida (e da morte). Morre-se, ou entrega-se a vida, pelas mesmas razões que permitem alguém continuar vivendo. O gozo de “destruir se destruindo” parte de motivações distintas nas situações apresentadas.
O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. O filósofo tcheco VILÉM FLUSSER, ao analisar a obra de Camus, em artigo publicado na Folha de São Paulo, no Caderno Mais, de 02.03.08, afirma que a humanidade do século 20 “se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus”. Flusser finaliza seu artigo colocando em questão a ética da existencialidade hoje, e pergunta-se sobre as saídas para a “vida absurda” que o ser humano tem construído para si.

O artigo de Vilém Flusser pode ser acessado aqui: O Mito de Sísifo – de Camus

Acesse também: O suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo.

Post relacionado: Considerações acerca do Suicídio – “O suicídio em tempos pós-modernos”.

Anúncios

Sacrifício como doação de si – uma idéia estranha ao modo de subjetivação contemporâneo dezembro 4, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, Religião e Sociedade, sacrifício, Sagrado, subjetivação.
add a comment

 

Frei Cappio

(Veja o site da campanha: Uma vida pela vida
http://www.umavidapelavida.com.br/default.asp
)

Retiro uma pequena parte da reflexão sobre sacrifício, desenvolvida em minha tese de doutorado, para pensarmos um pouco sobre a greve de fome que Frei Cappio está fazendo, como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco.

A palavra sacrifício tem, pelo menos, três significados. Do latin: sacrificium deriva da conjunção de sacer: sacro, santo e facere: fazer. A base etimológica da palavra nos dá a idéia de “fazer santo”, “tornar sacro”, indicando o sacrifício como um processo de santificação, um ato de separação ou de consagração de alguma coisa. Do alemão, a palavra Opfer tem o sentido de sacrifício, oferta. A raiz desta palavra aponta a idéia da dádiva, da oferta, do presentear como “tornar algo sacro”.

Mas encontramos, também, a palavra sacrifício no discurso popular, no mass midia, até mesmo nos discursos de economia, indicando um uso fora do contexto religioso. Neste caso, sacrifício toma o sentido de renúncia, de abrir mão de alguma coisa de valor em troca de uma outra de valor maior. Implica, portanto, a presença de um certo nível de sofrimento na ação de, voluntária ou obrigatoriamente, renunciar a algo de valor na expectativa de retorno de um bem que ultrapasse o valor daquilo que se entregou no ato do sacrifício.

Hoje é o sétimo dia da greve de fome realizada pelo Frei Cappio! Uma greve de fome como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco. O assunto é polêmico. O espaço desse post não comporta uma apresentação aprofundada sobre o tema. Contudo, é interessante pensar que nenhum ser humano estaria disposto a dar sua própria vida em favor de uma causa se não acreditasse nela. Frei Cappio luta em favor de uma causa que beneficia os “muitos” – e não uns poucos. Seria, o gesto de Frei Cappio, uma forma de sacrifício?

Costumo dizer que no modo de subjetivação contemporâneo ninguém quer sacrificar-se por outros. Estamos dispostos a fazer sacrifícios (renúncia de um bem em favor de um bem maior) apenas em favor de nós mesmos. Em outras palavras, fazemos “investimentos em nós mesmos”, mas sacrifícios em favor de outros?… mais fácil choramingar sobre as atitudes egoístas (dos outros!) dizendo: “ah, todo mundo pensa em si, só eu penso em mim!”

Frei Cappio pensa no benefício de outros que não têm voz para expressar a perda que acontecerá com a transposição do Rio. Ele pensa, age, e enfrenta as conseqências de sua escolha ética. Dois anos atrás, Frei Cappio fez o mesmo. Finalmente o presidente Lula aceitou uma conversa e fez “promessas”. O que mudou de lá pra cá? As obras de transposição foram retomadas. A revitalização do rio não foi levada à sério. Muitas agências apóiam a luta de Cappio. A mídia no entanto, tem dado pouco relevo ao protesto. Parece dizer em silêncio: “não adianta! É uma luta perdida!”.

Deixaremos Frei Cappio sozinho nessa luta? O que podemos fazer sobre isso?

Vc pode apoiar o gesto de resistência do Frei Cappio, manifestando-se no site: Uma vida pela vida – http://www.umavidapelavida.com.br/manifestacoes.asp

Segundo a ADITAL – Agência de Notícias, “para apoiar a atitude de Cappio, é essencial mandar um fax para os endereços na lista abaixo com a carta em anexo. É importante mandar uma copia oculta (cco:) para o e-mail apoio.dom.cappio@gmail.com para que possa ser contabilizado o número de cartas enviadas ao Governo.”

Lista de Endereços
Presidência da República
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

Ministro de Integração Geddel Vieira Lima
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

Ministra do Meio Ambiente Marina Silva
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:
Gabinete Ministra Ellen Gracie (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

Gabinete Ministro Gilmar Mendes (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

Para saber mais sobre a luta de Frei Cappio, acesse: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29086&busca=frei%20luiz%20cappioPara saber mais detalhes sobre o projeto de transposição do Rio, faça um download da Revista: “Águas da Ilusão“.

Sobre o gesto de Frei Cappio como luta pela vida, leia uma análise do missiólogo católico, Paulo Suess, publicada em outubro/2005: “Cappio, Cabrobó, Cúria. O profeta entre a Igreja e o Estado”

Para ter acesso a um dossiê sobre a ocupação do Rio São Francisco e outras informações sobre o assunto, vc pode acessar o site: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Mais informações em: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Sobre a polêmica na Igreja Católica, a respeito da greve de fome do Frei Cappio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u350971.shtml

O que diz o Ministro da Integração Nacional: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u349959.shtml

Subjetivação contemporânea e Religiosidade novembro 3, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, forças de narcisação, forças reativas de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, narcisismo, produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
add a comment

Qual é o papel, a função, ou mesmo a utilidade da religião no modo contemporâneo de subjetivação? Em especial, numa configuração social cuja “política de subjetivação” (criação de modos de existência) volta-se essencialmente para o indivíduo, seu prazer e bem-estar, de que modo as atuais formas de expressão religiosa se dinamizam?

Lembremos, como bem observa Rolnik, que cada configuração sócio-histórica cria suas próprias “políticas de subjetivação” para sustentar o seu próprio sistema. Ou seja, cada regime cria suas variações a respeito do lugar do outro e da política de relação que com ele se estabelece. Evidentemente, as religiões também participam das políticas de subjetivação vigentes – quer seja na promoção de uma religiosidade voltada à deglutição acrítica e reprodução do mesmo – quer seja pela potência de criação de alternativas de outros modos de existência. É claro que entre um pólo e outro, existem várias outras formas.

No texto: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea” , faço uma análise da experiência religiosa promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), especialmente a partir da sua proposta de sacrifício (do dinheiro). Trabalho, no texto, com a “concepção de narcisismo ativo e reativo e defendo a idéia de que a prática do sacrifício, tal como proposta pela IURD, articula elementos do narcisismo reativo e estabelece-se como uma tecnologia do eu, usada como remédio para lidar com a experiência contemporânea da vergonha” (Esperandio, 2007, p. 19).

O texto foi publicado na Revista Psicologia & Sociedade, vol. 19, nr. 2. e você pode acessá-lo aqui: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea: culpa substituída pela vergonha?”

Nas palavras da editora Cleci Maraschim, este número da Revista Psicologia & Sociedade “traz novamente uma série de artigos de pesquisadores que trabalham no campo da Psicologia Social e em suas interfaces com as Ciências Humanas, Sociais”. Você pode ter acesso ao conteúdo completo da revista, que está disponível também em formato online em: http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewissue.php?id=14

Cinema e Psicologia da Religião: Tropa de Elite X Paradise Now outubro 24, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Cinema e Psicologia da Religião, Religião e Sociedade, René Girard, sacrifício, Sagrado.
3 comments

“Construir juntos” os infinitos sentidos “possíveis” no espaço da ilusão (que é o espaço de invenção da Arte, da Filosofia e da Religião, segundo Winnicott) tem sido a proposta desse blog Psicologia da Religião. Mas, por enquanto, apesar do número considerável de acessos, num período tão curto de tempo (menos de dois meses) pode-se dizer que ele tem sido mais objeto de consumo do que dispositivo de criação em comum. Este post é uma tentativa de abrir um espaço mais escancarado para um começo… (Quem sabe pelo viés da arte seja menos difícil?) .

Assim, a postagem de hoje solicita uma aproximação mais efetiva do leitor/a interessador/a no tema. Por favor, sinta-se à vontade para deixar aqui suas idéias, questionamentos, “associações livres”, tendo como ponto de partida dois filmes. TROPA DE ELITE – “MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA”. Como o filme “está na moda”, quase “todo mundo” sabe do que se trata. O outro filme é: “PARADISE NOW”.

Paradise now

Diz a sinopse:

“Amigos de infância, os palestinos Khaled (Ali Suliman) e Said ( Kais Nashef) são recrutados para realizar um atentado suicida em Tel. Aviv. Eles são levados à fronteira com bombas presas ao corpo. A operação não ocorre como o palenjado e eles acabam se perdendo um do outro. Separados, Khaled e Said têm de enfrentar seu destino e as próprias convicções.”

Paradise now - 01

Paradise now - 04

Ambos os filmes mostram formas diferentes de violência, expressas em culturas diversas e por uma motivação bastante diversa. Ambos trazem elementos bem interessantes para uma reflexão sobre Psicologia, Religião, Psicologia da Religião… mas muito mais : ambos nos fazem pensar sobre a vida, sobre as nossas crenças e nossos ideais, as nossas motivações, o modo como enxergamos o outro, etc, etc…

Girard, em seu estudo sobre “A violência e o sagrado” afirma:

não há (…) violência que não possa ser descrita em termos de sacrifício” e se interroga: “por que ninguém se pergunta sobre as relações entre o sacrifício e a violência?” (Girard, 1990, p. 13, 14).

Se vc quiser ler um pouco mais sobre o estudo de Girard sobre a violência e o sagrado, acesse o texto: Girard e o Aprisionamento do Desejo”

Excelente o texto do prof.  Jurandir Freire Costa sobre Tropa de Elite e o Ano em que meus pais saíram de férias. O título do artigo é: “O ano em que daremos férias à tropa de elite”. Vc pode acessá-lo em: http://jfreirecosta.sites.uol.com.br/

Para ler a crítica de Régis Trigo, sobre Paradise Now, acesse aqui.

Sinta-se encorajado/a a deixar aqui suas reflexões. Vc pode fazê-lo clicando acima em “add a comment”.

O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, forças de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, Religião e Sociedade, sacrifício, sofrimento, subjetivação.
2 comments

Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

Aconselhamento Psicológico e Aconselhamento Pastoral/Espiritual setembro 3, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Psicológico, Congressos, Pastoral Care and Counselling, produção de subjetividade, sacrifício, Seminários.
add a comment

Na manhã do sábado de 25 de agosto/2007, no VI Seminário de Psicologia e Senso Religioso, a professora Yolanda Cintrão Forghieri (USP) apresentou uma palestra maravilhosa sob o título: Aconselhamento Psicológico e Espiritualidade. A professora Yolanda tem publicado um livro onde ela apresenta o suporte teórico e prático do aconselhamento terapêutico. Todos os volumes que estavam disponíveis para compra durante o evento foram esgotados – isso já dá uma idéia do interesse que o seu tema despertou nos/as participantes. Na Europa, o Aconselhamento Psicológico/Terapêutico tem sido amplamente praticado por pessoas formadas em cursos específicos, sob a denominação de “Pastoral Care (or Spiritual Care) and Couselling”. Assim, um amplo material (de qualidade!) tem sido produzido em torno desse tema. E faríamos bem em olhar com mais atenção (com menos preconceito mesmo!) a reflexão que tem sido desenvolvida sob essa designação de “Pastoral Care and Counselling”.

Aproveito para contar que participei do VIII Congresso Internacional promovido pelo ICPCC – International Council on Pastoral Care and Couselling, nos dias 07 a 14 de agosto/2007, na Polônia, sob o título, “TREASURE IN EARTHEN VESSELS” – O enfoque foi sobre o cuidado espiritual diante do nosso contexto atual de fragilidade/vulnerabilidade e destruição (sob a perspectiva individual e sistêmica). Lá, apresentei um workshop, juntamente com o prof. Berge Furre (Universidade de Oslo – Noruega),  sob o título: “Pós-Pentecostalismo e o ‘sacrifício do dinheiro’: um remédio para lidar com a fragilidade da subjetividade no contexto do capitalismo mundial?”. O prof. James Farris (UMESP) também participou do Congresso e seu workshop foi sobre Sexualidade na tradição religiosa cristã e nas outras culturas. Ele levou para o debate questões sobre opressão e libertação, relacionadas ao dualismo Agape e Eros.

Segue, aqui, o texto apresentado no workshop – por enquanto, em inglês,  apenas.

Post-Pentecostalism and the sacrifice of money: a remedy to face fragility in the contemporary capitalist world order?

Ainda sobre Pesquisa em Psicologia da Religião setembro 1, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, narcisismo, Pesquisas em Psic. da Relig., produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
2 comments

Numa análise dos 8 grupos de trabalho que aglutinaram pesquisas em Psicologia da Religião, conforme apresentados no VI Seminário de Psicologia da Religião e Senso Religioso, pode-se depreender uma ausência importante de uma “linha” de pesquisa: a dos processos de subjetivação e produção de subjetividade. Meu interesse na pesquisa em Psicologia da Religião vai por essa via. Assim, apresentei um trabalho no Grupo 2: Psicologia, Experiência Religiosa e Cultura, por ser o GT onde minha pesquisa mais se aproximava. Mas descobri ali que esse referencial teórico sobre “subjetivação e produção de subjetividade” nem passa perto. A reflexão do GT se sustenta ainda numa “tensão” entre indivíduo e cultura – conforme o Coordenador do Grupo se expressou. Penso que está aí um campo de grande relevância a ser explorado. E estou a fim de perseguir esse caminho. Mas gostaria de fazê-lo acompanhada, de algum modo. Espero que outras pessoas que se interessem por esse tema façam contato, e juntos, possamos criar um trabalho de “multidão”, como diz o Negri, no sentido de construir algo novo a partir de uma base “em comum”. No GT, apresentei um trabalho sob o título: “Subjetividade Contemporânea, Sacrifício e Igreja Universal do Reino de Deus: culpa substituída pela vergonha?”. Este trabalho tem a ver com minha tese de doutorado, defendida no ano passado, na EST/IEPG. A tese é de domínio público, mas espero transformá-la em livro logo, depois de “enxugar” o conteúdo e diminuir o número de páginas. Creio que vale a pena fazer isso, pois o tema, “Narcisismo e Sacrifício – Modo de subjetivação e Religiosidade Contemporânea”, é de grande relevância para a reflexão a respeito do nosso modo de existência hoje. E então, alguém se habilita a trilhar esse caminho?