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Suicídio e Literatura – O Mito de Sísifo (Camus) março 2, 2008

Posted by psicologiadareligiao in sacrifício, sofrimento, subjetivação contemporânea, suicídio.
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Sisifo

(Imagem capturada do site: http://pt.muestrarios.org/b/a-preciso-imaginar-sasifo-feliz.html)

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Albert Camus).

Suicídio ou Sacrifício?

Duas situações nos dão o que pensar quando colocadas em paralelo:

Nos EUA – Uma situação que tem se repetido com uma freqüência assustadoramente maior: um indivíduo armado entra numa Universidade ou num lugar qualquer, dispara contra várias pessoas desconhecidas matando-as. Em seguida, tira a própria vida.

No Oriente Médio – A emergência da figura dos “homens-bomba” (mas também das “mulheres-bomba”) causa surpresa para nós ocidentais que temos dificuldades para compreender a prática de entregar a própria vida num ato de destruição de si e do outro.

Qual a diferença entre estas duas situações?

A partir de um olhar superficial, sem muita reflexão, arrisco-me a pensar que se trata de dois modos distintos de subjetivação. Dois modos de existência que se configuram sobre o “chão” de uma pergunta motivadora do existir e do morrer: “qual o sentido da vida e da morte?” Enquanto a primeira situação descrita parece configurar-se em cima de um nihilismo existencial onde nada vale coisa nenhuma, nem minha vida nem a do outro, nada na vida (nem na morte) tem sentido, e viver e/ou morrer é a mesma coisa e por isso, numa crise de ódio contra a vida posso destruir a mim e ao outro, na segunda situação, intuo que a razão motivadora para tal prática se distingue significativamente.

Na segunda, o sentido religioso dá o tom da ação. Decide-se viver e/ou morrer por motivos com-sentido. O viver é construído com base no sentido (político-religioso) que permeia as escolhas e delineia uma estética da vida (e da morte). Morre-se, ou entrega-se a vida, pelas mesmas razões que permitem alguém continuar vivendo. O gozo de “destruir se destruindo” parte de motivações distintas nas situações apresentadas.
O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aborda a problemática do suicídio como saída que o ser humano inventa para a situação absurda que se encontra. O filósofo tcheco VILÉM FLUSSER, ao analisar a obra de Camus, em artigo publicado na Folha de São Paulo, no Caderno Mais, de 02.03.08, afirma que a humanidade do século 20 “se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus”. Flusser finaliza seu artigo colocando em questão a ética da existencialidade hoje, e pergunta-se sobre as saídas para a “vida absurda” que o ser humano tem construído para si.

O artigo de Vilém Flusser pode ser acessado aqui: O Mito de Sísifo – de Camus

Acesse também: O suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo.

Post relacionado: Considerações acerca do Suicídio – “O suicídio em tempos pós-modernos”.

Pesquisas em Psicologia da Religião – Estratégias de coping religioso na saúde e bem-estar: a questão do luto dezembro 8, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Aconselhamento Pastoral, Aconselhamento Psicológico, Pesquisas em Psic. da Relig., sofrimento.
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Arriès considerava mórbido não o falar da morte. Ao contrário, nada dizer sobre ela é que é, para ele,  verdadeiramente mórbido.

Carvalho (2007), em estudo sobre luto e religiosidade, faz uma revisão bibliográfica sobre o tema e empreende uma pesquisa empírica a respeito dos tipos de mecanismos de coping religioso utilizados em situações de luto.

Na pesquisa, Carvalho aplica em 32 sujeitos que passaram por uma experiência significativa de luto, o Questionário sobre oLuto (QSL), o Questionário de Avaliação do Sobrenatural (QAS3) e o The Ways of Religious Coping Scale (Worcs).
Um dos achados de Carvalho é que as pessoas que utilizam mecanismos de coping religioso restabelecem com menos complicações o equilíbrio perdido quando da perda de um ente querido.

O trabalho de Carvalho, produzido como Monografia de Conclusão do curso de Psicologia está disponível em: http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo_licenciatura.php?codigo=TL0059&area=d15&subarea=d15D Para baixar o texto completo clique aqui: Luto e Religiosidade

Morte, Sofrimento e as Dores de cada dia – o que “pode” a subjetividade hoje? novembro 14, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Religião e Sociedade, sofrimento, subjetivação.
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Ressurreição de Lázaro

Sei que tenho repetido várias vezes, aqui mesmo, que no modo contemporâneo de subjetivação “é feio sofrer”. Vivemos hoje, sob a tirania do gozo, como se fosse proibido sofrer, como se o sofrimento fosse um “defeito”. É claro que ninguém quer sofrer. “Ninguém quer a morte, só saúde e sorte”, canta Gonzaguinha. Mas o sofrimento é uma experiência que faz parte da vida. Dizer isso não significa que temos de “desejar” o sofrimento como se fosse algo virtuoso, como se as experiências de sofrimento tivessem poder “de nos levar ao céu”. Mas exorcizá-lo como se fosse demoníaco nos impede de viver a vida em sua inteireza. A experiência de sofrimento – nossa ou do outro – pode ser uma oportunidade de nos tornarmos mais humanizados, criativos… mais capazes de dar consistência e sentido à nossa existencialidade.

Nem aceitar o sofrimento com resignação, numa atitude religiosa de “aperfeiçoamento” do espírito, nem exorcizá-lo como sendo atuação do demônio – mas acolher a dor e compartilhar o sofrimento nos torna mais fortes no sentido em que aumenta nossa potência de existir.

Com a indústria farmacêutica em alta é mais fácil lançar mão de um anti-depressivo, um ansiolítico, ou mesmo algo para nos ajudar a dormir. Também certas formas de religiosidade contemporânea, portando promessas de acabar com o sofrimento, tornam-se bastante atrativas. Em algumas ocasiões ou alguns casos, o uso de medicação realmente se faz necessário. Mas tem havido uma atitude generalizada de simplesmente querer afastar a dor a qualquer preço. É por isso que ficamos sem saber o que fazer com nossas próprias dores e lutos, e também com os lutos dos outros. Quando alguém em luto se aproxima e começa a falar da sua dor logo vem a tentativa de minimizar a situação, salientando as coisas boas da vida, mostrando os motivos que o outro tem para não se deixar abater, etc, como se não fosse permitido sofrer… Nesse momento, tudo o que o outro precisa é apenas um espaço de escuta e acolhimento para expressar a sua dor.

Quanto espaço temos permitido para nossas próprias dores e para as dores do outro? Quanto temos sido capazes de afirmar a vida em meio às dores do processo de existir?

Segue uma entrevista com o psiquiatra inglês, Colin Murray Parkes, publicada na Veja, em agosto desse ano sobre “A dor da morte”- vale a pena (re)lê-la.

A dor da morte

Acesse também:

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência

O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, forças de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, Religião e Sociedade, sacrifício, sofrimento, subjetivação.
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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência setembro 6, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, culpa, forças reativas de narcisação, , sofrimento, vergonha.
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Estou lendo “Jó – A força do escravo”, de Antonio Negri. Esperava terminar a leitura para depois comentar aqui. Mas tomei conhecimento de uma entrevista de Negri – para Valor Econômico a respeito desse livro – que vale a pena reproduzir aqui (a entrevista também está no blog do Ezequiel).

No modo de subjetivação contemporâneo sofrer é feio, é vergonhoso… Não é por acaso que a indústria farmacêutica dos antidepressivos continua em crescimento, talvez nas mesmas proporções que crescem os “efeitos colaterais” produzidos pela produção social da vergonha (isolamento, diminuição da potência criativa, fechamento em si mesmo, etc…) Aproveito para dizer que, a meu ver, tem havido uma alteração significativa na configuração subjetiva contemporânea, em relação ao caráter dos sofrimentos. Se até há pouco tempo atrás, os consultórios de psicologia se viam às voltas com os sofrimentos movidos pelo sentimento de culpa, hoje, em geral, são as feridas relativas à vergonha e às forças reativas de narcisação.

Entretanto, seja pela culpa, seja pela vergonha, “o sofrimento é condição da existência”, como afirma Negri. Na experiência de sofrimento é possível afirmar a vida e criar alternativas inusitadas que aumentem a potência de existir. “Identificar a origem do mal e enfrentá-lo”, como sugere Negri, constitui-se, pois, não apenas uma estratégia para lidar com o sofrimento, mas também um exercício de libertação e de invenção de outros modos de vida.

Segue a entrevista completa:

Valor Econômico – SP (06/07/2007)
A travessia de um sofrimento

Por José Castello, para o Valor

Antonio Negri no seu apartamento, em Paris: “Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro”

O filósofo Antonio Negri não aceita o pessimismo e tampouco a debilidade que dominam o pensamento contemporâneo. Nascido em Pádua, Itália, em 1933, ele se tornou mais conhecido no Brasil depois da publicação do polêmico “Império”, livro de 2000, escrito a quatro mãos com Michael Hardt. O pensamento vigoroso de Negri volta às livrarias com o lançamento de “Jó, a Força do Escravo”, pela editora Record.

Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria guardados no “Antigo Testamento” e na “Tanakh”. De autoria incerta, “O Livro de Jó”, que alguns atribuem a Moisés, outros a Salomão, acredita-se, foi escrito em torno de 2000 a.C. Toda a sabedoria de Jó está em desviar a atenção da figura do diabo para olhar Deus diretamente, mostra Negri. O diabo é um burocrata, que gerencia a relação do homem com Deus e, em conseqüência, a rege. Quando decide olhar Deus nos olhos, Jó ensina, diz Negri, que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação.

Negri afirma que existe, portanto, um aspecto positivo na dor: é da travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si. A experiência da dor pode se converter, desse modo, em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Em vez de se assustar com a incerteza a respeito do futuro, Negri prefere vê-lo como uma experiência de abertura infinita, na qual nada está predeterminado e, em conseqüência, tudo pode acontecer. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência. Para Negri, tudo se constrói a cada instante e é dessa instabilidade, que hoje se costuma ver como ameaça, que o homem pode tirar a felicidade.

Negri começou a escrever “Jó, a Força do Escravo” no início da década de 1980, durante os quatro anos em que esteve preso, sob a acusação de ter sido o mentor do seqüestro e assassinato de Aldo Moro, o popular político da Democracia Cristã. Ele se livrou da prisão quando, em 1983, se elegeu deputado pelo Partido Radical Italiano, vitória que lhe conferiu a vantagem da imunidade parlamentar. A imunidade foi logo retirada pela Câmara dos Deputados, mas antes disso Negri conseguiu se refugiar na França, onde viveu exilado durante 14 anos.

Ele se tornou, então, professor da Universidade de Paris VIII e do Colégio Internacional de Filosofia, convivendo com intelectuais do porte de Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em 1997, enfim, decidiu retornar voluntariamente à Itália, para lutar por sua anistia e a de outros presos políticos em situação semelhante. Depois de ser novamente preso, conseguiu a liberdade condicional. Até 2004, viveu em regime de liberdade restrita. Antonio Negri mora, atualmente, em Veneza, de onde concedeu, por telefone, a entrevista que se segue.

Valor: Nosso mundo, gerido pelos antidepressivos, pelas psicoterapias, pelo misticismo e pelo fanatismo, vive em luta contínua contra o sofrimento. O sofrimento é, também, o tema central de “Jó, a Força do Escravo”. Parece ser, enfim, seu tema mais importante.

Antonio Negri: Sim, o sofrimento é condição da existência. Condição que está ligada diretamente à solidão humana. Nosso desejo de viver se abre, sempre, para os outros. O sofrimento aparece quando alguma coisa, a que chamamos de mal, impede a realização do desejo. No mundo de hoje, os limites à liberdade, ao desejo e à felicidade são muito grandes. Existem muitos entraves em nossa vida. O problema é que, em geral, atribuímos a esse mal que veda nosso acesso à felicidade uma origem misteriosa. Jó, de início, faz a mesma coisa, apegando-se à idéia de uma origem enigmática para a dor. Mas o importante em Jó é que, em dado momento, ele identifica a origem do mal e a enfrenta. O mal, então, deixa de ser um mistério, deixa de ser uma ameaça difusa, e toma uma forma. Quando Jó olha Deus de frente, quando ele vê o Absoluto, vê a si mesmo e compreende, então, que a origem do mal é completamente objetiva. Ao encarar Deus, Jó se apropria de Deus. Ele entende, aí, que só ele mesmo pode se livrar do mal. É o momento em que se liberta também da mistificação do mistério – livra-se da idéia de que o mal tem sempre uma origem misteriosa – e passa a entender o que ele é. É esse o momento mais formidável de Jó.

Valor: Em geral, reduz-se a figura de Jó a uma caricatura, a do homem que tem uma paciência infinita. O sr. o vê, ao contrário, como um homem que se engaja na luta e na ação.

Negri: Jó é um personagem ativo. É um homem que constrói riquezas com seu trabalho, é um homem feliz, que deseja entender a existência do mal. Reduz-se Jó, em geral, a uma caricatura – por exemplo, quando se fala da “paciência de Jô”. Contudo, a idéia de que Jó é um homem que sofre pacificamente é falsa. Ele está sempre em luta contra o mal, ele o enfrenta e o combate. Por que o mal? Por que Deus permite o mal? – essa é sua grande pergunta. Já que não há nada que justifique o mal.

Valor: O poeta italiano Giacomo Leopardi (1789-1837), conhecido por seu pessimismo, é outro personagem importante em suas reflexões sobre o sofrimento. Também para Leopardi, a dor não leva ao imobilismo. Ao contrário, ele dizia que o homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa. Em que medida Leopardi e Jó se aproximam?

“A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz o presidente Bush”

Negri: Escrevi um livro sobre Leopardi, “Lenta Ginestra”, ensaio sobre a ontologia, que se inspira em um de seus últimos poemas. Creio que existe uma comparação positiva entre Jó e Leopardi. Para os dois, é a comunidade dos homens que se opõe e enfrenta o mal. Os dois me ajudam a lutar contra as escolas pessimistas de pensamento. Na verdade, não é uma questão de pessimismo ou de otimismo, mas, sim, da capacidade humana de se organizar para agir e para reagir. Não se trata de escolher entre o pessimismo de Leopardi e de Schopenhauer ou o otimismo, por exemplo, dos marxistas. Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro.

Valor: O sr. começou a escrever Jó na prisão, em um momento no qual não tinha perspectivas a respeito da reconquista da liberdade. Em que medida essa experiência pessoal do sofrimento marca sua obra?

Negri: Escrevi tanto sobre Jó como sobre Leopardi atrás das grades. Havia, sim, um sofrimento pessoal que me mobilizava, mas era um sofrimento concreto. No meu caso, o sofrimento provinha da falta absoluta de liberdade e também da falta de perspectiva de reconquista da liberdade. Não era um sofrimento misterioso. Eram coisas concretas e bem visíveis que me influenciaram, como, por exemplo, a percepção que passei a ter da derrota política. O trabalho que fiz na prisão foi não só de interpretação do sofrimento, mas também de construção de um pensamento. Foram coisas que andaram juntas. São coisas, é verdade, que saíram de meu sofrimento. Mas não basta ficar no sofrimento, o importante é ligá-lo aos fatos históricos. E enfatizar que podemos ver esse sofrimento na perspectiva racional, isto é, em uma perspectiva clara. Que é possível conservar uma concepção racional não só do sofrimento, mas também da história e da vida como um todo.

Valor: Hoje se fala muito de um crescente mal-estar que acomete todo o planeta. Um mal-estar difuso, que penetra nas zonas mais inesperadas e, freqüentemente, se esquiva de uma definição e de um nome. Ele se associa ao vazio, à descrença no futuro, ao desencanto, e sua presença, parece, se torna cada vez avassaladora.

Negri: Sim, existe hoje uma visão mística do sofrimento. Ela é alimentada pelos adeptos da new age, do esoterismo, do orientalismo. É estimulada por todos os que afirmam que o sofrimento é místico. O Brasil é o país de Paulo Coelho. Já escrevi sobre Coelho para a “Folha de S. Paulo”. A penetração de seus livros dá uma boa indicação do que você fala. Em seu país, a concepção mística do sofrimento foi enfrentada com firmeza pelos padres da Teologia da Libertação. Eles tiveram a coragem de introduzir no catolicismo a possibilidade de mudança e de luta. Sou um grande admirador dos ensaios de Leonardo Boff. Eles oferecem uma visão que é cristã, mas é também materialista e muito forte, muito potente. Mesmo os cristãos não podem descartar, não podem deixar em segundo plano, o aspecto material. Ele está presente, por exemplo, na doutrina da ressurreição da carne após a morte. O corpo que reaparece, o corpo que renasce, o que ele é? Ele é matéria. Logo, mesmo na tradição cristã, existe um forte componente material. Muitos cristãos não conferem a devida importância a essa idéia do corpo ressuscitado. Insisto: o que ressuscita é o corpo, é a matéria. Portanto: o corpo está no centro da fé. Quanto a Paulo Coelho, do mesmo modo, não me parece que o sucesso dele seja muito místico… É muito mais um sucesso material, ligado, portanto, à matéria também.

Valor: Associa-se sempre esse cenário de esvaziamento e de amortecimento da razão ao mundo pós-moderno. Fala-se ainda na vigência de um “pensamento fraco”, que seria uma característica nefasta do novo século. O sr. compartilha essa visão?

Negri: Não posso negar que o nascimento de pós-moderno delimita a aparição de um “pensamento fraco”. Surge uma forte negação da história, negação do valor do trabalho e, sobretudo, negação da luta. O pós-modernismo nada mais é que a negação, o ultrapassar dos valores da modernidade. Existe, de fato, essa tendência negativa. Mas existe também uma reação, uma busca do saber, o investimento em uma nova organização social, em uma nova ordem e também em uma nova razão. Uma volta a valores da modernidade, mas em uma perspectiva nova, que dá mais força ao individualismo. Esse seria o lado positivo do pós-modernismo.

Valor: Como seria essa nova razão? O papa Bento XVI diz, por exemplo, que a aproximação de Deus não se dá pela palavra, isto é, pela razão, mas “por atração”. Como o sr. vê a idéia?

Negri: Primeiro, é preciso pensar o que é a razão. A razão é muito mais rica que a razão instrumental e eurocêntrica. Particularmente, estou convencido de que a razão é extremamente corporal e vibrante. Mas essa característica biológica da razão não nos tira a responsabilidade sobre ela. A idéia de engajamento “por atração”, como sugere Bento XVI, tira do homem a responsabilidade de sujeito. Todos esses sujeitos do fanatismo e do extremismo são exatamente sujeitos que abdicaram da razão e, por isso, se tornaram muito perigosos. São perigosos, sobretudo, porque negam as singularidades e as particularidades. A grande luta, hoje, é a da afirmação do múltiplo e da democracia. A identidade está sempre ligada à multiplicidade. E é a partir dela que podemos agir. No fanatismo, ao contrário, há uma espécie de identidade fixa. O fanatismo religioso, o patriotismo e o nacionalismo se apóiam, sempre, em uma identidade fixa – pelo menos quando vista de fora. Contudo, por dentro atuam, como diz o papa, “por atração”. É a dinâmica de uma espécie de monstro que devora seus adeptos. Isso, a meu ver, significa o fim da liberdade. E a liberdade é imensamente importante para o futuro da humanidade.

Valor: É a fixação na idéia do mal que leva à paralisia, ao desencanto e ao vazio?

Negri: No “Livro de Jó”, o diabo é uma espécie de burocrata que domina a visão que se tem de Deus e é, em resumo, quem lhe dá forma e identidade. Toda a luta de Jó é para se livrar da burocracia, isto é, para se livrar dessa mediação controlada pelo diabo. E, desse modo, ver Deus diretamente. Olhar Deus cara a cara, afastando o diabo dessa relação. A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz, por exemplo, o presidente Bush. É essa luta prioritária contra o mal, que coloca sempre a figura do diabo na frente, que leva ao extremismo absurdo, por exemplo, dos ocidentais contra os orientais. A partir do momento em que se pensa em termos de dualidade, toda a complexidade do mundo é reduzida a uma luta de civilizações, o que é não só absurdo, mas perigoso. O extremismo nega as singularidades. Se você reduz tudo a uma luta de Deus contra o diabo, ou do diabo contra Deus, cai em uma armadilha de que é muito difícil sair.