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Drogadição e Espiritualidade Daime – um estudo de caso maio 27, 2008

Posted by psicologiadareligiao in Pesquisas em Psic. da Relig., Saúde e Religiosidade, Santo Daime, subjetivação.
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Livea Oliveira fez seu Trabalho de Conclusão de Curso tendo como tema a Espiritualidade Daime e a reestruturação psíquica de drogadictos. Em sua pesquisa, Oliveira “buscou obter uma possível compreensão sobre as transformações alcançadas por um ex-adicto após seu ingresso à Doutrina do Santo Daime, ‘curado’ a partir desse modelo terapêutico-espiritual”.

O método utilizado foi o de “estudo de caso” – com base na história de vida de um sujeito convertido à religiosidade Daime, nomeado como Pedro, na apresentação do estudo. Oliveira verificou em sua pesquisa que

a partir do ingresso de Pedro na Doutrina e sua vinculação com os valores e filosofia propostos e aceitos, uma razoável reestruturação de seu funcionamento psíquico, observados suas interações com os outros, anteriormente caracterizadas por agressão e poder ao invés de vinculação, para um relacionamento mais saudável, cessando a agressividade e emergindo o respeito pela individualidade de outrem.”

O estudo realizado por Oliveira leva-a a concluir que

a religiosidade, como a “cura da alma”, possibilita ao sujeito recriar sua realidade, empreendendo junto com ele a trajetória rumo a “cura”. E, a este, cônscio de sua realidade, deve ser possível encontrar na espiritualidade, condições para que seu fortalecimento psíquico, habilitando-o ao enfrentamento de suas limitações e, além disso, deve propiciar a emersão de uma conversão emocional perene, na qual uma reflexão ininterrupta e sincera acerca de prioridades, valores e propósitos direcionem o modo de existir de um indivíduo que, encontrando seu continente na religião, busca comprometidamente em sua empreitada, reintegrar e reafirmar construtivamente suas potencialidades, proporcionando-lhe paz e determinação duradouras.”

O texto da autora pode ser acessado aqui: drogadicao-e-espiritualidade-daime-liveaoliveira

Ética, Violência e Indiferença – O lugar do outro na subjetivação contemporânea dezembro 20, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, cuidado, Religião e Sociedade, subjetivação.
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Questões relacionadas ao tema Ética e Psicologia da Religião envolvem um amplo debate. Podemos abordá-las a partir de diferentes enfoques e acessos, por exemplo, a partir de situações aparentemente simples, vividas em nosso cotidiano, aquelas que parecem dizer respeito só a nós mesmos como indivíduos. Elas podem ser pensadas, também, a partir de outras situações mais amplas, envolvendo o coletivo. O jejum do Frei Luiz Cappio e a sua disposição radical em fazer com que governo e sociedade percebam a extensão das implicações do Projeto de transposição do Rio São Francisco levanta questões de extrema importância diretamente relacionadas ao tema da ética e religião. Várias pessoas opinam e defendem que Igreja e Governo devem ser instâncias separadas e classificam, por conseguinte, como ridículo o jejum do Frei como estratégia de luta por uma sociedade mais justa. Poderiam ser risíveis, se não fossem uma tentativa de banalização do gesto, críticas do tipo: “imagina se a moda de greve de fome pega como forma de impedir o governo de executar os seus projetos?!”

Será mesmo que essa “moda” emplacaria? Por maiores que pudessem ser os esforços dos “criadores de mundo e de desejo”, a moda do “jejum e oração” ou mesmo da “greve de fome” em defesa de um projeto coletivo, parece apontar muito mais para uma estética da vida que implica em escolhas livres, éticas, pensadas e vividas em função do modo de existência que tais escolhas implicam. Nada tem a ver com a estética da moda que se consome em cada nova estação. Uma estética existencial, que se apóia na decisão de lutar até às últimas consequências por um modelo de vida em sociedade diverso do modelo dominante, não parece algo passível de ser produzido como se produz a estética da moda. Quantos outros aderiram ao jejum, mesmo acreditando e apoiando a luta de Cappio? (“É moda, vamos lá…”)

Em meio a isso, provavelmente a maioria que tem ouvido essa “história da greve do frei”, sente algo que apóia o pensamento: “Esse projeto não me diz respeito!”. “Isto é coisa entre o governo e o povo do semi-árido”. “Tenho nada a ver com isto!”. A indiferença grassa entre nós como mecanismo de defesa, fazendo-nos pensar/agir/sentir a partir da ilusão de que vive-se melhor quando separamos “o que é de interesse do outro”, do que “é meu interesse”. Ainda não nos demos conta de que muito da violência que se configura em nossa sociedade contemporânea assenta-se sobre essa forma de pensamento e comportamento em que se separa o cuidado de si do cuidado do outro.

A reflexão sobre ética, violência e indiferença e a relação dessas questões com o nosso modo contemporâneo de subjetivação está apenas iniciada aqui. Ela segue adiante, com a ajuda do texto do psicanalista Jurandir Freire Costa, que vc pode acessar abaixo. Mas vc também pode colaborar, deixando aqui as suas idéias sobre o tema.

Segue o texto de J. F. Costa: Transcendência e Violência

Caso vc queira ler, ainda, outros textos relevantes sobre o tema, acesse também:

A Estética Foucaultiana

Freud e Winnicott – Moral e Ética

Sacrifício como doação de si – uma idéia estranha ao modo de subjetivação contemporâneo dezembro 4, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, Religião e Sociedade, sacrifício, Sagrado, subjetivação.
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Frei Cappio

(Veja o site da campanha: Uma vida pela vida
http://www.umavidapelavida.com.br/default.asp
)

Retiro uma pequena parte da reflexão sobre sacrifício, desenvolvida em minha tese de doutorado, para pensarmos um pouco sobre a greve de fome que Frei Cappio está fazendo, como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco.

A palavra sacrifício tem, pelo menos, três significados. Do latin: sacrificium deriva da conjunção de sacer: sacro, santo e facere: fazer. A base etimológica da palavra nos dá a idéia de “fazer santo”, “tornar sacro”, indicando o sacrifício como um processo de santificação, um ato de separação ou de consagração de alguma coisa. Do alemão, a palavra Opfer tem o sentido de sacrifício, oferta. A raiz desta palavra aponta a idéia da dádiva, da oferta, do presentear como “tornar algo sacro”.

Mas encontramos, também, a palavra sacrifício no discurso popular, no mass midia, até mesmo nos discursos de economia, indicando um uso fora do contexto religioso. Neste caso, sacrifício toma o sentido de renúncia, de abrir mão de alguma coisa de valor em troca de uma outra de valor maior. Implica, portanto, a presença de um certo nível de sofrimento na ação de, voluntária ou obrigatoriamente, renunciar a algo de valor na expectativa de retorno de um bem que ultrapasse o valor daquilo que se entregou no ato do sacrifício.

Hoje é o sétimo dia da greve de fome realizada pelo Frei Cappio! Uma greve de fome como forma de luta em favor da revitalização do Rio São Francisco. O assunto é polêmico. O espaço desse post não comporta uma apresentação aprofundada sobre o tema. Contudo, é interessante pensar que nenhum ser humano estaria disposto a dar sua própria vida em favor de uma causa se não acreditasse nela. Frei Cappio luta em favor de uma causa que beneficia os “muitos” – e não uns poucos. Seria, o gesto de Frei Cappio, uma forma de sacrifício?

Costumo dizer que no modo de subjetivação contemporâneo ninguém quer sacrificar-se por outros. Estamos dispostos a fazer sacrifícios (renúncia de um bem em favor de um bem maior) apenas em favor de nós mesmos. Em outras palavras, fazemos “investimentos em nós mesmos”, mas sacrifícios em favor de outros?… mais fácil choramingar sobre as atitudes egoístas (dos outros!) dizendo: “ah, todo mundo pensa em si, só eu penso em mim!”

Frei Cappio pensa no benefício de outros que não têm voz para expressar a perda que acontecerá com a transposição do Rio. Ele pensa, age, e enfrenta as conseqências de sua escolha ética. Dois anos atrás, Frei Cappio fez o mesmo. Finalmente o presidente Lula aceitou uma conversa e fez “promessas”. O que mudou de lá pra cá? As obras de transposição foram retomadas. A revitalização do rio não foi levada à sério. Muitas agências apóiam a luta de Cappio. A mídia no entanto, tem dado pouco relevo ao protesto. Parece dizer em silêncio: “não adianta! É uma luta perdida!”.

Deixaremos Frei Cappio sozinho nessa luta? O que podemos fazer sobre isso?

Vc pode apoiar o gesto de resistência do Frei Cappio, manifestando-se no site: Uma vida pela vida – http://www.umavidapelavida.com.br/manifestacoes.asp

Segundo a ADITAL – Agência de Notícias, “para apoiar a atitude de Cappio, é essencial mandar um fax para os endereços na lista abaixo com a carta em anexo. É importante mandar uma copia oculta (cco:) para o e-mail apoio.dom.cappio@gmail.com para que possa ser contabilizado o número de cartas enviadas ao Governo.”

Lista de Endereços
Presidência da República
e-mail: presidencia@planalto.gov.br
e-mail: protocolo@planalto.gov.br
e-mail: gabinete@planalto.gov.br
Fax: (0055) 61 3411 1865

Ministro de Integração Geddel Vieira Lima
e-mail: pedro.sanguinetti@integracao.gov.br
Fax: (0055) 61 3321 3122

Ministra do Meio Ambiente Marina Silva
e-mail: marina.silva@mma.gov.br
Fax: (0055) 61 3317-1755

Supremo Tribunal Federal:
Gabinete Ministra Ellen Gracie (Presidente)
e-mail: ellengracie@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174249

Gabinete Ministro Gilmar Mendes (Vice-Presidente)
e-mail: mgilmar@stf.gov.br
Fax: (0055) 61 32174189

Para saber mais sobre a luta de Frei Cappio, acesse: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29086&busca=frei%20luiz%20cappioPara saber mais detalhes sobre o projeto de transposição do Rio, faça um download da Revista: “Águas da Ilusão“.

Sobre o gesto de Frei Cappio como luta pela vida, leia uma análise do missiólogo católico, Paulo Suess, publicada em outubro/2005: “Cappio, Cabrobó, Cúria. O profeta entre a Igreja e o Estado”

Para ter acesso a um dossiê sobre a ocupação do Rio São Francisco e outras informações sobre o assunto, vc pode acessar o site: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Mais informações em: http://imediata.org/index.php?page_id=86%22_blank%22

Sobre a polêmica na Igreja Católica, a respeito da greve de fome do Frei Cappio: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u350971.shtml

O que diz o Ministro da Integração Nacional: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u349959.shtml

Morte, Sofrimento e as Dores de cada dia – o que “pode” a subjetividade hoje? novembro 14, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Religião e Sociedade, sofrimento, subjetivação.
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Ressurreição de Lázaro

Sei que tenho repetido várias vezes, aqui mesmo, que no modo contemporâneo de subjetivação “é feio sofrer”. Vivemos hoje, sob a tirania do gozo, como se fosse proibido sofrer, como se o sofrimento fosse um “defeito”. É claro que ninguém quer sofrer. “Ninguém quer a morte, só saúde e sorte”, canta Gonzaguinha. Mas o sofrimento é uma experiência que faz parte da vida. Dizer isso não significa que temos de “desejar” o sofrimento como se fosse algo virtuoso, como se as experiências de sofrimento tivessem poder “de nos levar ao céu”. Mas exorcizá-lo como se fosse demoníaco nos impede de viver a vida em sua inteireza. A experiência de sofrimento – nossa ou do outro – pode ser uma oportunidade de nos tornarmos mais humanizados, criativos… mais capazes de dar consistência e sentido à nossa existencialidade.

Nem aceitar o sofrimento com resignação, numa atitude religiosa de “aperfeiçoamento” do espírito, nem exorcizá-lo como sendo atuação do demônio – mas acolher a dor e compartilhar o sofrimento nos torna mais fortes no sentido em que aumenta nossa potência de existir.

Com a indústria farmacêutica em alta é mais fácil lançar mão de um anti-depressivo, um ansiolítico, ou mesmo algo para nos ajudar a dormir. Também certas formas de religiosidade contemporânea, portando promessas de acabar com o sofrimento, tornam-se bastante atrativas. Em algumas ocasiões ou alguns casos, o uso de medicação realmente se faz necessário. Mas tem havido uma atitude generalizada de simplesmente querer afastar a dor a qualquer preço. É por isso que ficamos sem saber o que fazer com nossas próprias dores e lutos, e também com os lutos dos outros. Quando alguém em luto se aproxima e começa a falar da sua dor logo vem a tentativa de minimizar a situação, salientando as coisas boas da vida, mostrando os motivos que o outro tem para não se deixar abater, etc, como se não fosse permitido sofrer… Nesse momento, tudo o que o outro precisa é apenas um espaço de escuta e acolhimento para expressar a sua dor.

Quanto espaço temos permitido para nossas próprias dores e para as dores do outro? Quanto temos sido capazes de afirmar a vida em meio às dores do processo de existir?

Segue uma entrevista com o psiquiatra inglês, Colin Murray Parkes, publicada na Veja, em agosto desse ano sobre “A dor da morte”- vale a pena (re)lê-la.

A dor da morte

Acesse também:

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência

Subjetivação contemporânea e Religiosidade novembro 3, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, forças de narcisação, forças reativas de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, narcisismo, produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
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Qual é o papel, a função, ou mesmo a utilidade da religião no modo contemporâneo de subjetivação? Em especial, numa configuração social cuja “política de subjetivação” (criação de modos de existência) volta-se essencialmente para o indivíduo, seu prazer e bem-estar, de que modo as atuais formas de expressão religiosa se dinamizam?

Lembremos, como bem observa Rolnik, que cada configuração sócio-histórica cria suas próprias “políticas de subjetivação” para sustentar o seu próprio sistema. Ou seja, cada regime cria suas variações a respeito do lugar do outro e da política de relação que com ele se estabelece. Evidentemente, as religiões também participam das políticas de subjetivação vigentes – quer seja na promoção de uma religiosidade voltada à deglutição acrítica e reprodução do mesmo – quer seja pela potência de criação de alternativas de outros modos de existência. É claro que entre um pólo e outro, existem várias outras formas.

No texto: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea” , faço uma análise da experiência religiosa promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), especialmente a partir da sua proposta de sacrifício (do dinheiro). Trabalho, no texto, com a “concepção de narcisismo ativo e reativo e defendo a idéia de que a prática do sacrifício, tal como proposta pela IURD, articula elementos do narcisismo reativo e estabelece-se como uma tecnologia do eu, usada como remédio para lidar com a experiência contemporânea da vergonha” (Esperandio, 2007, p. 19).

O texto foi publicado na Revista Psicologia & Sociedade, vol. 19, nr. 2. e você pode acessá-lo aqui: “Narcisismo reativo e experiência religiosa contemporânea: culpa substituída pela vergonha?”

Nas palavras da editora Cleci Maraschim, este número da Revista Psicologia & Sociedade “traz novamente uma série de artigos de pesquisadores que trabalham no campo da Psicologia Social e em suas interfaces com as Ciências Humanas, Sociais”. Você pode ter acesso ao conteúdo completo da revista, que está disponível também em formato online em: http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewissue.php?id=14

“Fazer multidão”: o desafio prático da teorização negriana do Comum outubro 30, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, comum, multidão, produção de subjetividade, subjetivação.
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Abrindo a reflexão…

No começo deste ano, encontrei a seguinte frase de Deleuze num blog:

“Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver.”

Como não havia referência sobre o lugar de onde a frase havia sido retirada, escrevi ao proprietário do blog perguntando. Ele não apenas me deu a referência exata: “DELEUZE, G. – Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 1994. p.17-18, como me mandou o livro de presente, pelo correio – o livro viajou de Minas Gerais a Porto Alegre. O gesto do prof. Eduardo Simonini me comoveu.

Faço uma ponte desse acontecimento com um outro, para fomentar a reflexão…

Foi em meio a um estudo mais aprofundado sobre Pós-Modernidade – que resultou na publicação do livro “Para entender Pós-Modernidade” (da série: Para entender – da Editora Sinodal) – que os conceitos de multidão e de comum, de Negri, fizeram um novo sentido pra mim. A despeito de várias críticas que tenho lido sobre o pensamento de Negri e Hardt, esses autores, juntamente com Virno, Lazzarato, Cocco e mais alguns outros, têm sido, em minha opinião, alguns dos pensadores da atualidade cuja reflexão teórica possibilita dialogar com distintos campos de saber, como a Tecnológica-Informacional e as diferentes áreas no campo das Humanas (inclusive a Psicanálise) no sentido de pensar alternativas possíveis à produção maciça de empobrecimento da subjetividade na contemporaneidade.

Qual a potência constituinte dessas noções de multidão e comum no que diz respeito a invenção de outras alternativas face a subjetivação contemporânea que contempla a hiperindividualização, a competição, o auto-interesse, a troca baseada no lucro sobre o outro?

Alguns subsídios para pensar a questão…

1. Sobre a noção de multidão

Em Gramática da Multidão, Virno observa que foi sobre o racionalismo moderno que se construiu, entre outras narrativas, a idéia de povo. Para ele,

a alternativa entre ‘povo’ e ‘multidão’ esteve no centro das controvérsias práticas (fundação do Estado centralizado moderno, guerras religiosas, etc.) e teórico-filosóficas do Século XVII. Esses dois conceitos em luta, forjados no fogo de agudos contrastes, jogaram um papel de enorme importância na definição das categorias sócio-políticas da modernidade. A noção de ‘povo’ foi a prevalecente. ‘Multidão’ foi o termo derrotado, o conceito que perdeu” (Virno, 2003, online).

Não nos esqueçamos: foi ancorado na idéia moderna de “povo” que o mundo assistiu ao quase extermínio de todo o povo judeu!!

Virno faz as seguintes observações contrapondo povo e multidão:

“o povo tende para o Uno. Os ‘múltiplos’ derivam-se do Uno. Para o povo, a universalidade é uma promessa; para os ‘múltiplos’, é uma premissa”. E cita Hobbes: “o povo é um Uno, porque tem uma única vontade e, a quem se lhe pode atribuir uma vontade única” (apud Virno, 2003, online).

A multidão pode tomar diferentes formas: a de povo (com uma identidade) a de massa (homogênea) e a forma da multidão: “uma multiplicidade de singularidades”.

“a multidão é a forma de existência política e social dos muitos enquanto muitos: forma permanente, não episódica nem intersticial” (Virno, 2003, online).

Negri, por sua vez, afirma: “cada corpo é uma multidão”. Contudo, esse corpo só existe em relação com o outro. Multidão é, então, “um conjunto de singularidades cooperantes que se apresentam como uma rede, uma network, um conjunto que define as singularidades em suas relações umas com as outras” (Negri, 2005, online).

2. Sobre o comum…

Dois momentos de um processo…

Primeiro – Quem não se recorda dos acontecimentos em Paris, no final de outubro e começo de novembro de 2005? Na periferia de Clichy-sous-Bois, cidade localizada na região metropolitana de Paris, acontece um assalto e o proprietário chama a polícia. A polícia vê dois adolescentes negros e se aproxima para checar informações. Embora nada tivessem a ver com o ocorrido, por medo dos policiais os adolescentes fogem. Na fuga, morrem eletrocutados ao tentarem se esconder num transformador de energia. Esse acontecimento faz irromper toda uma fúria reprimida e durante dias seguidos, começa uma onda de queima de carros como forma de um protesto raivoso contra as mortes dos adolescentes. Há um contágio dessa violência que passa a tomar forma de expressão em diferentes regiões do país.

Sobre isso, o prof. Malini escreve no texto de defesa de sua tese de doutoramento:

Na Internet, um dos amigos das vítimas acaba criando um blog para homenageá-las, o “Bouna et Zied”, estampando o slogan que marcou o acontecimento: Mort pour Rien (Mortos à toa). A Polícia acusa o blog de estimular as manifestações violentas da juventude pobre nas periferias. E o site é retirado do ar pelo seu servidor. O mesmo se repete com outros blogs, que passaram, num primeiro momento, a emitir opiniões e manifestos sobre a morte de Bouna e Zieda; e depois para emitir um boletim sobre o como havia sido o protesto naquele dia. Mais de 1700 blogs debatem o tema, sem contar a diversidade de publicações e listas de discussão online. Muitos blogueiros são interpelados pela Polícias que os enquadram na lei francesa por atos criminais. A nova lei penal francesa pune aqueles que fazem, por meio da comunicação eletrônica, provocações que surjam efeitos na sociedade.

(…) A revolta da periferia logo chega no Youtube e no DailyMotion, onde são hospedados mais de 1000 vídeos relacionados ao caso. Juntos esses filmes foram exibidos alguns milhões de vezes. E ainda continuam lá, provocando debates, comentários e novas exibições. Houve ainda a publicação de entrevista, na forma de áudio, audiovisual ou texto escrito, com os pais dos adolescentes e os jovens que participam do conflito, em vários pequenos jornais de alcance regional e comunitário. É uma explosão de sentidos que escapam aquela velha lógica da repetição da mesma informação nos veículos de comunicação de massa, a circulação circular da informação que falava Pierre Bourdieu, haja visto o fato de nós, jornalistas, nos pautarmos muitas vezes pelo o que os outros jornais estão agendando. (…)

Paralelo a isso os jornalistas tinham dificuldades de entrar na zona de combate, e de dentro, jovens se comunicavam pelo celular para resistir a Polícia e continuavam a publicar conteúdos na Internet e a estimular a participação da sociedade, agora em nível global, sobre o significado do conflito.

Segundo – Ontem, a Rede Globo exibiu no Fantástico uma reportagem feita por Regina Casé, a respeito de como vive essa comunidade, hoje. Os registros dos acontecimentos daquela época foram organizados em forma de um vídeo-documentário, com finalidade de mostrar ao mundo uma outra versão dos fatos, narrada na perspectiva dos próprios participantes.

A identificação com o outro – base onde se pode construir o comum – pode tanto se expressar em um viés destrutivo (de si e do outro) quanto afirmativo, criador e produtor de outras singularizações.

Para continuar pensando…

Talvez uma das dificuldades de fazer a passagem do “ser multidão” para “fazer multidão” tenha a ver com nossa fraca capacidade de criação de outras formas de pensamento (me lembro da citação de Deluze, no início desse post) e de relação com o outro, a fim de que a base de identificação entre singularidades potencialize um “comum” afirmativo de outras existencialidades possíveis – um comum que extrapole crenças religiosas, assunção intelectual de teorias filosófico-ideológicas, idealizações de diferentes espécies, etc…

Quais outras dificuldades ainda poderíamos listar? Compartilhe aqui a sua idéia… quem sabe poderemos construir alguma coisa bela sobre uma base comum?

Se vc quiser acessar a “Gramática da Multidão – Para uma análise das formas de vida contemporâneas”, de Paolo Virno, acesse o site: http://br.geocities.com/autoconvocad/gramatica_da_multidao.html

Para ler a entrevista com A. Negri onde ele menciona o “ser multidão” e “fazer multidão, acesse o site: http://www.universidadenomade.org.br/full_text.shtml?x=2574

Além da entrevista, vc pode acessar também a palestra de Negri sobre: AConstituição do Comum

O texto do Prof. Malini está em: http://fabiomalini.wordpress.com/2007/04/29/o-comunismo-das-redes/
(Texto completo onde o Prof. Malini narra os eventos acima: Comunismo das Redes)

 

 

O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

Posted by psicologiadareligiao in ética, forças de narcisação, Igreja Universal do Reino de Deus, Religião e Sociedade, sacrifício, sofrimento, subjetivação.
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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

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Ainda sobre Pesquisa em Psicologia da Religião setembro 1, 2007

Posted by psicologiadareligiao in culpa, narcisismo, Pesquisas em Psic. da Relig., produção de subjetividade, sacrifício, subjetivação, vergonha.
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Numa análise dos 8 grupos de trabalho que aglutinaram pesquisas em Psicologia da Religião, conforme apresentados no VI Seminário de Psicologia da Religião e Senso Religioso, pode-se depreender uma ausência importante de uma “linha” de pesquisa: a dos processos de subjetivação e produção de subjetividade. Meu interesse na pesquisa em Psicologia da Religião vai por essa via. Assim, apresentei um trabalho no Grupo 2: Psicologia, Experiência Religiosa e Cultura, por ser o GT onde minha pesquisa mais se aproximava. Mas descobri ali que esse referencial teórico sobre “subjetivação e produção de subjetividade” nem passa perto. A reflexão do GT se sustenta ainda numa “tensão” entre indivíduo e cultura – conforme o Coordenador do Grupo se expressou. Penso que está aí um campo de grande relevância a ser explorado. E estou a fim de perseguir esse caminho. Mas gostaria de fazê-lo acompanhada, de algum modo. Espero que outras pessoas que se interessem por esse tema façam contato, e juntos, possamos criar um trabalho de “multidão”, como diz o Negri, no sentido de construir algo novo a partir de uma base “em comum”. No GT, apresentei um trabalho sob o título: “Subjetividade Contemporânea, Sacrifício e Igreja Universal do Reino de Deus: culpa substituída pela vergonha?”. Este trabalho tem a ver com minha tese de doutorado, defendida no ano passado, na EST/IEPG. A tese é de domínio público, mas espero transformá-la em livro logo, depois de “enxugar” o conteúdo e diminuir o número de páginas. Creio que vale a pena fazer isso, pois o tema, “Narcisismo e Sacrifício – Modo de subjetivação e Religiosidade Contemporânea”, é de grande relevância para a reflexão a respeito do nosso modo de existência hoje. E então, alguém se habilita a trilhar esse caminho?