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O nascimento da Record News – breves considerações a partir da Psicologia da Religião e da prática contemporânea da “capitalização” do sofrimento setembro 28, 2007

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Está no ar o Record News! A cerimônia de abertura, apresentada pelo jornalista Celso Freitas, começou do seguinte modo:

Senhoras e Senhores, boa noite! 27 de setembro de dois mil e sete: uma data histórica para televisão brasileira. Há 54 anos, exatamente às 8 da noite, nascia a TV Record, canal 7, de São Paulo, a emissora mais antiga em atividade no país. Em 1989, a Record chegou à beira da falência. Mas um projeto empresarial audacioso salvou a pequena emissora e a transformou, hoje, num dos principais veículos de comunicação do país: a segunda televisão mais assistida do Brasil e a caminho da liderança. Esta noite, mais um passo. Mais uma vitória: o lançamento do primeiro canal de jornalismo 24 horas em TV aberta – A Record News! Nesse espaço solene do palco do Teatro Record em São Paulo, estão presentes, o Exmo. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o Exmo. Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, o Exmo. Governador de São Paulo, José Serra, o Exmo. Prefeito da cidade de cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, o Ilmo. presidente da Rede Record, Alexandre Raposo e o Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra.”

De fato, foi em 1989 que a Igreja Universal do Reino de Deus, representada por seu fundador, bispo Edir Macedo, comprou a Rede Record por U$ 45 milhões. De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, que em 1999 publicou resultados de sua pesquisa sobre os neo-pentecostais no Brasil,

para comprar esta tradicional, porém decadente e virtualmente falida rede de televisão – com uma dívida na faixa de 300 milhões de dólares, posteriormente quitada -, a liderança da igreja, oculta na transação, feita por testas-de-ferro, não mediu esforços, ou melhor sacrifícios. Realizou a campanha ‘sacrifício de Isaac’, na qual seus pastores doaram cinco salários mensais, carros, casas e apartamentos. Com o mesmo espírito de renúncia e despojamento, fiéis de todo o país foram convocados a participar do sacrifício, doando, além de dízimos e ofertas, jóias, poupança e propriedades. Desde então, a Universal não parou mais de fazer aquisições e negócios milionários (Mariano, 1999, p. 66).

Embora o sacrifício para angariar o valor pago pela compra da TV Record tenha sido coletivo, a Record tem um proprietário: o bispo Edir Macedo – que na cerimônia de abertura, foi apresentado sem o título de bispo, mas como o “Ilmo. proprietário da Rede Record, Sr. Edir Macedo Bezerra”.

Respiremos fundo! Vamos pensar um pouquinho! Entretanto, nesse espaço de reflexão, queremos apenas instigar o pensamento acerca das relações (um tanto opacizadas, hoje) entre a forma de religiosidade promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) – da qual Edir Macedo é fundador –, o modo como o sofrimento é encarado na contemporaneidade e o nascimento da Record News.

A IURD nasceu em 1977 e nos surpreende com seu crescimento vertiginoso nestes 30 anos de existência. Seu fundador exibe com audácia e orgulho, a prosperidade que promete a seus seguidores. Essa igreja se estabeleceu, a meu ver, sobre a “capitalização” do sofrimento. Sua propaganda-convite convoca o sujeito a participar das “reuniões da felicidade”. Em diferentes línguas, seu slogan ao redor do mundo é: “Pare de sofrer”. Ela promete acabar com: “depressão, ataque de pânico, dores de cabeça, ansiedade, desemprego, solidão, alcoolismo, envolvimento com drogas, problemas familiares, dívidas e doenças graves: câncer e vírus do HIV”. Sua preocupação é com o bem-estar e a felicidade do indivíduo.

Para quem não conhece o modo de funcionamento da IURD: ela acolhe, diariamente, em seus templos, centenas de pessoas que sofrem, promovendo reuniões que acontecem em torno de 5 a 7 vezes por dia, dependendo do país. Às segundas feiras, suas reuniões se voltam para o tratamento dos sofrimentos advindos do desemprego e dificuldade nos negócios. É o dia do “Congresso dos Empresários”. “Sessão de Descarrego e Cura” cujo objetivo é dar conta dos problemas de saúde física, mental e espiritual é o tema das reuniões de terça-feira. Às quartas-feiras, estudam-se textos bíblicos que embasam a proposta do sacrifício. Às quintas-feiras, problemas familiares. Às sextas-feiras, libertação pessoal com muitas orações de exorcismo. Aos sábados, Terapia do Amor e aos domingos, a chamada “Terapia Espiritual”.

O sujeito que se abre a uma experiência religiosa pressupondo que a religião tem poder para “curar” sua sensação de mal-estar difuso é acolhido na IURD com singular empatia. O indivíduo sente-se “identificado” com este lugar que reúne milhares de pessoas cujas necessidades emocionais e espirituais são espelhadas. Mas, para além do sentimento de identificação, o indivíduo é instrumentalizado para a operacionalização do universo sobrenatural em seu benefício. Essa instrumentalização tem por base o ensino de uma técnica (feita por uma autoridade espiritual): o sacrifício em dinheiro.

O sacrifício funciona, então, como uma tecnologia através da qual o indivíduo busca alcançar o ideal de felicidade, bem-estar e sucesso financeiro. Ao oferecer ao indivíduo participante de uma sociedade competitiva, um conhecimento diferencial” expresso na tecnologia do sacrifício, este passa a sentir-se em vantagem em relação aos demais, pois, torna-o apto a operar técnicas que acessam o sobrenatural. Enquanto “os outros” contam apenas com os próprios recursos, ele pode contar, também, com o sobrenatural a seu favor em função do domínio da técnica do sacrifício – moeda de troca com o divino e ao mesmo tempo rito que marca a “aliança com Deus, de quem o sujeito se torna sócio e aliado”, como esclarece Macedo em seus sermões.

O funcionamento da IURD aponta, pois, para uma experiência religiosa que pode ser resumida, grosso modo, da seguinte forma: O sofrimento e o mal-estar, a pobreza material e a falta de saúde são sinais de opressão maligna, nada tem a ver com as políticas vigentes, com formas de governo e de distribuição das riquezas produzidas no país e no mundo, nem mesmo com as contingências da própria vida. A despeito disso, Deus quer que o ser humano seja próspero, rico, que goze, nesta vida, sucesso e felicidade plena – sinais de bênção divina. Este estado de gozo pode ser alcançado através de uma aliança com Deus e tem como condição uma “fé que se materializa” na realização de um sacrifício, em dinheiro. “O sacrifício é o caminho mais curto entre o querer e o realizar”, seguidamente afirma Macedo, o fundador da igreja e assim repetem os pastores, como pude observar em quase uma centena de reuniões que assisti nos templos da IURD, no Brasil e em vários outros países, quando fiz minha pesquisa para a tese de doutorado. Busca-se, nessa experiência religiosa, não um lugar onde se permita a construção de sentido para a vida. Afinal, no modo dominante de subjetivação, o sentido da vida já está dado: é ser feliz. Neste sentido, o sofrimento vivido na contemporaneidade passa a ser utilizado como “fonte de renda” por quem detém o saber de como acabar com ele de forma ágil, rápida, eficaz, mágica e “sagrada”. O slogan da IURD, “Pare de Sofrer” deve-nos dizer alguma coisa. Freud já observara que quando o corpo sofre o sujeito volta-se narcisicamente para si mesmo. E a técnica do sacrifício torna-se um instrumento para uso e solução individual para sofrimentos socialmente produzidos.

Macedo soube capitalizar muito bem os sofrimentos contemporâneos. A Rede Globo, um declarado desafeto encontrado no caminho da construção de sua prosperidade, é agora publicamente ameaçada, como se ouve na fala de Macedo, na abertura do Record News, com tom de orgulho no ressentimento guardado.

Reconhecendo a extensão desse post, encerro por aqui. Futuramente, vou disponibilizar um texto expondo com mais clareza, alguns pontos que, nesse momento, foram apenas tangenciados. Sem dúvida, a Psicologia da Religião ao colocar em evidência o processo como determinados fenômenos religiosos se constituem e a experiência religiosa que promovem, pode contribuir com a reflexão acerca das políticas de subjetivação contemporânea e acerca também da ética e do estilo de vida que tem predominado hoje. E ela pode, ainda, a partir de sua reflexão, colocar-se como parceira daqueles/as que anseiam construir algo em comum que seja expressão de afirmação e expansão da vida.

Se você deseja ler mais sobre a cerimônia de abertura, além do próprio vídeo de abertura do canal, disponível no site da Record, acesse a matéria da FolhaOnline: “Edir Macedo ataca ‘monopólio’ da Globo na estréia do Record News”.

Post relacionado: Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as condições de possibilidade da fé na contemporaneidade

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Religiosidade e Saúde – uma pesquisa etnográfica em perspectiva Jungiana setembro 24, 2007

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A reflexão sobre Saúde e Religião pode ser construída a partir de diferentes perspectivas e pressupostos. O estudo realizado por Mirian Noemia F. do Nascimento contempla o referencial teórico Jungiano para sua pesquisa etnográfica e fenomenológica de um grupo da RCC (Renovação Carismática Católica). Para pensar a relação entre saúde e religiosidade, Nascimento utiliza-se de um conceito de saúde “que comporta aspectos do bem-estar físico, social, ecológico, histórico, psíquico e espiritual” e observa que os preceitos de uma religião “pode levar o indivíduo a adotar uma atitude maior atenção e cuidado consigo mesmo, o que aumenta sua probabilidade de obter saúde”.

O resumo do artigo está publicado no seguinte endereço: http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo.php?codigo=A0359

Para acessar o artigo completo, clique aqui.

A Psicologia da Religião no Brasil – um campo “pouco explorado” ou expressão de um “sintoma”? setembro 21, 2007

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O tom provocativo contido no título tem justamente essa finalidade: provocar, de algum modo, as pessoas interessadas e/ou envolvidas no tema.

Se você é aluno/a de um curso de Psicologia e tem interesse na área da Psicologia da Religião, você sabe onde buscar informações? Há no seu curso, uma disciplina de Psicologia da Religião? Onde buscar referências, grupos de pesquisa, intituições, linhas de pesquisa em cursos de Pós-Graduação sobre Psicologia da Religião? Quais e quantas são as instituições e/ou Cursos, no Brasil, que trabalham com essa disciplina? Caso haja interesse no tema por considerá-lo relevante, e surja o desejo de aprofundar os estudos nesta área, onde começar a busca por informações – no próprio curso, com os professores, na internet?

Na verdade, não há muitas instituições de ensino no Brasil que trabalham com essa disciplina. Poucos são os cursos de Psicologia que a oferecem em sua grade curricular. É mais frequente (mas não “líquido e certo”) encontrar essa disciplina nas grades dos cursos de Teologia.

É tempo de interrogar à Psicologia, a razão para a negligência com um tema tão estudado pelo próprio Freud e por tantos outros teóricos da Psicologia. O espanto é ainda maior quando olhamos ao redor e vemos quão religioso é o nosso próprio país. Por que será que isso não afeta a Psicologia que se ensina/estuda no Brasil? Será que a Psicologia nada tem a contribuir com a reflexão sobre o fenômeno religioso e a religiosidade, ou mesmo em relação às questões ligadas à espiritualidade que surgem na clínica? Por sorte, ou talvez por menos preconceito, ou quem sabe por uma visão diferenciada, há algumas áreas que percebem a relevância do estudo da religião/religiosidade, como as Ciências Sociais, Sociologia e Antropologia. É interessante notar, também, que há pesquisas com enfoque em Psicologia da Religião dentro da Pós-Graduação em Ciências da Religião.

Mas é preciso fazer uma ressalva: existe um grupo de interessados/as no tema. Trata-se do GT Psicologia da Religião da ANPEPP. Pela leitura do documento elaborado pelo GT (ver abaixo), pode-se constatar o pequeno número de instituições no Brasil que estão desenvolvendo pesquisas na área. Essa negligência da Psicologia em relação ao tema possibilita questionar não apenas sobre as razões desse silêncio como, também, levanta a suspeita da formação de um sintoma.

Apenas como estímulo para exercitar o pensamento acerca da provocação acima, no que diz respeito ao sintoma, trago aqui dois elementos a serem considerados. O primeiro tem a ver com a opinião pessoal de Freud sobre a religião como sendo “neurose obsessiva universal”. O segundo tem a ver com as observações de Laplanche e Pontalis sobre a “formação de compromisso”: “é a partir do estudo do mecanismo da neurose obsessiva que Freud ressalta a idéia de que os sintomas têm em si mesmos a marca do conflito defensivo que resultam”.

As razões da negligência da Psicologia em relação às questões do fenômeno religioso e da religiosidade parece ser algo que demanda uma reflexão com o devido tempo para elaboração.

Contudo, a partir, da percepção desses dados, parece que está mais do que na hora de nos juntarmos aos pequenos “focos” existentes, para mudar isso. Uma tentativa, a meu ver, pode ser a de publicar aqui, as instituições, grupos de pesquisa, docentes, etc que estão envolvidos com o tema. Para isso, é preciso a colaboração dos/as usuários/as do blog. Faça-nos saber as instituições que trabalham com esse campo. Envie as informações por e-mail, ou deixe um recado aqui.

Uma nova página será criada para listar as instituições, grupos de pesquisa, etc.

Documento elaborado pelo gt-psicologia-da-religiao.doc

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IV Seminário Religião e Sociedade: O Espaço do Sagrado no Século XXI setembro 19, 2007

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O NUPPER – Núcleo Paranaense de Pesquisa em Religião – está promovendo o seu IV Seminário sobre Religião e Sociedade, a ser realizado na FEPAR – Faculdade Evangélica do Paraná, nos dias 26 e 27 de outubro de 2007.

O NUPPER “é um grupo de investigação científica independente que objetiva, sob a ótica das ciências humanas, analisar o fenômeno religioso em sua unidade e diversidade”.

O Seminário abre espaço para apresentação de trabalhos em diversos Grupos Temáticos: 1) Abordagens do Sagrado: Teoria e Método; 2) Institucionalidades Religiosas; 3) Manifestações Religiosas Populares; 4) Religião e Educação; 5) Religião e Saúde.

Como é possível perceber, o Seminário discute o espaço do sagrado a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Está aí uma ótima oportunidade para interessados na área da Psicologia da Religião marcarem presença, contribuindo com a reflexão do tema.

Mais informações a respeito do Seminário, caracterização dos Grupos Temáticos, orientação para apresentação de trabalhos e valor das inscrições, você pode acessar aqui.

Por que Freud rejeitou Deus? setembro 17, 2007

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Esta foi a pergunta motivadora que levou Ana-Maria Rizzuto a empreender uma pesquisa sobre o assunto, com resultados muito interessantes, disponibilizados ao público no livro sob o mesmo título.

Rizzuto conta que a busca por resposta à pergunta “por que Freud rejeitou Deus” começou quando se preparava para fazer uma palestra para a qual foi convidada, durante a exposição “As antiguidades de Sigmund Freud: fragmentos de um passado esquecido”, promovido pelo Freud Museum de Londres em comemoração ao qüinquagésimo aniversário da morte de Freud, no período de 28 de fevereiro a 5 de abril de 1992. Ao aceitar o convite, Rizzuto decidiu olhar mais de perto as coleções de Freud e ficou impressionada com a seguinte constatação: as “similaridades entre os objetos reproduzidos no catálogo [da exposição] e as ilustrações da Bíblia” que pertencia a Freud, presenteada por seu pai. Essa bíblia de Freud “continha mais de 500 gravuras de animais, árvores, objetos e paisagens mencionados no texto” – tratava-se, na verdade, de três volumes. Rizzuto então afirma:

Diante de mim estavam centenas de ilustrações bíblicas. Os objetos em exposição representavam apenas pouco mais de três por cento da coleção de Freud. Isso tornava ainda mais surpreendente o fato de que tantos objetos na mostra evocassem as ilustrações bíblicas. (…) As ilustrações bíblicas devem ter influenciado Freud na escolha dos objetos e talvez até mesmo em sua paixão por colecionar” (p. 13).

A partir dessa observação intrigante, Rizzuto toma então como sua tarefa “apresentar uma explicação psicanalítica para as similaridades”. Assim,

Seguindo o método de investigação do próprio Freud, explorei as circunstâncias de seu colecionamento, o significado pessoal explícito dos objetos, seus prováveis motivos inconscientes e a satisfação consciente que os objetos proporcionavam ao seu proprietário (p. 13).

No percurso de sua investigação, a autora dá-se conta de que a tese freudiana de que a religião perpetua a ilusão infantil de estar protegido por um pai bondoso levou-o a uma busca de libertação desse anseio considerado, por ele, como infantil. Rizzuto descobre que Freud, quando criança, formara em sua mente uma certa representação de Deus que merecia ser pregado e louvado. A partir dessa observação, sua tarefa passou a ser, então, a de descobrir as mudanças intrapsíquicas que transformaram a imagem de Deus que ele possuía quando criança, “em sua denúncia adulta de Deus como um produtor de desejos infantis” (p. 14).

O processo investigatório de Ana-Maria Rizzuto traz-lhe surpresas inusitadas acerca da relação de Freud com a bíblia e com o seu pai. O livro descreve o curso de suas investigações e revela os resultados. Rizzuto mostra, assim, que foi a partir da relação construída com seu pai (de onde provém a idéia de Deus, segundo o próprio Freud) que torna-se impossível a Freud desenvolver uma relação com Deus. A Freud restava uma única escolha, segundo Rizzuto: a de “aceitar que estava sozinho, desprotegido, sem modelo, e que a evidente afeição de seus pais não podia ajudá-lo. (…) O único consolo para ele e para a raça humana era ser estoicamente auto-confiantes” (p. 252). Para Rizzuto,

a dor da pequena criança [de Freud quando criança] levou à insistência veemente em que todos devemos desistir de um Pai-Deus, incapaz de proporcionar qualquer proteção ou consolo. O sofrimento pessoal de Freud se tornara articulado em sua teoria sobre a religião para toda a humanidade. (…) Sua descrença desafiadora expressava a dimensão de sua integridade psíquica e também de sua coragem e de sua capacidade de sublimação: transformar o profundo sofrimento da criança e do adolescente numa nova ciência que abriu os horizontes inexplorados da mente humana. Deus fora substituído pela razão de Freud. O homem desprotegido criara sua própria autoproteção” (p. 252).

Freud generalizou sua experiência pessoal acreditando que esta deveria ser normativa. “Ao perder a perspectiva a respeito do seu próprio sofrimento pessoal, ficou cego para a ‘variedade das experiências religiosas'”, descrita tão bem por William James, seu contemporâneo.

Enfim, a autora concluiu que as experiências infantis de Freud não lhe proporcionaram as condições psíquicas para a crença em Deus. “Seu Deus pessoal não tinha confiabilidade, não merecia crença. Uma forte descrença era a única proteção contra a dor intensa causada pelos anseios não-satisfeitos da criança, do adolescente e do adulto” (p. 253).

Rizzuto pontua que Freud dominou seu sofrimento e sua raiva transformando-os em “obras-primas”. Em outras palavras, poderíamos dizer que ao invés de se configurar um narcisismo reativo em sua subjetividade, as forças ativas, de criação e de afirmação da vida foram as que predominaram. Entretanto, esse modo como sua subjetividade compôs as forças de narcisação “não deixa de revelar, de forma disfarçada e sublimada, sua premente necessidade de uma proteção não conseguida” (p. 253).

O Prof. Edênio Valle publicou uma resenha desse livro de Rizzuto na REVER. Você pode acessá-la aqui.

Ainda sobre Homossexualidade e Religião: uma análise sobre o tema no contexto da Igreja Católica setembro 16, 2007

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 Tem sido bastante acessados os posts sobre “Homossexualidade e religiosidade” e “Sexualidade e Religião”, com disponibilização de textos sobre o tema – de  autoria do Prof. J. Farris . A análise de Farris sobre homossexualidade e religião tem como ponto de partida a perspectiva Protestante. Agora, apresentamos o tema na perspectiva da Igreja Católica, pelo professor Edênio Valle, professor de Psicologia da Religião e Ciências da Religião na PUC – SP.

Segundo Valle, com base em estudos de valor realizados no Brasil, a idéia de “que nada se move quanto às posições da Igreja Católica, da Teologia e de outros especialistas católicos que se pronunciam sobre o assunto” tem sido reforçada.  No entanto, essa idéia de que a Igreja teria parado nos tempos da inquisição não corresponde aos fatos, de acordo com a opinião do professor. Para ele,

Existe entre os psicólogos que estudam a religião um desconhecimento bastante generalizado a respeito do que a Igreja Católica diz oficialmente sobre ética sexual e homossexualidade. O que se sabe e se repete são generalizações sobre pronunciamentos do Vaticano, interpretadas segundo a ótica editorial dos veículos de comunicação e com base normalmente em coisas do passado, quando religião, ciência, direito e costumes viam a homossexualidade como doença e/ou como “crimen pessimum”.

Diante disso, Valle apresenta o pensamento ético que a Igreja Católica defende a respeito da homossexualidade com base em análise dos documentos oficiais da Igreja. Seu estudo é realizado desde a “perspectiva das ciências da religião, com ênfase na abordagem psicontropológica”.

Valle acredita que tem havido um deslocamento na posição da Igreja em relação ao tema  no que se refere, especificamente, “à pastoral (isto é, ao acolhimento e acompanhamento das pessoas)”. Segundo ele, “os textos eclesiásticos (e mais ainda, os dos teólogos) demonstram uma atitude de maior compreensão da complexidade do fenômeno homossexual, em cada um de seus múltiplos e distintos aspectos neurobiológicos (…), socio-antropológicos (…) psicológicos (…), históricos (…) e bíblico-teológicos ( …)”.

Acesse o texto completo, publicado pela REVER, aqui.

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Fé, Boa-fé, Má-fé – Pensar as “condições de possibilidade” da fé na contemporaneidade setembro 12, 2007

Posted by psicologiadareligiao in , Igreja Universal do Reino de Deus, Pesquisas em Psic. da Relig..
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A manchete do Estadão estampa:

“JUSTIÇA DE SP MANDA UNIVERSAL DEVOLVER DOAÇÃO DE FIEL”.

Está aqui mais um tema relevante – entre tantos outros – a ser refletido pela Psicologia da Religião: a fé e as relações de poder na experiência religiosa.

Na matéria referida acima, O Estadão e a Folha de São Paulo “jogam” a notícia. Obviamente o assunto é polêmico e o debate envolve várias perspectivas, desde a teológica, a religiosa, a jurídica, a sociológica, a política, e claro, a psicologia da religião…

No que diz respeito à Psicologia da Religião, o tema aponta a necessidade desta de buscar exercitar-se numa forma de pensar que seja mais interdisciplinar, a fim de que a sua contribuição teórica possa ser traduzida, também, na prática. A colaboração com outras disciplinas, a partir de algo que lhes seja comum, pode ajudar na criação de estratégias e na invenção conjunta de dispositivos que estejam voltados à afirmação da vida. Dispositivos estes que carreguem a potência de produzir subjetividades mais humanizadas e cooperantes.

A notícia sobre o processo contra a Igreja Universal do Reino de Deus põe em evidência a premência do estudo e pesquisa sobre a fé na contemporaneidade e o (ab)uso de poder que se configura em suas mais variadas expressões.

A boa-fé dos fiéis favorece o aparecimento de práticas de má-fé de pessoas que se colocam como “líderes espirituais”. Mas, a despeito da fé ingênua e dos abusos da fé que se verificam na História, “a fé é possível”, segundo Tillich, e “até necessária em nosso tempo”. Tillich, em seu estudo sobre a “dinâmica da fé”,  afirma que esta

também não pode ser desvalorizada pela distorção supersticiosa ou autoritária de seu sentido dentro ou fora das igrejas, das seitas ou de movimentos ideológicos” (Tilich, 1980, p. 82).

Eis, pois, diante de nós, mais um desafio: o de pensar sobre as “condições de possibilidade” da fé na dinâmica da sociedade contemporânea.

A prevalência de Transtornos Mentais entre ministros religiosos – uma pesquisa na interface Psiquiatria e Religião setembro 11, 2007

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Dez anos atrás, o Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto apresentou uma tese de pós-doutorado (Livre-docência para a Faculdade de Medicina da USP) onde investiga a prevalência dos transtornos mentais entre ministros religiosos. Uma das conclusões do prof. Lotufo Neto foi a de que

A religião, uma variável que influencia a saúde mental, está sendo negligenciada pela psiquiatria nos seus estudos e programas de tratamento e prevenção.

Observação semelhante foi colocada por um dos Grupos de Trabalho no VI Simpósio de Psicologia e Senso Religioso – 2007, apontando que a negligência do estudo da Religião/religiosidade se faz sentir por sua ausência na grade curricular dos Cursos de Graduação em Psicologia. É verdade que poucos são os cursos de Psicologia que oferecem a disciplina Psicologia da Religião em seu currículo, nem mesmo como disciplina optativa. Está aqui um dado que pede uma reflexão consistente a respeito.

Segue o resumo do trabalho do Dr. Francisco Lotufo Neto, que também pode ser acessado no site do CPPC.

Psiquiatria e Religião: A prevalência de Transtornos Mentais entre Ministros Religiosos

O campo é vasto e foi necessário delimitá-lo. Optou-se pelos estudos psiquiátricos a respeito da religião que tiveram a preocupação de testar uma hipótese, de estudar a relação entre transtornos mentais e religião de forma empírica. Por isso, deixou-se de lado a imensa quantidade de literatura muito rica, mas contendo apenas reflexões e opiniões a respeito. Este trabalho divide-se em duas partes. Na primeira deu-se uma introdução sobre os principais conceitos acerca de religião, espiritualidade e fé, além de definir os diferentes tipos do uso da expressão saúde mental. A seguir examinou-se as características da religião que pode ser prejudicial à saúde mental. Apresentou-se os diferentes mecanismos pelos quais a religião pode influenciar a saúde e detalhou-se o que os trabalhos mostram sobre a relação entre religião, saúde física, bem-estar e os diferentes transtornos mentais. Os problemas metodológicos do estudo da religião na psiquiatria foram abordados e as principais recomendações encontradas na literatura detalhadas. Na Segunda parte, resumiu-se a literatura sobre transtornos mentais em ministros religiosos, ficando evidente que o tema foi muito pouco estudado. Os trabalhos são antigos, de muito antes do início de cuidados como critérios e instrumentos diagnósticos. Examinou-se também a literatura sobre os fatores de estresse na vida do sacerdote.

Métodos
Para investigar a prevalência de transtornos mentais em ministros religiosos cristãos, não católicos, moradores da cidade de São Paulo, 750 questionários contendo o “Self-Report Psychiatric Screening Questionnaire (SRQ-20)” e o “Inventário de Vida Religiosa” foram enviados pelo correio. Das 207 respostas, quarenta foram sorteadas e convidadas para uma entrevista com o “Schedule for Clinical Assessment in Neuropsychiatry” e uma entrevista aberta visando responder à Escala para Gravidade de Estressores (eixo IV do DSM-III-R).

Resultados
A prevalência de transtornos mentais no mês que precedeu a entrevista foi de 12,5%, e 47% receberam um diagnóstico quando a vida toda foi considerada. Os principais diagnósticos foram Transtornos Depressivos (16,4%), Transtornos do Sono (12,9%) e Transtornos Ansiosos (9,4%). Religiosidade do tipo intrínseco (onde a religião constitui um fim em si mesma, em que a pessoa “vive a sua fé”) foi associada com saúde mental. Problemas financeiros, problemas com outros pastores, conflitos com os líderes leigos da igreja, dificuldades conjugais, problemas doutrinários na igreja e sobrecarga de trabalho foram os fatores de estresse identificados mais importantes.

Conclusões
o A religião, uma variável que influencia a saúde mental, está sendo negligenciada pela psiquiatria nos seus estudos e programas de tratamento e prevenção.
o É necessário que o psiquiatra esteja familiarizado com a literatura sobre religião e conheça a religiosidade de sua clientela, para saber como utilizá-la clinicamente.
o Nas pesquisas, é necessário uma avaliação multidimensional, que a respeite em sua complexidade.
o Orientação religiosa intrínseca parece ser benéfica à saúde mental.
o Ministros religiosos cristãos não-católicos, residentes em São Paulo, têm uma prevalência aumentada de transtornos afetivos e ansiosos, e menor de abuso e dependência de álcool e drogas.
Tese de Pós-Doutorado (Livre Docência para a Faculdade de Medicina da USP), apresentada em 1997.

Para obter acesso ao estudo completo entre em contato por e-mail: franciscolotufo@uol.com.br

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Teologia e Biologia – Curso de Extensão setembro 10, 2007

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teologia e biologia

O curso será ministrado no período de 16 a 18 de outubro/2007, na Escola Superior de Teologia – EST, pelo Prof. Dr. Carlos José Hernandéz, médico psiquiatra, professor aposentado de Psicologia da Religião, da Universidade de Posadas. A carga horária do curso é de 16 horas e abordará temas a partir de um enfoque da “biologia da ressurreição”. Mais informações a respeito desse curso você pode acessar aqui.

Sofrimento como possibilidade de afirmação criativa da existência setembro 6, 2007

Posted by psicologiadareligiao in Antonio Negri, culpa, forças reativas de narcisação, , sofrimento, vergonha.
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Estou lendo “Jó – A força do escravo”, de Antonio Negri. Esperava terminar a leitura para depois comentar aqui. Mas tomei conhecimento de uma entrevista de Negri – para Valor Econômico a respeito desse livro – que vale a pena reproduzir aqui (a entrevista também está no blog do Ezequiel).

No modo de subjetivação contemporâneo sofrer é feio, é vergonhoso… Não é por acaso que a indústria farmacêutica dos antidepressivos continua em crescimento, talvez nas mesmas proporções que crescem os “efeitos colaterais” produzidos pela produção social da vergonha (isolamento, diminuição da potência criativa, fechamento em si mesmo, etc…) Aproveito para dizer que, a meu ver, tem havido uma alteração significativa na configuração subjetiva contemporânea, em relação ao caráter dos sofrimentos. Se até há pouco tempo atrás, os consultórios de psicologia se viam às voltas com os sofrimentos movidos pelo sentimento de culpa, hoje, em geral, são as feridas relativas à vergonha e às forças reativas de narcisação.

Entretanto, seja pela culpa, seja pela vergonha, “o sofrimento é condição da existência”, como afirma Negri. Na experiência de sofrimento é possível afirmar a vida e criar alternativas inusitadas que aumentem a potência de existir. “Identificar a origem do mal e enfrentá-lo”, como sugere Negri, constitui-se, pois, não apenas uma estratégia para lidar com o sofrimento, mas também um exercício de libertação e de invenção de outros modos de vida.

Segue a entrevista completa:

Valor Econômico – SP (06/07/2007)
A travessia de um sofrimento

Por José Castello, para o Valor

Antonio Negri no seu apartamento, em Paris: “Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro”

O filósofo Antonio Negri não aceita o pessimismo e tampouco a debilidade que dominam o pensamento contemporâneo. Nascido em Pádua, Itália, em 1933, ele se tornou mais conhecido no Brasil depois da publicação do polêmico “Império”, livro de 2000, escrito a quatro mãos com Michael Hardt. O pensamento vigoroso de Negri volta às livrarias com o lançamento de “Jó, a Força do Escravo”, pela editora Record.

Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria guardados no “Antigo Testamento” e na “Tanakh”. De autoria incerta, “O Livro de Jó”, que alguns atribuem a Moisés, outros a Salomão, acredita-se, foi escrito em torno de 2000 a.C. Toda a sabedoria de Jó está em desviar a atenção da figura do diabo para olhar Deus diretamente, mostra Negri. O diabo é um burocrata, que gerencia a relação do homem com Deus e, em conseqüência, a rege. Quando decide olhar Deus nos olhos, Jó ensina, diz Negri, que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação.

Negri afirma que existe, portanto, um aspecto positivo na dor: é da travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si. A experiência da dor pode se converter, desse modo, em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Em vez de se assustar com a incerteza a respeito do futuro, Negri prefere vê-lo como uma experiência de abertura infinita, na qual nada está predeterminado e, em conseqüência, tudo pode acontecer. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência. Para Negri, tudo se constrói a cada instante e é dessa instabilidade, que hoje se costuma ver como ameaça, que o homem pode tirar a felicidade.

Negri começou a escrever “Jó, a Força do Escravo” no início da década de 1980, durante os quatro anos em que esteve preso, sob a acusação de ter sido o mentor do seqüestro e assassinato de Aldo Moro, o popular político da Democracia Cristã. Ele se livrou da prisão quando, em 1983, se elegeu deputado pelo Partido Radical Italiano, vitória que lhe conferiu a vantagem da imunidade parlamentar. A imunidade foi logo retirada pela Câmara dos Deputados, mas antes disso Negri conseguiu se refugiar na França, onde viveu exilado durante 14 anos.

Ele se tornou, então, professor da Universidade de Paris VIII e do Colégio Internacional de Filosofia, convivendo com intelectuais do porte de Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em 1997, enfim, decidiu retornar voluntariamente à Itália, para lutar por sua anistia e a de outros presos políticos em situação semelhante. Depois de ser novamente preso, conseguiu a liberdade condicional. Até 2004, viveu em regime de liberdade restrita. Antonio Negri mora, atualmente, em Veneza, de onde concedeu, por telefone, a entrevista que se segue.

Valor: Nosso mundo, gerido pelos antidepressivos, pelas psicoterapias, pelo misticismo e pelo fanatismo, vive em luta contínua contra o sofrimento. O sofrimento é, também, o tema central de “Jó, a Força do Escravo”. Parece ser, enfim, seu tema mais importante.

Antonio Negri: Sim, o sofrimento é condição da existência. Condição que está ligada diretamente à solidão humana. Nosso desejo de viver se abre, sempre, para os outros. O sofrimento aparece quando alguma coisa, a que chamamos de mal, impede a realização do desejo. No mundo de hoje, os limites à liberdade, ao desejo e à felicidade são muito grandes. Existem muitos entraves em nossa vida. O problema é que, em geral, atribuímos a esse mal que veda nosso acesso à felicidade uma origem misteriosa. Jó, de início, faz a mesma coisa, apegando-se à idéia de uma origem enigmática para a dor. Mas o importante em Jó é que, em dado momento, ele identifica a origem do mal e a enfrenta. O mal, então, deixa de ser um mistério, deixa de ser uma ameaça difusa, e toma uma forma. Quando Jó olha Deus de frente, quando ele vê o Absoluto, vê a si mesmo e compreende, então, que a origem do mal é completamente objetiva. Ao encarar Deus, Jó se apropria de Deus. Ele entende, aí, que só ele mesmo pode se livrar do mal. É o momento em que se liberta também da mistificação do mistério – livra-se da idéia de que o mal tem sempre uma origem misteriosa – e passa a entender o que ele é. É esse o momento mais formidável de Jó.

Valor: Em geral, reduz-se a figura de Jó a uma caricatura, a do homem que tem uma paciência infinita. O sr. o vê, ao contrário, como um homem que se engaja na luta e na ação.

Negri: Jó é um personagem ativo. É um homem que constrói riquezas com seu trabalho, é um homem feliz, que deseja entender a existência do mal. Reduz-se Jó, em geral, a uma caricatura – por exemplo, quando se fala da “paciência de Jô”. Contudo, a idéia de que Jó é um homem que sofre pacificamente é falsa. Ele está sempre em luta contra o mal, ele o enfrenta e o combate. Por que o mal? Por que Deus permite o mal? – essa é sua grande pergunta. Já que não há nada que justifique o mal.

Valor: O poeta italiano Giacomo Leopardi (1789-1837), conhecido por seu pessimismo, é outro personagem importante em suas reflexões sobre o sofrimento. Também para Leopardi, a dor não leva ao imobilismo. Ao contrário, ele dizia que o homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa. Em que medida Leopardi e Jó se aproximam?

“A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz o presidente Bush”

Negri: Escrevi um livro sobre Leopardi, “Lenta Ginestra”, ensaio sobre a ontologia, que se inspira em um de seus últimos poemas. Creio que existe uma comparação positiva entre Jó e Leopardi. Para os dois, é a comunidade dos homens que se opõe e enfrenta o mal. Os dois me ajudam a lutar contra as escolas pessimistas de pensamento. Na verdade, não é uma questão de pessimismo ou de otimismo, mas, sim, da capacidade humana de se organizar para agir e para reagir. Não se trata de escolher entre o pessimismo de Leopardi e de Schopenhauer ou o otimismo, por exemplo, dos marxistas. Acho que a vida, de fato, é dura, mas o homem tem uma vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro.

Valor: O sr. começou a escrever Jó na prisão, em um momento no qual não tinha perspectivas a respeito da reconquista da liberdade. Em que medida essa experiência pessoal do sofrimento marca sua obra?

Negri: Escrevi tanto sobre Jó como sobre Leopardi atrás das grades. Havia, sim, um sofrimento pessoal que me mobilizava, mas era um sofrimento concreto. No meu caso, o sofrimento provinha da falta absoluta de liberdade e também da falta de perspectiva de reconquista da liberdade. Não era um sofrimento misterioso. Eram coisas concretas e bem visíveis que me influenciaram, como, por exemplo, a percepção que passei a ter da derrota política. O trabalho que fiz na prisão foi não só de interpretação do sofrimento, mas também de construção de um pensamento. Foram coisas que andaram juntas. São coisas, é verdade, que saíram de meu sofrimento. Mas não basta ficar no sofrimento, o importante é ligá-lo aos fatos históricos. E enfatizar que podemos ver esse sofrimento na perspectiva racional, isto é, em uma perspectiva clara. Que é possível conservar uma concepção racional não só do sofrimento, mas também da história e da vida como um todo.

Valor: Hoje se fala muito de um crescente mal-estar que acomete todo o planeta. Um mal-estar difuso, que penetra nas zonas mais inesperadas e, freqüentemente, se esquiva de uma definição e de um nome. Ele se associa ao vazio, à descrença no futuro, ao desencanto, e sua presença, parece, se torna cada vez avassaladora.

Negri: Sim, existe hoje uma visão mística do sofrimento. Ela é alimentada pelos adeptos da new age, do esoterismo, do orientalismo. É estimulada por todos os que afirmam que o sofrimento é místico. O Brasil é o país de Paulo Coelho. Já escrevi sobre Coelho para a “Folha de S. Paulo”. A penetração de seus livros dá uma boa indicação do que você fala. Em seu país, a concepção mística do sofrimento foi enfrentada com firmeza pelos padres da Teologia da Libertação. Eles tiveram a coragem de introduzir no catolicismo a possibilidade de mudança e de luta. Sou um grande admirador dos ensaios de Leonardo Boff. Eles oferecem uma visão que é cristã, mas é também materialista e muito forte, muito potente. Mesmo os cristãos não podem descartar, não podem deixar em segundo plano, o aspecto material. Ele está presente, por exemplo, na doutrina da ressurreição da carne após a morte. O corpo que reaparece, o corpo que renasce, o que ele é? Ele é matéria. Logo, mesmo na tradição cristã, existe um forte componente material. Muitos cristãos não conferem a devida importância a essa idéia do corpo ressuscitado. Insisto: o que ressuscita é o corpo, é a matéria. Portanto: o corpo está no centro da fé. Quanto a Paulo Coelho, do mesmo modo, não me parece que o sucesso dele seja muito místico… É muito mais um sucesso material, ligado, portanto, à matéria também.

Valor: Associa-se sempre esse cenário de esvaziamento e de amortecimento da razão ao mundo pós-moderno. Fala-se ainda na vigência de um “pensamento fraco”, que seria uma característica nefasta do novo século. O sr. compartilha essa visão?

Negri: Não posso negar que o nascimento de pós-moderno delimita a aparição de um “pensamento fraco”. Surge uma forte negação da história, negação do valor do trabalho e, sobretudo, negação da luta. O pós-modernismo nada mais é que a negação, o ultrapassar dos valores da modernidade. Existe, de fato, essa tendência negativa. Mas existe também uma reação, uma busca do saber, o investimento em uma nova organização social, em uma nova ordem e também em uma nova razão. Uma volta a valores da modernidade, mas em uma perspectiva nova, que dá mais força ao individualismo. Esse seria o lado positivo do pós-modernismo.

Valor: Como seria essa nova razão? O papa Bento XVI diz, por exemplo, que a aproximação de Deus não se dá pela palavra, isto é, pela razão, mas “por atração”. Como o sr. vê a idéia?

Negri: Primeiro, é preciso pensar o que é a razão. A razão é muito mais rica que a razão instrumental e eurocêntrica. Particularmente, estou convencido de que a razão é extremamente corporal e vibrante. Mas essa característica biológica da razão não nos tira a responsabilidade sobre ela. A idéia de engajamento “por atração”, como sugere Bento XVI, tira do homem a responsabilidade de sujeito. Todos esses sujeitos do fanatismo e do extremismo são exatamente sujeitos que abdicaram da razão e, por isso, se tornaram muito perigosos. São perigosos, sobretudo, porque negam as singularidades e as particularidades. A grande luta, hoje, é a da afirmação do múltiplo e da democracia. A identidade está sempre ligada à multiplicidade. E é a partir dela que podemos agir. No fanatismo, ao contrário, há uma espécie de identidade fixa. O fanatismo religioso, o patriotismo e o nacionalismo se apóiam, sempre, em uma identidade fixa – pelo menos quando vista de fora. Contudo, por dentro atuam, como diz o papa, “por atração”. É a dinâmica de uma espécie de monstro que devora seus adeptos. Isso, a meu ver, significa o fim da liberdade. E a liberdade é imensamente importante para o futuro da humanidade.

Valor: É a fixação na idéia do mal que leva à paralisia, ao desencanto e ao vazio?

Negri: No “Livro de Jó”, o diabo é uma espécie de burocrata que domina a visão que se tem de Deus e é, em resumo, quem lhe dá forma e identidade. Toda a luta de Jó é para se livrar da burocracia, isto é, para se livrar dessa mediação controlada pelo diabo. E, desse modo, ver Deus diretamente. Olhar Deus cara a cara, afastando o diabo dessa relação. A idéia do diabo justifica o investimento de todas as energias numa luta para derrubar e vencer o mal. É o que faz, por exemplo, o presidente Bush. É essa luta prioritária contra o mal, que coloca sempre a figura do diabo na frente, que leva ao extremismo absurdo, por exemplo, dos ocidentais contra os orientais. A partir do momento em que se pensa em termos de dualidade, toda a complexidade do mundo é reduzida a uma luta de civilizações, o que é não só absurdo, mas perigoso. O extremismo nega as singularidades. Se você reduz tudo a uma luta de Deus contra o diabo, ou do diabo contra Deus, cai em uma armadilha de que é muito difícil sair.